O editorial do Estado de S. Paulo publicado nesta quarta-feira (22) sobre o “bate e assopra” do governo Lula mostra, de forma bastante crua, o humor da burguesia diante do governo. O jornal demonstra estar irritado com uma suposta “incoerência” de Lula, dividido entre a negociação institucional de José Guimarães e a retórica mais demagógica de Guilherme Boulos. O problema real não é incoerência nenhuma, mas sim que a burguesia já começa a sinalizar que não tem grande disposição para aceitar a tática lulista para as eleições.
Lula tenta governar respeitando os limites neoliberais impostos pelo regime, aceitando a chantagem permanente dos bancos e a pressão incessante da imprensa capitalista, para, dentro disso, conseguir aprovar medidas sociais limitadas que aliviem a situação dos mais pobres sem mexer no essencial. É uma política de conciliação de perde-perde.
Essa política não funciona, em primeiro lugar, do ponto de vista popular. O governo Lula, neste mandato, tem conseguido muito pouco. Os problemas centrais do País continuam de pé. A dependência de milhões de pessoas do Bolsa Família é um retrato de uma estrutura econômica apodrecida. A indústria não foi recuperada. Os serviços públicos seguem em crise.
Essa política também não funciona, em segundo lugar, do ponto de vista da própria burguesia. E é isso que o texto do Estadão revela com clareza. O jornal não reclama porque Lula esteja fazendo um governo “radical”. Reclama porque até mesmo a combinação de negociação parlamentar com uma dose moderada de demagogia e aceno social já incomoda a burguesia neste momento de crise econômica. O governo passa o mandato inteiro recuando, negociando, fazendo concessões, preservando os interesses fundamentais do grande capital, e ainda assim a burguesia considera excessivo qualquer gesto que cheire, ainda que de longe, um combate à situação social do País.
É isso que está por trás da cobrança do Estadão para que Lula “defina” qual governo é o verdadeiro. O jornal quer que Lula abandone até mesmo o jogo de equilíbrio e adote sem mediações o programa neoliberal exigido pelos bancos. Quer um governo que ataque os trabalhadores de frente, sem rodeios.
O problema é que, ainda que quisesse, Lula não consegue fazer isso integralmente. Sua base social não aceitaria passivamente uma conversão aberta do governo em um governo Javier Milei.
O Estadão percebe isso e reage como representante de um setor que já perdeu a paciência com a fórmula lulista. A burguesia não quer mais esse arranjo ambíguo. Quer um governo plenamente alinhado ao seu programa, sem hesitação.
Isso indica um dado político importante: o plano principal da burguesia não parece ser Lula. O que aparece é outra coisa, isto é, a tentativa de enquadrar Lula desde já e, ao mesmo tempo, preparar uma alternativa.





