O texto de Maria Hermínia Tavares, A insanidade tomou a Casa Branca, pública na Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (16), não poderia ser mais hipócrita. Toda essa gritaria em torno de Trump se dá por conta da recente derrota dos EUA no Irã.
A Folha defende o imperialismo e sabe que este empurrou o mandatário para uma guerra e agora o critica por ir.
Tavares escreve que “não poderia ter acontecido, mas aconteceu. A nação mais poderosa do planeta passou a ser conduzida por um desvairado. A lista dos desatinos de Donald Trump é estarrecedora. No plano interno, desorganizou a administração pública; desencadeou o terror contra os imigrantes; ameaçou as melhores universidades; pôs em xeque a pesquisa científica; chantageou a mídia e espalhou a incerteza sobre o que está por vir”.
Por pior que seja Donald Trump, seria injusto jogar sobre suas costas todas as mazelas listadas pela jornalista. A administração pública nos Estados Unidos está há muito se desorganizando face à crescente dívida pública que em março atingiu nada menos que US$ 39 trilhões.
O espetáculo grotesco de Trump contra os imigrantes pecou pela falta de sutileza, pois seus antecessores faziam o mesmo, apenas que às escondidas.
Quanto às pesquisas científicas, já era esperado, uma vez que o dinheiro está sendo todo drenado para o setor armamentista. É interessante notar que a pesquisa nos EUA depende enormemente de dinheiro público, ao contrário do que se costuma propagandear.
O mundo lá fora
“Já no plano externo”, diz a jornalista, “virou de ponta-cabeça o comércio mundial; tratou aliados como inimigos; ameaçou anexar nações soberanas; invadiu a frio uma, a Venezuela, e sequestrou seu ditador; iniciou a guerra que incendeia o Oriente Médio; xingou o papa”.
Não é segredo para ninguém que o imperialismo está tentando manter sua hegemonia no comércio mundial, por isso Biden investiu contra a China. O Irã, além de seu programa nuclear e papel fundamental no Eixo da Resistência, é um nó importante no comércio, pois pode conectar Rússia e China dando escoamento para suas mercadorias em direção aos dois golfos (Omã e Pérsico), bem como acesso à Índia e África.
O ataque ao Irã era uma necessidade para o imperialismo que não contava com tamanha resistência. Todos esses “democratas” que esbravejam contra Trump, estavam todos apoiando a agressão contra os persas.
Nenhum “democrata” chorou pelo Irã quando assassinaram o aiatolá, Khamenei, nem pelas 180 crianças no ataque à escola primária feminina Shajareh Tayyebeh em Minab, no sul do Irã, ocorrido em 28 de fevereiro.
O sentimento quanto ao líder religioso do Irã, seguramente, foi o mesmo com relação ao presidente eleito da Venezuela: mais um ditador. Tratar assim Nicolás Maduro mostra que a senhora Tavares não acha Trump tão insano assim. E seria interessante que ela explicasse o porquê de Washington patrocinar ditadores e até receber terroristas no Salão Oval da Casa Branca.
Impeachment
Assim como fez Salomé, Tavares exige a cabeça do mandatário. Relata o caso da postagem de Trump à la Jesus, e diz que “ao contrário das autocracias, os regimes democráticos contam com recursos para conter aspirantes a ditadores —menos, ou mais, doentes da cabeça. São os famosos freios e contrapesos institucionais e sociais —entre eles, o impeachment— e eleições. Todos, porém, têm seus limites. E o que o mundo civilizado, embora estarrecido, assiste nos EUA é a um grande experimento das possibilidades e limitações desses instrumentos de contenção”.
O bom dos “democratas” é que sempre contam boas piadas, como o tal “mundo civilizado”, que ninguém sabe onde fica, é um mundo imaginário. As ‘democracias’ europeias estão espancando quem apoie a Palestina. No “civilizado” Reino Unido, até velhinhas de muleta estão sendo presas e acusadas de terrorismo por carregarem um cartaz escrito “Fim do Genocídio”.
Por falar em genocídio, o “mundo civilizado” apoiou e participou do massacre em Gaza. E todos estavam ao lado de Trump no começo da guerra de agressão contra o Irã, mais um crime contra a humanidade que, diga-se, não punirá ninguém.
O “mundo civilizado” não se incomoda que não haja eleições no Egito, nos Emirados Árabes, na Arábia Saudita, mas não suporta a “ditadura venezuelana”, que promove mais eleições que a maioria dos países do mundo.
Quanto ao impeachment de Trump, é isso que o imperialismo sempre quis; desde seu primeiro mandato que o presidente americano está na mira do grande capital.
Hora de aprender
Maria Hermínia Tavares oferece a seus leitores uma verdadeira aula de republicanismo, diz que “freios e contrapesos erguem barreiras ao poder discricionário do governante eleito. Ganham vida nas prerrogativas do Legislativo e do Judiciário; na existência de organismos independentes de supervisão e controle; nas atribuições de governos subnacionais em sistemas federativos” e blá-blá-blá.
Outra piada muito boa é o trecho em que diz que “ganham forma também na existência de uma imprensa livre e plural, de redes sociais críticas ao governo e de organizações autônomas da sociedade civil”. A Folha de S. Paulo não quer imprensa livre e muito menos plural, combate a liberdade de expressão nas redes sociais, mas vive falando em democracia.
“Mesmo sob Trump”, diz a jornalista, “os EUA contam com freios e contrapesos sociais azeitados: basta ver as manifestações de massa sob a bandeira do ‘No Kings’”, apenas omite que o No Kings é uma manifestação financiada por George Soros, um bilionário famoso por aplicar golpes de Estado e colocar ditadores no poder. Quer dizer, ditadores amigos.
Segundo Tavares, “eleições livres e limpas, embora não tendo barrado a ascensão de Trump, são uma possibilidade de contê-lo”, como aquela em que George W. Bush venceu Al Gore?
Finalizando, a jornalista afirma que as eleições “Podem ser também o caminho para livrar o mundo de quem, mesmo não sendo a divindade que delira ser, pode nos levar ao armagedon”. Se vamos para o Armagedom, é preciso dar crédito a quem deu os primeiros passos nessa direção, Joe Biden, que lançou os ataques contra a China, propiciou a guerra na Ucrânia, que o “mundo civilizado” financia.





