Inglaterra

Universidades pagaram agência para espionar alunos pró-Palestina

Investigação mostra que 12 universidades britânicas contrataram empresa ligada ao MI6 para monitorar protestos, alunos e docentes solidários à Palestina

Doze universidades britânicas pagaram, entre janeiro de 2022 e março de 2025, ao menos 443.943 libras a uma empresa privada de segurança e inteligência para monitorar estudantes, grupos de protesto e professores convidados ligados à defesa da Palestina. A revelação foi feita por uma investigação conjunta da Al Jazeera e da Liberty Investigates, baseada em pedidos de acesso à informação enviados a mais de 150 universidades do Reino Unido.

Segundo a apuração, a empresa contratada foi a Horus Security Consultancy Limited, dirigida por ex-integrantes da inteligência militar britânica. A firma recolhia informações em redes sociais, produzia relatórios diários sobre acampamentos estudantis e chegou a elaborar avaliações secretas de “ameaça antiterrorista” sobre palestrantes e acadêmicos favoráveis à Palestina. Entre as instituições citadas estão Universidade de Bristol, London School of Economics (LSE), Manchester Metropolitan University, Universidade de Oxford, Imperial College London, University College London (UCL), King’s College London, Universidade de Sheffield, Universidade de Leicester, Universidade de Nottingham e Cardiff Metropolitan University.

A Horus oferece um serviço chamado Insight, definido por ela como inteligência de fontes abertas, produzido com uma ferramenta própria para recolher grande volume de informações na Internet. A empresa afirma ainda que incorporou inteligência artificial às suas operações desde 2022.

Na LSE, uma das pessoas monitoradas foi a estudante de doutorado Lizzie Hobbs, que participou do acampamento pró-Gaza realizado em 2024. Um relatório enviado à equipe de segurança da universidade em 18 de junho daquele ano destacava uma publicação feita por ela na rede X no dia anterior. A publicação integrava uma série de boletins diários sobre os acampamentos estudantis, vendidos às universidades por 900 libras por mês. Hobbs afirmou que já suspeitava de vigilância, mas disse ter ficado chocada ao ver o grau de sistematização do esquema.

Outro caso revelado pela investigação envolve a acadêmica palestino-norte-americana Rabab Ibrahim Abdulhadi. Em abril de 2023, a Manchester Metropolitan University pediu à Horus uma avaliação secreta de “ameaça” sobre a professora, convidada para uma palestra em homenagem a Tom Hurndall, estudante britânico assassinado por um franco-atirador israelense em Gaza em 2003. A análise da empresa reuniu publicações em redes sociais e acusações antigas formuladas por grupos pró-“Israel”, embora essas acusações já tivessem sido descartadas nos Estados Unidos por falta de fundamento. No fim, a universidade autorizou a atividade, concluindo que não havia elementos que a ligassem a organizações proibidas no Reino Unido.

Na Universidade de Bristol, documentos internos indicam a contratação de um serviço específico de alertas sobre protestos estudantis e mobilizações na cidade. Um correio eletrônico da instituição mostra que a universidade enviou à empresa uma lista de grupos sobre os quais queria receber informações, incluindo organizações pró-Palestina. A universidade afirmou que usava o serviço para acompanhar atividades públicas que pudessem afetar a segurança da comunidade acadêmica.

A Horus tem ligação direta com o aparato repressivo britânico. A empresa foi criada em 2006 a partir da equipe de segurança da Universidade de Oxford por Jonathan Whiteley, ex-tenente-coronel que, segundo o próprio sítio da empresa, teve carreira de 23 anos em operações de segurança, inteligência e contrainteligência. Outro dirigente da companhia é o coronel Tim Collins, que nos últimos anos acusou manifestações pró-Gaza de serem parte de uma campanha articulada por Rússia e Irã e defendeu a deportação de manifestantes estrangeiros que, segundo ele, “se comportem mal”.

Gina Romero, relatora especial da ONU para liberdade de reunião pacífica e de associação, afirmou que o uso de inteligência artificial para recolher e examinar dados de estudantes sob o pretexto de inteligência de fontes abertas traz “profundas preocupações legais”. Segundo ela, a prática permite a coleta desproporcional de dados por empresas privadas sem controle público efetivo.

A própria relatora da ONU declarou ainda que a vigilância contribuiu para um “estado de terror” entre ativistas estudantis britânicos. De acordo com Romero, muitos estudantes vêm sofrendo trauma psicológico, exaustão e abandono da atividade política. Jo Grady, secretária-geral do University and College Union (UCU), principal sindicato do setor, afirmou ser “vergonhoso” que as universidades tenham desperdiçado centenas de milhares de libras espionando seus próprios alunos.

Sete universidades se recusaram a fornecer cópias dos relatórios recebidos da Horus. Quatro alegaram sigilo, embora os informes fossem supostamente baseados em dados públicos. Seis disseram que a divulgação prejudicaria o modelo de negócios da empresa. A Horus, por sua vez, não respondeu às perguntas enviadas repetidas vezes pela Al Jazeera.

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