Entrevista

Rui Costa Pimenta: identitarismo é a cultura da intolerância

Presidente do PCO concedeu nova entrevista a Leonardo Fortes

Nesta sexta-feira (17), o Canal Galo Preto recebeu, pela segunda vez, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, para uma longa entrevista. O anfitrião Leonardo Fortes iniciou a transmissão carregado de indignação, reagindo à notícia da interdição judicial do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Fortes rejeitou veementemente a onda de homenagens ao “príncipe dos sociólogos”, descrevendo-o como o arquiteto da destruição do patrimônio nacional e o responsável por reinserir a direita derrotada na ditadura em um “envelope neoliberal”. Para o apresentador, a história de FHC não deve ser apagada pela conveniência do envelhecimento ou da doença, mas sim lembrada pelos episódios de suborno para a reeleição e pelo massacre aos petroleiros. “Fernando Henrique Cardoso f**** o Brasil”, sentenciou Fortes, preparando o terreno para a entrada de Rui Costa Pimenta, presidente do PCO, que ampliou a crítica ao atual estado da esquerda brasileira e aos rumos do governo Lula.

Rui Costa Pimenta iniciou sua participação diagnosticando o que chamou de esgotamento do “webcomunismo”. Segundo Pimenta, essa geração carece de uma experiência de lutas concretas e de uma formação política sólida, o que resulta em um fenômeno mais ideológico do que um movimento de classe real. Ao comentar a saída de Jones Manuel do PCBR para o PSOL, Rui foi incisivo ao descrever o movimento como um reflexo de pragmatismo eleitoral e individualismo.

“Eu tenho a impressão de que está se esgotando esse processo porque é uma esquerda de uma geração nova que não conheceu as grandes lutas operárias, greves e o grande momento que nós do PCO e outros grupos de esquerda vivenciamos; o pessoal veio depois disso tudo e é um fenômeno mais ideológico do que um movimento concreto, com uma formação política muito limitada. Por mais que estudem, isso não é suficiente sem a participação nos grandes movimentos da luta de classes, e o que vemos agora é um excesso de pragmatismo, onde o militante revolucionário não pode colocar uma candidatura em primeiro lugar, pois o marxista sabe que sem partido você não faz revolução, e o PSOL é tudo menos um partido revolucionário.”

A crítica estendeu-se ao identitarismo, que Pimenta classificou como a “cultura da intolerância” que isola a esquerda das massas. Para ele, o esforço para se relacionar com o trabalhador comum exige uma paciência que a esquerda acadêmica e “limpinha” perdeu. Pimenta argumentou que o identitarismo é uma operação política pensada pelo imperialismo e que seus defensores acabam jogando o povo para a extrema-direita por pura falta de tato social.

“Se você quer se relacionar com o trabalhador de carne e osso, a primeira coisa que você precisa ter é tolerância, pois o trabalhador é um homem do povo, tem seus preconceitos tradicionais e não é um intelectual; se você for brigar com ele porque ele é religioso, católico ou evangélico, ou porque tem preconceitos sobre mulheres e homossexuais, você nunca vai conseguir organizar nada. O trabalho operário exige a máxima paciência, como quando eu precisei de dez reuniões para convencer seis metalúrgicos da base do Lula no ABC a entrarem no PT nos primórdios, e essa falta de tolerância da esquerda atual apenas empurra o cidadão comum para o campo de Bolsonaro.”

Sobre o desempenho do governo Lula, Rui Costa Pimenta manteve-se cético quanto à eficácia das estatísticas macroeconômicas para garantir a reeleição em 2026. Ele apontou uma desconexão perigosa entre o discurso oficial de crescimento do PIB e a realidade financeira das famílias, que continuam endividadas e sentindo o custo de vida. Ele listou medidas que considera catastróficas para a popularidade do governo, como a taxação das compras internacionais.

“O governo cometeu erros muito graves, como a taxa das blusinhas, que para quem ganha trinta mil reais em Brasília não vale nada, mas para o cidadão comum era a única maneira de consumir algo em uma situação de aperto; o governo foi lá e garfou o consumo popular com uma falta de bom senso total. Também vejo como anticampanha a perseguição às bets e a proibição de remédios como o Monjaro, que no Paraguai custa dez por cento do valor daqui por conta de monopólios de laboratórios; eles estão prendendo gente por comprar remédio para obesidade enquanto a segurança pública real é negligenciada, e eu não sei quem toma essas decisões no governo, mas falta um assessor que puxe o senso de realidade na mesa de reuniões.”

A discussão atingiu o ápice quando o tema passou a ser a liberdade de expressão e a atuação do Judiciário. Ele manifestou uma oposição radical a qualquer forma de censura, incluindo a regulação das redes sociais e a perseguição judicial a figuras de direita como Madeleine Lacsko. Ele comparou o entusiasmo de setores da esquerda com a repressão judicial ao clima vivido durante a ditadura militar, alertando que a censura sempre gera um rancor que acaba favorecendo os reacionários.

“Eu tenho verdadeira ojeriza pela censura porque vivi debaixo dela na minha juventude, e o que estão fazendo agora, querendo proibir adolescentes de acessarem redes sociais ou silenciando críticas ao PL da misoginia via AGU, é uma barbárie que vai terminar mal. Não acredito na ideia de que é preciso ter uma tutela sobre o povo brasileiro; o povo aprende através da experiência e da liberdade de informação, não com a polícia ou com o judiciário, e essa tentativa de transformar o Alexandre de Moraes em um bastião da democracia é ridícula, pois ele nunca ligou para isso e foi ministro de um governo golpista como o de Temer. A esquerda está se apoiando em lambanças jurídicas que não arranham o edifício do bolsonarismo, mas sim fortalecem o discurso deles de perseguição.”

No fim, Rui Costa Pimenta surpreendeu a audiência ao defender abertamente a anistia para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro e para o próprio Jair Bolsonaro. Para ele, a caracterização de golpe de Estado foi um exagero retórico e jurídico para fins eleitorais, e a esquerda erra ao abandonar a luta política e de ideias para confiar no sistema prisional. Ele previu que, sem Lula, o PT perderá sua dimensão histórica, pois o atual presidente é um fenômeno criado pelas greves do ABC e não possui herdeiros políticos capazes de manter a mesma autoridade.

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