Entrevista à TV 247

Rui Pimenta: derrota no Irã mostra ‘enfraquecimento extraordinário’ do imperialismo

Presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) participou de sua habitual entrevista das sextas-feiras

Donald Trump

Na entrevista desta sexta-feira (17) concedida à TV 247, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), classificou a vitória militar da República Islâmica do Irã como um evento sem precedentes na história moderna. Para o dirigente, o recuo do imperialismo diante das exigências iranianas marca uma mudança. Ele explicou que, embora os Estados Unidos já tivessem sofrido derrotas por insurreições populares no passado, como no Vietnã e na Argélia, o caso atual é distinto por envolver um embate direto entre Estados e Forças Armadas regulares, o que demonstra um “enfraquecimento extraordinário do imperialismo e o surgimento de uma potência de caráter internacional, que é o Irã”.

A discussão avançou sobre o preconceito em relação à cultura persa, que Rui Pimenta atribui a uma propaganda imperialista que associa religiosidade ao atraso. O presidente do PCO defendeu que o Irã é um país desenvolvido, com uma indústria militar de ponta e uma cultura evoluída, afirmando que “nós temos uma imagem da religião que é típica dos países ocidentais. No Brasil, país muito religioso dominado por religiosos, em geral, é sinal de atraso político. Mas é uma visão errada do Irã”. Ele destacou que o estrago causado pela tecnologia militar iraniana mudou a correlação de forças mundial, afetando diretamente a segurança de “Israel” e a estabilidade dos Estados Unidos. Sobre os chefes desses países, Pimenta foi enfático ao dizer que tanto Donald Trump quanto Benjamin Netaniahu amargaram derrotas, mas ponderou que o primeiro-ministro israelense possui uma resistência interna maior devido à ferocidade da direita em seu país, declarando que “a ideia de que existe aí partidos de oposição que seriam civilizados em ‘Israel’ é um mito total”.

No plano internacional, o presidente do PCO também abordou a queda de Viktor Orbán na Hungria, alertando que a esquerda não deve celebrar o resultado. Ele argumentou que o substituto de Orbán é um representante direto da União Europeia e do chamado “partido da guerra”, e que a saída do antigo líder teve motivações puramente estratégicas ligadas à guerra na Ucrânia.

“O problema do Orbán é que ele tinha imposto um veto contra a entrega de armas para a Ucrânia. Foi isso que levou à queda. Basicamente não tinha nada a ver com democracia”, explicou Pimenta. Ele reforçou que o imperialismo busca consolidar um bloco homogêneo para atacar a Rússia e que, diante da impossibilidade de vencer conflitos periféricos, as potências imperialistas caminham para um impasse perigoso.

Ao transitar para a política nacional, a entrevista focou nas recentes aparições do presidente Lula na imprensa. Rui Costa Pimenta manifestou uma visão crítica sobre o desempenho do mandatário, afirmando que o achou “bastante tenso, agitado, ansioso por explicar o que que o governo dele fez”. Para Pimenta, o presidente falhou ao tentar basear sua comunicação em indicadores econômicos que não se traduzem na vida imediata da população. “A repetição dele das estatísticas, do que já aconteceu no governo dele, eu acho que o público tem dificuldade de avaliar a importância dessas realizações. A população não vive de estatísticas, a pessoa vive de coisas mais imediatas”, pontuou.

Um dos pontos mais detalhados por Pimenta foi a crítica à postura “tutelar” do governo e de setores da esquerda, exemplificada pela tentativa de proibir as casas de apostas online, as bets. Pimenta argumentou que tais medidas são impopulares e ignoram o desespero social que leva as pessoas ao jogo. “As bets são um sintoma claro do desespero social; é uma válvula de escape para uma população que tá com a corda no pescoço. Aí você chega lá e fala que vai acabar com isso, não é popular”, afirmou. Ele defendeu que o Estado não deve agir como um vigia moral da sociedade, declarando de forma contundente que “o governo não precisa de um tutor que fica lá na vigilância tentando impedir a população de errar; as pessoas têm o direito de errar”. Para ele, focar em questões morais em vez de enfrentar problemas como o baixo salário médio e a desindustrialização é um erro que afasta o eleitorado periférico.

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