O ex-presidente búlgaro Rumen Radev venceu com ampla vantagem as eleições parlamentares da Bulgária e deve formar governo sozinho, possivelmente encerrando um longo período de instabilidade no país. Com 96,4% das cédulas apuradas na manhã de segunda-feira (20), a recém-criada Bulgária Progressista alcançava 44,7% dos votos, muito à frente do GERB-SDS, do ex-primeiro-ministro Boiko Borisov, com 13,4%, e do PP-DB, do primeiro-ministro interino Andrey Gyurov, com 12,9%.
O resultado representa um revés importante para o imperialismo europeu. Integrante da União Europeia desde 2007 e da OTAN desde 2004, a Bulgária vinha adotando, nos últimos anos, uma orientação abertamente hostil à Rússia, acompanhada de crise política permanente e sucessivos governos interinos. Esta foi a oitava eleição em cinco anos, expressão do esgotamento do regime político búlgaro.
Radev, que deixou a Presidência da República em janeiro para disputar o comando do governo, apresentou-se como candidato de uma saída nacional para a crise. Seu partido foi criado há menos de dois meses, mas sua vitória foi avassaladora. As projeções preliminares lhe atribuem entre 131 e 134 cadeiras no Parlamento de 240 assentos, acima das 121 necessárias para formar maioria absoluta sem precisar de coalizão.
Ao falar após a divulgação das primeiras pesquisas de boca de urna, Radev afirmou que a Bulgária seguirá “seu caminho europeu”, mas declarou que tanto Sófia quanto a própria União Europeia precisam de “mais pensamento crítico” na política externa. Ao defender a retomada do diálogo com a Rússia, o dirigente afirmou que esse restabelecimento é necessário para definir a futura arquitetura de segurança da Europa e também para deter a desindustrialização do continente.
Segundo ele, sem acesso a recursos energéticos, a Europa não pode falar seriamente em competitividade nem em autonomia estratégica real. A declaração atinge diretamente a política de sanções e confronto adotada por Bruxelas desde o início da guerra na Ucrânia. Radev já havia se colocado contra o embargo búlgaro à energia russa, impedido em 2022 um plano para enviar veículos blindados à Ucrânia e sustentado que não há solução militar para o conflito.
Na campanha, o ex-presidente prometeu manter uma “Bulgária europeia moderna”, mas com relações práticas com a Rússia baseadas no respeito mútuo. Também prometeu enfrentar o que chamou de domínio da “máfia oligárquica” sobre o país. Ao comemorar a vitória, declarou que o resultado representava “a vitória da esperança sobre a desconfiança” e disse que sua candidatura superou a apatia política acumulada depois de anos de crise.
A dimensão do resultado é ainda mais significativa porque derrota duas forças identificadas com a submissão direta à União Europeia. Borisov foi derrubado em meio a escândalos de corrupção e acabou reduzido a uma fração de seu antigo peso eleitoral. Já o PP-DB, representante do setor liberal pró-imperialismo, também ficou muito atrás. Em sua mensagem final antes do pleito, Borisov havia prometido “apoio total à Ucrânia”, deixando claro o alinhamento de sua corrente à ofensiva imperialista no Leste Europeu.
Segundo Leonid Slutski, presidente do comitê de relações internacionais da Duma e dirigente do LDPR, a vitória da Bulgária Progressista expressa a fadiga da sociedade diante de um “rumo russófobo” imposto em detrimento dos interesses nacionais. Para ele, cresce na Europa o peso de forças soberanistas contrárias ao militarismo agressivo da direção da União Europeia.
Outro dado importante é que, assim como em outros países europeus, a eleição búlgara ocorreu sob intervenção direta dos mecanismos de censura da União Europeia. O bloco acionou na Bulgária o chamado Sistema de Resposta Rápida, conjunto de instrumentos voltados à remoção de suposta “desinformação” das plataformas digitais durante o processo eleitoral. Em nome do combate à influência estrangeira, Bruxelas amplia seu aparato de controle político sobre as eleições do continente.
Imprensa imperialista lamenta o resultado
A reação da imprensa imperialista ao resultado foi de preocupação. O Washington Post tratou a vitória de Radev como um novo ponto de apoio de Moscou dentro da União Europeia e ressaltou que o resultado poderia devolver à Rússia margem de influência em um país integrante tanto da União Europeia quanto da OTAN.
O jornal norte-americano destacou que o Crêmlin recebeu favoravelmente a vitória e sugeriu que as declarações de Radev poderiam orientar outros dirigentes europeus em direção a um diálogo mais pragmático com a Federação Russa. O texto faz referência à declaração de Dimitri Peskov, porta-voz do governo russo, que afirmou:
“Obviamente, vemos com bons olhos as palavras de Radev […] bem como as de alguns outros líderes europeus relativas à vontade de resolver os problemas através do diálogo”
Ao mesmo tempo, o Washington Post apresentou o novo governo como possível fonte de atrito com Bruxelas, sobretudo em temas como ajuda à Ucrânia e eventual proibição da importação de energia russa.
Como funciona o regime político da Bulgária
A importância desta eleição decorre do próprio regime político búlgaro. A Bulgária é uma república parlamentar. Isso quer dizer que o centro efetivo do poder não está na Presidência da República, mas na Assembleia Nacional, parlamento unicameral de 240 deputados eleitos por representação proporcional para mandatos de quatro anos.
É esse parlamento que aprova as leis, o orçamento, ratifica tratados e, acima de tudo, investe e derruba o governo. O Conselho de Ministros, chefiado por um primeiro-ministro, nasce da maioria parlamentar. Em termos práticos, quem controla a maioria da Assembleia Nacional controla o Executivo.
O presidente da República, embora seja eleito diretamente pelo povo para mandato de cinco anos, tem poderes limitados. Representa o Estado, comanda formalmente as Forças Armadas, pode vetar leis — veto que o Parlamento pode derrubar — e nomeia o primeiro-ministro indicado pela maioria ou pela coalizão majoritária. Não é, portanto, quem governa o país.
Há ainda o Tribunal Constitucional, com 12 membros indicados em partes iguais pelo Parlamento, pelo presidente e pelo Supremo Tribunal. Esse órgão atua como “guardião” da Constituição de 1991.
Por isso, as eleições parlamentares são, na Bulgária, as eleições decisivas. São elas que definem quem forma o governo, quem ocupa o cargo de primeiro-ministro e qual orientação será aplicada em temas centrais, como política econômica, relação com a União Europeia, entrada no euro e vínculos com a Rússia.




