Na quarta aula do curso A História da Revolução Bolivariana, Henrique Simonard conduziu os alunos pela trajetória triunfante de Hugo Chávez: da cela na prisão de Yare à cadeira presidencial no Palácio de Miraflores. Simonard iniciou a sessão com um anúncio importante para os inscritos na Universidade Marxista: devido à densidade dos eventos históricos que ainda restam cobrir — quase 40 anos de política venezuelana —, o curso será estendido com aulas bônus. O foco desta etapa foi o período entre 1992 e 1998, marcado pela maturação ideológica de Chávez e sua decisão estratégica de abandonar a via insurrecional em favor da via eleitoral.
Simonard começou respondendo a uma dúvida persistente sobre a organização de base do chavismo. Ele explicou que os famosos Círculos Bolivarianos não surgiram do nada, mas foram uma evolução das células do MBR-200 e do PRV que já articulavam o “braço civil” do movimento nas favelas de Caracas. Durante o tempo em que Chávez esteve preso, esses grupos se transformaram nos “Comitês de Liberdade para Chávez”, ganhando alcance nacional. Simonard detalhou a rotina de Chávez na prisão, entre 1992 e 1994, que o próprio comandante chamava de “Universidade de Yare”: um período de leituras intensas e recepção de caravanas de intelectuais e líderes populares que mantinham o líder conectado ao exército através de uma rede de informações operada majoritariamente por mulheres, as “luteadoras”.
Um dos pontos mais detalhados da aula foi o rompimento definitivo entre Chávez e seu mentor, Douglas Bravo. Enquanto Bravo, um veterano da guerrilha, insistia em preparar um novo golpe militar com tanques nas ruas, Chávez começou a ser convencido de que a tática revolucionária clássica não funcionaria mais. Simonard destacou o papel de Luís Miquelena, um antigo militante comunista, em convencer Chávez a buscar o poder pelo voto. Simonard descreveu a mudança de mentalidade de Chávez com o seguinte trecho:
“Chávez sai da cadeia em 1994 convencido de que precisava de uma nova tática, deixando para trás o vício guerrilheiro de Douglas Bravo, que, apesar de sua insistência admirável, possuía uma limitação teórica sobre o momento do país. O comandante decide, então, mergulhar no que chamou de ‘catacumbas do povo’, uma peregrinação física e espiritual pelos recantos mais esquecidos da Venezuela. Ele viajou em um jipe, dormindo na casa de apoiadores e organizando comitês de base, transformando sua figura de herói militar em um líder carismático incontestável. Essa peregrinação não era apenas uma manobra política, mas a construção de uma força organizada nos subsolos que, segundo o próprio Chávez em 1998, percebia que o sistema de Puntofijo estava tão podre que não aguentaria sequer um empurrão nas urnas; o movimento nasceu para ser o instrumento legal dessa indignação acumulada.”
Simonard explicou a evolução siglar do movimento: o MBR-200 (Movimento Bolivariano Revolucionário) transformou-se no MVR (Movimento Quinta República) para disputar as eleições de 1998. O nome era uma provocação direta ao sistema vigente, a “Quarta República”, que Chávez considerava moribunda. Para vencer, ele organizou o Polo Patriótico, uma frente ampla que incluía o PCV, o MAS e o Causa R. O professor ressaltou que a campanha de Chávez foi menos sobre economia e mais sobre uma “revolução espiritual” e dignidade nacional, centrada na promessa de uma nova Assembleia Constituinte.
Um detalhe curioso e quase folclórico da aula foi a análise dos adversários de Chávez. A direita venezuelana, desesperada e sem quadros populares, apresentou como principal oponente Irene Sáez, uma ex-Miss Universo, além de Henrique Salas Römer, que tentava personificar a figura do gestor eficiente. Simonard ironizou a tentativa da imprensa da época de esconder o favoritismo de Chávez, que frequentemente aparecia com apenas 5% nas pesquisas de intenção de voto, um número que ele classificou como “inacreditável” diante das multidões que o seguiam. Sobre a dinâmica daquela vitória, o professor relatou:
“O resultado de 1998, com a vitória de Chávez por 56% dos votos, foi um aprendizado amargo para a burguesia e para o imperialismo, que tentaram até o último minuto fabricar uma realidade paralela através da mídia. Chávez não aparecia de terno e gravata; ele usava sua icônica boina vermelha ou o traje tradicional ‘Lick Lick’, reforçando seu papel de capitão do povo pronto para a batalha final contra a oligarquia. Ele venceu prometendo enterrar a constituição de 1961, que ele chamava de moribunda, e seu triunfo marcou o início da ‘onda rosa’ na América Latina. Mesmo com a máquina do Estado jogando contra e tentando controlar o processo, a força do Polo Patriótico nas ruas foi tão avassaladora que a fraude não conseguiu conter o fenômeno; ali, o subsolo da Venezuela finalmente subiu à superfície, inaugurando a era da Revolução Bolivariana de fato.”
Simonard encerrou a aula comparando a valorização dos símbolos nacionais venezuelanos (Bolívar, Zamora, Rodríguez) com a postura da esquerda brasileira, que, segundo ele, muitas vezes negligencia ou “avacalha” figuras históricas como Dom Pedro I ou Dom João VI. Ele destacou que a força do chavismo reside em sua capacidade de criar conexões emocionais e místicas com o povo, exemplificadas no programa “Alô, Presidente”, onde Chávez atendia telefonemas da população e resolvia problemas ao vivo.




