Eleições 2026

O ‘voto negro’ e o cretinismo eleitoral

Urna nunca alterou a estrutura do Estado, nem desmontou a máquina de repressão, nem acabou com a miséria

No artigo Voto negro tem poder, publicado na Folha de S.Paulo, a jornalista Ana Cristina Rosa apresenta a típica política eleitoral identitária: cobrar dos candidatos um “projeto político” específico para cada identidade e “valorizar o voto” dentro da mesma democracia burguesa que esmaga diariamente o povo negro.

A autora pergunta: “qual o seu projeto político para a população negra brasileira?” e, em seguida, formula questão semelhante sobre “proteção, segurança e bem-estar das mulheres”. A política deixa de ser entendida como luta de classes e passa a ser tratada como administração separada de grupos sociais recortados por identidade. Em vez de perguntar qual o programa para os trabalhadores, para os pobres, para a massa explorada do País, pergunta-se qual é o pacote para este ou aquele segmento, como se a sociedade fosse uma feira de nichos eleitorais.

Essa é a essência do identitarismo: pegar opressões reais e transformá-las em categorias de negociação dentro do regime, sempre sem tocar no problema fundamental, que é a dominação da burguesia sobre toda a sociedade. O povo negro sofre mais? Sem dúvida. As mulheres trabalhadoras são oprimidas? Evidente. Mas a conclusão disso não é fragmentar a luta política em cotas de representação eleitoral. A conclusão é exatamente a oposta: mostrar que a opressão racial e a opressão das mulheres estão ligadas ao funcionamento geral de um regime de exploração que só pode ser enfrentado por meio de uma luta comum dos explorados.

A autora insiste nos números para dar sustentação à sua tese. Lembra que “a maioria dos brasileiros (56%) se autodeclara preta ou parda”, que “64,96% do nosso eleitorado é negro” e que “52 % é feminino”. Mas o que ela faz com esses dados? Em vez de tirar deles uma conclusão explosiva — a de que a maioria do País é composta justamente pelos setores mais oprimidos e, portanto, teria força para derrubar o regime político —, ela os rebaixa a argumento para pressionar candidatos e reforçar a fé no processo eleitoral.

É aí que a mistificação aparece de forma mais nítida. O texto termina com uma exortação clássica do moralismo liberal: “valorize seu voto. Pesquise sobre as propostas dos candidatos. Preze o poder que a democracia nos delega a cada eleição”. Eis a fraude completa. A “democracia” burguesa vira, assim, não o problema, mas a solução.

Só que a experiência concreta desmente essa fantasia. Foi sob a plena vigência dessa mesma “democracia” que o povo negro continuou sendo perseguido, encarcerado, assassinado pela polícia e empurrado para os piores indicadores sociais. Foi sob esse mesmo regime que mulheres continuaram sendo oprimidas. A urna não alterou a estrutura do Estado, nem desmontou a máquina de repressão, nem acabou com a miséria. No entanto, o identitarismo insiste em apresentar o voto como uma espécie de instrumento mágico de reparação histórica.

O trecho em que Ana Cristina Rosa afirma que “esses são questionamentos dos mais relevantes” a serem feitos a quem pretende disputar as eleições mostra precisamente o limite dessa política. Não, esses não são os questionamentos mais relevantes. O mais relevante é perguntar a serviço de que classe governará o candidato. Vai enfrentar os bancos? Vai enfrentar o latifúndio? Vai enfrentar a polícia assassina? Vai romper com o imperialismo? Vai destruir a máquina estatal que reprime o povo negro e pobre? Sem isso, todo “projeto político para a população negra” não passa de marketing.

Por isso, a política identitária é profundamente conservadora. Ela fala em nome dos oprimidos, mas os amarra à ordem existente. Faz muito barulho sobre “representatividade”, mas preserva intacto o poder dos exploradores. Convoca negros e mulheres a votarem “melhor”, quando o necessário é convocá-los a se organizarem de forma independente contra todo o regime.

O “voto negro” não tem poder em si. O que tem poder é a mobilização da massa negra e trabalhadora, unida ao restante dos explorados, contra a burguesia e seu Estado. Fora disso, o que se oferece é apenas mais uma variante da velha fraude eleitoral.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.