O artigo Feminismos futuros, de Sara York, publicado no Brasil 247 nesta quarta-feira (22), carrega um problema já no título. O que está implícito aí não é que existam vertentes do feminismo, mas do próprio feminino, e essa ideia precisa ser combatida.
Dizer que feminino pode ser várias coisas, ou algo indefinido, é tirar das mulheres o direito de existirem como tal. Nesse sentido, o identitarismo, ao negar o feminino sua definição, se torna mais um fator de opressão contra as mulheres.
No primeiro parágrafo, York afirma que “por muito tempo, falar em feminismo na universidade significava enfrentar o passado e interpretar o presente. Era um trabalho necessário e ainda é. Mas algo começou a mudar silenciosamente nas pós-graduações brasileiras e internacionais. O feminismo deixou de ser apenas um campo de denúncia e interpretação para se tornar também um campo de projeção. Hoje, em diferentes centros universitários, fala-se cada vez mais em feminismos futuros.”
É preciso dizer, de início, que feminismo não é uma luta que acontece dentro das universidades. O foco na universidade tem importância porque o identitarismo é uma ideologia que nasceu dentro das universidades americanas. E também é preciso esclarecer a afirmação de que “o feminismo deixou de ser apenas um campo de denúncia e interpretação para se tornar também um campo de projeção”.
No movimento feminista a “interpretação”, isto é, a condição da mulher dentro da sociedade capitalista não está dissociada a denúncia, uma vez que as mulheres, por sua condição biológica, foram jogadas a condições subalternas, basicamente a tarefas domésticas e ao cuidado dos filhos. A “projeção”, nada mais é que um elemento estranho ao feminino enxertado no feminismo.
Segundo Sara York, a “mudança aparece com nitidez quando observamos como programas de pós-graduação passaram a tratar o feminismo (ampliado e inclusivo) como ferramenta de imaginação institucional”. O ampliado e inclusivo se refere a pessoas trans, as que não nasceram com o sexo feminino, mas fizeram o que se chama transição, ou as pessoas que se identificam com tal.
“Pós-verdade”
Um dos hábitos dos identitários, além do uso de termos nebulosos como “ferramenta de imaginação institucional”, é colocar a verdade, ou a realidade à prova. York “Em vez de apenas mapear desigualdades, esses espaços perguntam: que universidade pode existir depois das políticas afirmativas? Que ciência pode existir depois da colonialidade explicitada? Que tecnologia pode existir depois da neutralidade fictícia dos algoritmos? Que pedagogia pode existir depois da escuta dos corpos historicamente empurrados para fora da cena científica? Não à toa, até o ChatGPT da vovó já informa que “aquela posição” não é neutra, seja ela qual for”. – grifo nosso.
Mapear as desigualdades é fundamental em uma luta, a menos, é claro, que para os acadêmicos isso não seja um problema. Para as mulheres, com certeza é.
Que universidade, tecnologia ou pedagogia poderão existir, sempre foi uma questão de desenvolvimento social, não o fruto da imaginação de alguém. Os “corpos” que estão sendo empurrados “para fora da cena científica” são justamente as mulheres, pois o conceito científico, biológico, do sexo, está sendo negado.
Colocar tudo em dúvida tem um sentido prático, fica mais fácil contestar a condição feminina da mulher, tratada muitas vezes como construto social.
Sara York diz que “hoje, mulheres representam cerca de 57% das pessoas com pós-graduação no Brasil. Quando realizei um cruzamento de dados em 2018 e informei que éramos 0,02% de pessoas trans nas universidades, jamais imaginaria os dados de 2026. Somos (mulheres cis e trans) maioria na formação científica e, ainda assim, seguimos enfrentando barreiras persistentes de reconhecimento, permanência e ascensão institucional — sobretudo enquanto pessoas trans inseridas”.
Como se viu, York afirma que mulheres podem ser “cis e trans”, mas isso está longe de ser consenso. Há movimentos de mulheres que contestam, com razão, esse tipo de abordagem.
Pessoas trans têm que ter seus direitos reconhecidos como tal, não como se fossem mulheres, pois sua biologia não lhes impõe as mesmas restrições que cabem às mulheres.
As mulheres têm demandas próprias, são elas que por engravidarem foram sujeitadas à escravidão doméstica. Há ainda questões de saúde que são exclusivas, e nada disso diz respeito às pessoas trans. Por mais que as trans tenham direitos que devem ser, obviamente, respeitados.
Idealismo
Um dos grandes problemas do identitarismo é acreditar que colocar uma ou duas pessoas de grupos discriminados em determinadas posições vá mudar alguma coisa. York afirma que os pretensos “feminismos futuros não se limitam a ampliar presença numérica. Eles reorganizam a própria ideia de produção de conhecimento. Isso aparece com força quando observamos o crescimento da liderança feminina em grupos de pesquisa, ainda que mulheres negras continuem sub-representadas nesses espaços. A desigualdade, portanto, não desaparece com o aumento da participação. Ela se transforma e exige políticas mais refinadas, interseccionais e permanentes”.
Vejamos, que possibilidade tem uma cientista de liderar de fato um ramo de pesquisa se ela for mãe e tiver que cuidar dos filhos? Enquanto não houver creches em número suficiente, ou os locais de trabalho estiverem adaptados para as mulheres, elas não vão conseguir ter papel de destaque, a menos que abram mão da maternidade.
Enquanto as mulheres não tiverem creches, lavanderias e restaurantes públicos que a libertem do trabalho doméstico, nada vai mudar de verdade.
Dentro dos muros das universidades é possível ficar divagando que os “feminismos futuros” “são uma mudança de posição epistemológica”. Não são, tudo isso não passa de uma imposição momentânea e a verdade científica vai se impor.





