Análise da 3ª

Rui Costa Pimenta: ‘Lula se adapta ao neoliberalismo no Brasil’

Presidente do PCO tratou das negociações entre EUA e Irã, criticou a política externa do governo Lula e comentou o quadro eleitoral brasileiro

No programa Análise da 3ª, transmitido pela Rádio Causa Operária nesta terça-feira (21), Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à presidência da República, comentou a crise aberta pela guerra dos EUA contra o Irã, a situação dos governos europeus, a ajuda da Rússia e da China a Cuba e o cenário político brasileiro. Ao longo da transmissão, Pimenta afirmou que o imperialismo atua de maneira cada vez mais agressiva no plano internacional e criticou o governo Lula por não apresentar uma política de ruptura com o neoliberalismo nem uma posição consequente diante dos principais conflitos mundiais.

Ao tratar das negociações entre EUA e Irã, Pimenta disse que Donald Trump pode ser obrigado a aceitar uma parte substancial das exigências iranianas. Segundo ele, a Casa Branca iniciou uma ofensiva militar sem ter uma saída clara e agora enfrenta fortes pressões para encerrar o conflito sem ampliar ainda mais a crise.

“Vamos supor que o Trump não consiga algum resultado que permita ele mostrar que ele teve um resultado positivo. Essa guerra vai ter que acabar, não vai ter jeito. Ele pode voltar a atacar o Irã. Não acho que isso daí seja uma boa opção para ele. A pressão dentro dos Estados Unidos contra a guerra é muito grande, a pressão internacional contra a guerra é muito grande, a situação pode escapar de controle se ele decidir fazer uma coisa como essa. Então eu acho que sim, que ele pode acabar aceitando as condições iranianas menos alguma coisa muito humilhante.”

Ainda sobre o mesmo tema, Pimenta avaliou que o Brasil não aparece como um mediador confiável para o Irã. Para ele, o governo Lula adotou uma conduta errática no terreno internacional e fracassou justamente nas questões em que tentou exercer algum papel mais ativo.

Segundo Pimenta, o problema não se limita à questão iraniana. Ele afirmou que a política externa brasileira perdeu consistência e passou a reproduzir, no plano internacional, o mesmo esforço de conciliação que marca a política interna do governo. Em sua avaliação, o Planalto tenta não romper nem com a direita nem com a esquerda, mas acaba sem firmeza em nenhuma frente.

“O Brasil poderia intervir, porque eu acho que o Irã não vê o Brasil como um mediador confiável. Ele não pediu nenhum mediador também. Os russos e os chineses estão muito próximos, mas o Brasil é aquele membro dos BRICS que tem muita proximidade com o imperialismo. Então, acho que o Lula, com a política errática dele, tentou algumas jogadas que fracassaram miseravelmente, por exemplo, na Venezuela. Não reconheceu o governo da Venezuela. E ele não foi bem em nenhuma questão internacional. Eu acho que a política externa brasileira espelha o que é a política interna, que é complicada.”

Ao comentar a aproximação de Lula com chefes de governo europeus apresentados como “democratas”, Pimenta afirmou que essa orientação leva a esquerda a se alinhar com os principais centros do imperialismo. Para ele, a oposição entre “democracia” e “fascismo”, adotada por amplos setores da esquerda brasileira, serve para encobrir o apoio desses governos ao genocídio em Gaza, à guerra contra a Rússia e à repressão contra manifestações em defesa da Palestina.

“Se a luta é entre a democracia e o fascismo, então você vai acabar se aliando ao imperialismo. Gente que é responsável por muita atrocidade. Todos eles apoiaram e continuam apoiando o genocídio em Gaza. Eles não só apoiam o genocídio, como eles reprimem a mobilização nos seus respectivos países contra o sionismo, em nome do antissemitismo. Então, isso é uma política totalmente incoerente, é uma política sem sentido. É uma ficção política, na realidade, que o Lula criou.”

A mesma crítica apareceu quando o dirigente do PCO analisou a situação da Hungria. Para ele, a derrota de Viktor Orbán não representou nenhuma vitória democrática, mas sim um avanço do setor europeu mais comprometido com a escalada da guerra contra a Rússia. Pimenta disse que o conflito naquele país nada tinha a ver com democracia, mas sim com a tentativa da União Europeia de derrotar um governo que resistia a um maior envolvimento militar no conflito ucraniano.

“Podemos considerar o Orbán como extrema direita, vamos supor. Visivelmente, o conflito não era entre os que querem a democracia e os que querem o fascismo. No caso da Hungria, isso é transparentemente falso. Não tem como disfarçar. A União Europeia empregou todos os esforços para derrotar o Orbán por causa da proximidade do Viktor Orbán com a Rússia. Ele vetou a entrega de armas da União Europeia para a Ucrânia. Então ele foi derrotado, na verdade, pelo Partido da Guerra. O conflito seria entre a Rússia, digamos assim, e o Partido da Guerra europeu, o partido do imperialismo belicoso, agressivo. Não tem nada a ver com a democracia.”

Pimenta também sustentou que a própria ofensiva europeia contra a Rússia é apresentada de forma invertida pela propaganda imperialista. Segundo ele, os governos da União Europeia utilizam a operação militar defensiva russa na Ucrânia para justificar um rearmamento geral do continente e preparar novos choques.

“Veja o aumento do gasto militar em todos os países da União Europeia. Alguém pode acreditar que isso daí seja uma medida defensiva? Seria de uma extrema ingenuidade. Porque os russos, em momento algum, deram a entender que eles atacariam os países da Europa, estão numa posição puramente defensiva. A União Europeia se aproveita do fato de que os russos tomaram a iniciativa na Ucrânia, do ponto de vista militar, para dizer que os russos são capazes de invadir qualquer país, quando é óbvio que a invasão russa da Ucrânia foi uma medida defensiva e não uma medida agressiva.”

Outro ponto central do programa foi a situação de Cuba. Pimenta comentou o envio de petróleo russo à ilha e a assistência chinesa ao setor energético cubano. Para ele, essas iniciativas indicam uma mudança mais ampla na posição de Rússia e China diante da ofensiva imperialista, com ambos os países passando a agir de maneira mais firme em apoio a governos e povos atacados.

“Eu acho que a iniciativa russa é muito importante. Essa iniciativa dos russos, bem como o papel mais agressivo nas declarações contra o imperialismo, no caso do Irã, mostra que os governos russo e chinês estão agindo já sobre a base do cálculo de que eles podem ser vítimas dessa política. Então, é melhor se antecipar do que esperar a bomba cair em cima deles. Essa iniciativa russa de mandar petróleo para Cuba não parece ser um caso isolado. Acho que já faz parte de uma política global.”

Pimenta acrescentou que o Brasil também poderia ajudar Cuba de maneira mais efetiva, inclusive com o petróleo, mas observou que o governo Lula tem atuado de modo muito tímido. Segundo ele, o próprio presidente brasileiro afirmou que teria disposição para ajudar a ilha, mas nada de grande peso apareceu até agora.

Da política internacional, o programa passou para a situação brasileira. Ao comentar um pronunciamento de Lula na Europa, em que o presidente afirmou que o progressismo virou gestor da miséria neoliberal, Pimenta disse concordar com o diagnóstico, mas ressaltou que o próprio governo brasileiro também se encaixa nessa definição.

“A política dele é mais moderada, muito mais moderada do que a dos europeus. O Macron, por exemplo, é uma política duríssima contra a população francesa. É o que eu chamaria de neoliberalismo ativo e militante. O neoliberalismo do Lula é um neoliberalismo passivo. Quer dizer, ele se adapta ao sistema neoliberal que existe no Brasil. Agora, eu não acho que essas medidas que ele está apresentando são guinadas, eu acho que é uma política eleitoral.”

Em seguida, Pimenta afirmou que, para romper de fato com o neoliberalismo, seria necessário atacar seus principais sustentáculos no País, como a dívida pública, as privatizações e o chamado equilíbrio fiscal. Sem isso, disse ele, qualquer crítica ao neoliberalismo permanece apenas no plano verbal.

“Se você colocar em prática o que ele propôs na Alemanha, você teria que comprar uma briga no Brasil contra o regime político brasileiro. Você teria que levantar o problema da dívida interna, você teria que socavar os pilares do neoliberalismo, teria que romper com essa política. Se você não vai atacar esses fundamentos, não adianta falar que o pessoal é gestor do neoliberalismo. Porque você não está rompendo com isso.”

Ao analisar a disputa eleitoral, Pimenta afirmou que a fórmula “democracia contra fascismo” serve, no máximo, para manter coeso o eleitorado que já apoia Lula, mas não responde ao problema central da eleição. Segundo ele, a discussão principal deveria estar concentrada no programa econômico defendido pelo bolsonarismo.

“O que deveria estar em primeiro lugar é a crítica do programa econômico do Flávio Bolsonaro. Esse que é o problema-chave. Ele falou que vai fazer reforma trabalhista, vai fazer reforma da Previdência, vai fazer cortes no orçamento, vai privatizar. Quer dizer, é um programa neoliberal duro. Uma eleição para valer teria que ser a proteção do País, a defesa da economia nacional, dos trabalhadores, contra a política de terra arrasada.”

Para o presidente do PCO, o PT evita esse enfrentamento porque também não pretende romper integralmente com o ajuste fiscal e com as demais imposições do capital financeiro. Por isso, disse ele, o partido não consegue levantar uma plataforma anti-neoliberal consequente.

Sobre a candidatura própria do PCO, Pimenta afirmou que o partido decidiu participar da disputa para marcar uma posição política independente em relação ao PT. Comentando dados da pesquisa do Paraná Pesquisas citados durante o programa, segundo os quais seu nome aparece à frente de outros candidatos de extrema-esquerda em São Paulo, ele disse que isso demonstra que existe um setor do eleitorado que identifica o PCO como um partido operário.

“É muito interessante isso. Mostra que uma parte da população identifica nosso partido como partido operário”, declarou, após ouvir dos apresentadores que sua melhor faixa estaria entre trabalhadores, desempregados e eleitores de 25 a 34 anos.

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