Pode parecer mentira, mas Eduardo Guimarães publicou um artigo chamando Vaza lista de “razões” das direitas para atacar o STF, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (21). O jornalista, que andou se enrolando na defesa da esposa de Alexandre de Moraes no caso do Banco Master, aparece agora defendendo não essa configuração do Supremo Tribunal Federal, o que já seria ruim, mas da instituição em si, o que é o mais completo absurdo.
Chama a atenção o título dizer que “as direitas” estão atacando a corte, o que supõe que o tribunal seria de esquerda, ou, na melhor das hipóteses, de centro, o que não encontra apoio na realidade, pois se trata de uma instituição extremamente direitista.
O artigo diz que “o Supremo Tribunal Federal completa 135 anos em 2026. Instalado em 28 de fevereiro de 1891, o tribunal nunca enfrentou um volume tão intenso e contínuo de críticas como nos últimos anos. Pela primeira vez, pedem até prisões dos magistrados por suas decisões”. Qual seria o problema de prisões de ministros do STF? Por acaso são semideuses que estão acima do bem e do mal? Talvez essas doutas criaturas sejam incorruptíveis, daí o espanto do jornalista.
Guimarães reclama de “meses de bombardeios diários nas redes sociais, lives”, etc., questionando a atuação do STF. Apenas deixa de lado que quem levantou a bola do Supremo foi a imprensa burguesa desde o julgamento do Mensalão, que o jornalista deixa espertamente de lado em seu texto. Quem foi que elevou às alturas a figura deletéria de Joaquim Barbosa, e do tribunal, senão a rede Globo?
A face progressista da burguesia
O jornalista afirma que “muitos conservadores acusam o tribunal de ter abandonado o papel de guardião da Constituição para atuar como legislador ativista, impondo pautas progressistas que o Congresso não aprovou”. Desde quando é preciso ser conservador para criticar o “ativismo” do STF que, aliás, foi amplamente apoiado pela maioria dos conservadores, incluindo a grande imprensa, que creditava o voluntarismo da corte à ausência ou morosidade do Congresso.
Guimarães deve se lembrar, em setembro de 2025, a Globo chamou uma manifestação contra o Legislativo visando aumentar o protagonismo do Supremo. A esquerda pequeno-burguesa compareceu, mas como parte de uma operação política.
Dizer que “pautas progressistas” não foram aprovadas é um truque para ocultar o fato do STF estar invadindo as atribuições do Legislativo, o que é em si uma atividade anti-republicana, o que fere até a democracia burguesa.
“Decisões monocráticas e coletivas dos últimos anos teriam transformado o STF em uma espécie de “suprapoder” ideológico”, escreve Guimarães. E qual seria a surpresa? Tem gente que acha que os superministros sequer devem ser alvo de pedido de prisão. Aliás, aqueles que se atreveram a fazê-lo estão sendo ameaçados pela corte, o que prova que se trata mesmo de um “suprapoder”. Que ninguém ouse desafiar os deuses do Olimpo Judiciário.
Os comunas de toga
Segundo o jornalista, “a lista de ações que a direita classifica como ‘comunistas’ ou excessivamente progressistas é extensa e organizada ano a ano. Ela inclui desde criminalização de condutas até intervenções em políticas públicas, meio ambiente, pandemia, direitos indígenas, aborto, drogas e racismo estrutural”. Alguém que tenha o STF como progressista já não anda bem da cabeça. O que dizer de quem considera aquela corte de comunista.
É fato que o Supremo não foi fechado na ditadura militar de 1964. E não adianta dizer que “no entanto, sofreu intervenções diretas”, pois, logo após o golpe de 1º de abril de 1964, o então presidente do Supremo, Álvaro Moutinho Ribeiro da Costa, compareceu à cerimônia de posse de Paschoal Ranieri Mazzilli na presidência da República.
Presença foi fundamental para transmitir à sociedade e ao mundo a ideia de que a transição de poder ocorria dentro da normalidade institucional.
O jornalista defende o STF dizendo que “em 1965, o AI-2 aumentou o número de ministros de 11 para 16 para o regime ganhar maioria; em 1969, o AI-5 cassou três ministros”, o que corresponde a 25% da corte; ou seja, a minoria.
A “Lista” vermelha
Seguindo em seu texto, Eduardo Guimarães apresenta uma extensa lista de “feitos” comunistas do STF – apenas a partir de 2019 –, dos quais vale a pena destacar alguns:
Criminalização da homofobia e da transfobia, equiparando-as ao crime de racismo (ADO 26 e MI 4.733), um enorme retrocesso. ADO significa Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão. Como o Legislativo está sendo considerado omisso, o Judiciário toma a frente e legisla ele mesmo.
A lei do racismo, como este Diário disse que aconteceria, tem servido apenas para proteger o sionismo, os verdadeiros racistas. A criminalização de “transfobia”, “homofobia” e agora “misoginia”, “crimes” subjetivos, tem imposto sobre os brasileiros uma verdadeira ditadura.
Vedação à execução provisória da pena após condenação em segunda instância (ADCs 43, 44 e 54). Essa é a melhor piada do texto, e aqui fica claro porque Guimarães começa a contar sua anedota partindo de 2019. A prisão do ex-presidente Lula em 2018 só foi possível porque o STF, em 2016, alterou uma jurisprudência que durava desde 2009.
Detalhe: nesse pingue-pongue jurisprudencial, o STF não alterou apenas a interpretação de uma lei comum, mas a forma como um direito fundamental (a presunção de inocência) deve ser aplicado na prática. E foi a prisão de Lula que pavimentou o caminho para a vitória de Jair Bolsonaro.
Para piorar, Guimarães, na sua choradeira para defender esses golpistas, diz que “as medidas protegem direitos fundamentais, minorias e a democracia”. É um verdadeiro escárnio, pois ainda xinga a esquerda de burra.
Foi a direita, o grande capital, que deu todo esse poder ao STF. Foram as matérias de jornal, a perseguição implacável ao PT e à esquerda que transformaram ministros do Supremo em verdadeiras heróis cotados inclusive à presidência.
Apenas agora, quando a própria burguesia percebeu que sua criatura estava indo longe demais é que resolveu colocar um freio. Não tem absolutamente nada a ver com combater “progressismos”.
Tem gente passando vergonha defendendo ministros do STF no escândalo do Banco Master, jura de pé juntos que essa corte golpista é, na verdade, progressista, e ainda se acha inteligente.





