Coletivos judaicos brasileiros que se colocam contra o sionismo acusaram a assessora especial de Lula, Clara Ant, de impedir sua participação com direito à fala no seminário “Enfrentamento ao Antissemitismo”, organizado pelo governo federal em Brasília. Segundo a denúncia, os grupos chegaram a pedir ao menos dez minutos para se manifestar, proposta que teria sido aceita pelo Itamaraty, mas barrada na coordenação geral do evento. Diante disso, decidiram não participar do seminário.
A informação foi publicada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. De acordo com a matéria, os coletivos Árabes e Judeus pela Paz, Articulação Judaica de Esquerda e Vozes Judaicas por Libertação afirmam que foram excluídos do debate mesmo integrando o Grupo de Trabalho sobre Antissemitismo instituído pelo próprio governo federal.
Em carta enviada ao jornal, as entidades dizem que o seminário foi montado “sem uma real pluralidade” e privilegiou organizações sionistas, inclusive algumas que, segundo elas, têm posições alinhadas à extrema direita e atacam o próprio governo Lula. Os coletivos afirmam ainda que não havia no evento nenhum representante judeu não sionista com direito à fala.
Débora Abramant, da Articulação Judaica de Esquerda, declarou à coluna que o problema central é a tentativa de tornar invisível um setor da comunidade judaica que se solidariza com a Palestina e rejeita a identificação automática entre judaísmo e sionismo. Segundo ela, apenas judeus sionistas, defensores da existência de “Israel” como Estado nacional exclusivamente judaico, foram convidados para debater o tema.
Na carta, os grupos afirmam que a exclusão reforça uma “falsa equivalência entre antissionismo e antissemitismo” e restringe o debate público a um único campo ideológico. Também criticam a intenção do governo de elaborar, em seis meses, uma Estratégia Nacional de Enfrentamento ao Antissemitismo envolvendo ao menos oito ministérios. Para os coletivos, esse movimento levanta preocupação porque pode abrir caminho para interpretações que confundam críticas a Estados, governos ou ideologias com racismo.
Outro ponto levantado pelas entidades é que o Brasil já dispõe de legislação para combater o racismo, incluindo o antissemitismo, e que não haveria justificativa para criar uma especificação do tema sem tratamento equivalente para outras formas de discriminação. Nesse sentido, os signatários mencionam o crescimento da “islamofobia” no País após 7 de outubro de 2023 e criticam o que consideram uma abordagem seletiva do governo.
A carta também se posiciona contra iniciativas legislativas que ampliem a definição de antissemitismo de modo a atingir críticas ao Estado de “Israel”. Os grupos citam nominalmente o projeto apresentado pela deputada Tabata Amaral, que propõe adotar a definição da IHRA. Segundo os coletivos, essa formulação vem sendo criticada por especialistas e organizações de direitos humanos justamente por associar críticas a “Israel” a formas de antissemitismo.
Na avaliação das entidades, esse tipo de definição amplia indevidamente o conceito, cria risco para a liberdade de expressão e pode ser usado para blindar politicamente o Estado israelense. A carta afirma ainda que isso contribui para legitimar violações de direitos humanos, entre elas o genocídio em Gaza.
Os coletivos também criticaram o fato de o seminário ocorrer no Dia Nacional da Lembrança do Holocausto sem garantir diversidade de posições. Segundo eles, celebrar uma data ligada à memória do Holocausto para promover exclusivamente vozes alinhadas ao sionismo constitui uma afronta à própria memória que se diz preservar.





