Em artigo publicado no portal A Terra é Redonda, sob o título A derrota eleitoral de Viktor Orbán, o jornalista Eugênio Bucci procura apresentar o resultado das eleições na Hungria como uma vitória “democrática” de alcance mundial, quando, na verdade, se tratou de uma operação política da OTAN e da União Europeia contra um governo aliado da Rússia.
Bucci afirma logo no início que “a derrota eleitoral de Viktor Orbán, na Hungria, no domingo passado, é um acontecimento de proporções globais”. Até aí, correto. De fato, trata-se de um episódio internacional importante. Mas o autor em seguida dá a esse fato um sentido completamente falsificado. Em vez de explicar a eleição como expressão da disputa entre o imperialismo e a Rússia, prefere tratá-la como se fosse a derrota do “populismo autoritário”.
Essa mistificação aparece quando ele diz que Orbán era “o centro europeu da estratégia de ultradireita” e que sua queda abriria “uma rachadura na teia gravitacional que amarrava a constelação das trevas”. Todo esse palavreado omite um fato simples: na eleição húngara, não houve confronto entre democracia e fascismo, mas entre duas candidaturas de direita. A polarização real não era entre um setor ligado à Rússia, representado por Orbán, e outro alinhado à OTAN e à União Europeia, representado por seu adversário.
O próprio texto de Bucci desmente sua encenação moral. Em certo momento, ele reconhece que o candidato vencedor, Péter Magyar, “não tem nada de democrata radical” e que é “um prócer de direita com pedigri de direita e estampa de extrema direita”. Ou seja, depois de passar metade do artigo vendendo a eleição como uma grande derrota mundial da “ultradireita”, o autor admite que quem venceu foi outro homem de direita.
É aí que entra a questão decisiva, que Bucci procura dissolver em abstrações. O centro do problema não é o estilo discursivo de Orbán, como ele sugere ao defini-lo como um “significante inaugural” do “populismo autoritário”. O centro do problema é sua posição internacional. Orbán era um obstáculo relativo à política de guerra da OTAN no Leste Europeu, mantinha relações com a Rússia e atuava como ponto de atrito dentro da própria União Europeia. Sua derrota interessa diretamente ao imperialismo, que trabalha para isolar a Rússia e alinhar todo o continente à escalada militar.
Por isso, quando setores da esquerda comemoram a derrota de Orbán em nome da “defesa da democracia”, o que estão fazendo na prática é comemorar uma vitória política da OTAN e da União Europeia. Estão se colocando a reboque do imperialismo sob a cobertura de palavras bonitas. A “democracia”, nesse caso, vira apenas o nome ideológico de uma operação reacionária.
Bucci tenta reforçar sua tese dizendo que Orbán “sabotava consistentemente o Estado democrático de direito” e “atrapalhava o apoio europeu à Ucrânia”. Mas é justamente esse o ponto. “Apoio à Ucrânia”, na linguagem da imprensa imperialista, quer dizer apoio ao braço armado da OTAN contra a Rússia.
A esquerda que entra nessa campanha abandona qualquer posição independente. Em vez de denunciar o bloco imperialista que quer derrubar Orbán para reforçar sua máquina de guerra, escolhe um lado: o da OTAN. E depois ainda quer posar de democrática.
Outro ponto revelador do artigo é a insistência em dar um conteúdo quase civilizatório à derrota de Orbán. Bucci fala em “consequências da perda de um referencial discursivo para o populismo autoritário contemporâneo” e comemora que “a impostura ideológica despencou”. Orbán não caiu porque o mundo descobriu subitamente o valor da “democracia”. Caiu porque sofreu a pressão combinada de uma crise econômica interna e de uma ofensiva política internacional do imperialismo europeu contra um aliado da Rússia
A derrota de Orbán pode, sim, ter importância internacional. Mas não porque represente uma derrota histórica do autoritarismo. Seu significado principal está em outra parte: trata-se de mais um avanço da OTAN e da União Europeia na guerra contra a Rússia.





