A edição desta sexta-feira (17) do programa Resumo do Dia, da Causa Operária TV, recebeu o médico obstetra Ricardo Herbert Jones para sua primeira entrevista após ser libertado de um período de prisão que mobilizou ativistas do parto humanizado ao redor do mundo. Ric Jones, um veterano com mais de 40 anos de formação, iniciou sua fala agradecendo o apoio “vibrante e intenso” que recebeu do Partido da Causa Operária (PCO) e, especialmente, de Natália Pimenta, que abraçou sua causa desde a primeira hora. O médico traçou um paralelo entre a medicina e a política, afirmando categoricamente que “o parto é um fato político” e que a obstetrícia moderna frequentemente cai em um “positivismo médico” que ignora as repercussões sociais e o domínio sobre o corpo feminino.
Ao longo do relato, Jones explicou que sua trajetória no movimento começou nos anos 1980, ao perceber que o sistema hospitalar transformava um evento fisiológico em um procedimento cirúrgico de intervenção constante. Ele argumentou que a transição das parteiras para os cirurgiões no século XX retirou o protagonismo das mulheres, tratando-as como seres “incapazes e defectivos”. Para o médico, a visão masculina predominante na obstetrícia é baseada no controle, onde a paciente ideal é aquela que permanece silenciosa, deitada e anestesiada. Segundo ele, o parto domiciliar planejado, que defende arduamente, é combatido por uma “casta médica” reacionária que vê o respeito ao desejo da mulher como uma perda de poder corporativo. Sobre a essência do nascimento, Jones ofereceu uma reflexão profunda:
“O nascimento humano congrega no mesmo evento morte, vida e sexualidade, e os aspectos sexuais do parto são os mais desafiadores, porque é difícil para médicos formados em uma faculdade cartesiana entenderem o que se encontra além das cortinas. Existe toda uma luta em relação aos domínios sobre o corpo das mulheres; a partir do século passado, houve uma migração violenta das parteiras para os médicos, e colocamos nas mãos de cirurgiões o atendimento de um processo fisiológico. O parto começou a ser atendido na lógica da intervenção, de cortar, costurar e tratar o que está ‘desviado’, mas o parto não tem nada de desviado. Controlar o parto é controlar as mulheres, mantendo-as dominadas através de um sistema onde os médicos são os determinantes legais daquele evento.”
O ponto central da entrevista foi o detalhamento do caso que levou à sua condenação. Jones descreveu o atendimento a uma paciente que buscava especificamente o parto domiciliar. Após um trabalho de parto tranquilo, o bebê nasceu com bons índices, mas apresentou um quadro respiratório “não tranquilizador”. Seguindo os protocolos, o médico removeu o bebê para o hospital, onde a criança chegou em boas condições, corada e hidratada. No entanto, ele denuncia que o hospital negligenciou o atendimento imediato, mantendo o recém-nascido em observação por quatro horas antes de iniciar antibióticos para uma pneumonia congênita indetectável no pré-natal. Jones criticou duramente a acusação de dolo eventual, afirmando que foi julgado não por um erro técnico, mas por sua postura ideológica e “mística” em favor da autonomia feminina. Sobre as irregularidades de seu julgamento, ele destacou:
“O número de irregularidades durante o julgamento é enciclopédico, mas a mais significativa foi o impedimento dos meus peritos — uma enfermeira e um colega obstetra — de falarem perante o comitê de sentença por um detalhe técnico de prazo. O comitê não julgou o fato em si, mas foi levado pela promotoria a julgar o parto domiciliar como se fosse ilegal, quando não existe nenhuma ilegalidade em atender a paciente onde ela deseja. Os autos provam que o bebê chegou muito bem ao hospital, descrito pela própria pediatra local, e passou mal lá dentro por problemas hospitalares. Fui julgado por crime de dolo eventual, algo inacreditável para um médico, enquanto profissionais com 90% de cesarianas, o que é condenado pela boa medicina, nunca sentam no banco dos réus porque não agridem os poderes da corporação.”
Apesar do trauma da prisão, Jones classificou o período como um “ano sabático” ou “retiro espiritual” altamente produtivo. Durante o cárcere, ele escreveu livros, incluindo um infanto-juvenil e a obra A Bailarina e o Trapezista, onde mergulha no universo prisional sob a ótica de um obstetra. Ele relatou ter aprendido sobre o sistema de classes dentro das prisões, que funciona como um microcosmo da sociedade brasileira. Jones reafirmou que sua prisão acabou por dar um novo dinamismo ao movimento de humanização, recebendo mensagens de solidariedade de países como Irã, China e Nigéria. Para ele, o futuro da luta não depende de convencer médicos a serem “bonzinhos”, mas de uma mobilização popular de mulheres:
“Humanização do nascimento é um movimento popular ou não? Não é um debate entre médicos ou uma questão de evidências científicas; é um movimento de mulheres e mães exigindo protagonismo sobre seu destino reprodutivo. Chega de tentar convencer médicos a mudarem condutas; as mulheres têm que tomar a frente e parar com o vitimismo, pois é obrigação delas se unirem para mudar essa realidade. Humanização significa luta contra um sistema opressivo que quer as mulheres subservientes e sem voz. Nós, homens, também temos lugar de fala nisso porque nascemos de mulheres; todos somos responsáveis por garantir que as mães sejam respeitadas, para que gerem filhos em condições mais adequadas e não sejam humilhadas dentro de um centro obstétrico.”




