Uma questão que o identitarismo fez foi confundir carreirismo com libertação do negro e da mulher. A confusão, proposital, busca apresentar a ascensão individual das pessoas como progressão na luta geral em defesa da mulher e do negro.
É o caso de Guanayra Firmino, em recente texto divulgado no Brasil 247, que trata desse assunto, afirmando que “mais de 2 milhões de pequenos negócios no Brasil passam a ser liderados por mulheres em um único ano”, com base em dados apresentados pelo Sebrae.
Esse dado esconde outro dado, que é a informalidade dos pequenos negócios. O desemprego geral, ou seja, a falta de um trabalho registrado, está dando lugar aos “empreendedores”, os pequenos comerciantes, ou microempreendedores individuais, que não são, nem de longe, empresários na concepção comum da palavra.
Continua o texto: “Muito antes de qualquer formalização, já empreendiam para sobreviver, sustentavam famílias inteiras, organizavam redes de cuidado e movimentavam territórios inteiros com pouco ou nenhum acesso a crédito, formação ou reconhecimento. O que os dados de 2025 revelam não é o nascimento desse protagonismo; é, finalmente, a sua evidência”.
Outra interpretação errada das informações fornecidas pelo Sebrae. Acesso a crédito não é uma alteração significativa na vida das mulheres; na realidade, é uma forca na maioria dos casos. O que valeria, de verdade, é o pleno emprego com direito a Fundo de Garantia, Previdência, descanso semanal remunerado — tudo isso que as “empreendedoras” não têm.
Afirma o texto do Brasil 247 que: “Quando uma mulher negra ocupa espaços de comando, o impacto é inevitavelmente político. Estou presidenta da Estação Primeira de Mangueira. Mãe, avó, mulher candomblecista. Minha liderança não cabe em categorias simplistas. Carrego comigo a força de uma tradição em que mulheres negras sempre estiveram à frente, seja nos terreiros, nas casas ou nas comunidades”.
Infelizmente, ser presidenta de escola de samba, especialmente no Brasil, não significa um posto de comando político real. E mesmo se considerássemos que fosse a presidência do Banco do Brasil, a situação da mulher negra, no geral, não se altera um único milímetro. Basta ver, para compreender esse problema, a mulher negra da ONU, Rachel Maia, que chancelou e está chancelando, neste momento, o genocídio na Faixa de Gaza.
A autora do texto do Brasil 247 afirma que: “O que incomoda não é a ascensão. É a visibilidade. Porque uma mulher preta no poder rompe pactos históricos de exclusão. Desafiamos a lógica que naturaliza a subalternidade e expõe o quanto o Brasil ainda resiste em aceitar novas centralidades. Não se trata apenas de ocupar cargos, mas de redefinir o próprio significado de liderança”.
O fato é que não incomoda ninguém os postos de comando ocupados por mulheres negras, pois não resulta em um maior poder político e social das mulheres em conjunto; por isso não incomoda. É uma espécie de enfeite em um regime que, no caso do Brasil, tem quase 50 milhões de pessoas que vivem do Bolsa Família, as quais, em grande parte, são mulheres negras.
Sair desse programa, conseguir emprego regular com direitos trabalhistas, residência, saúde, direito de autodefesa, creches públicas 24 horas, direito de associação, dentre outros — isso sim incomoda os donos do sistema. Uma mulher negra presidente de alguma coisa não incomoda ninguém.
“Cada CNPJ aberto por uma mulher, especialmente por uma mulher negra, é também um ato de enfrentamento”. Não, não é. Um CNPJ aberto é uma empresa dentro do sistema capitalista e, como tal, pode falir a qualquer momento. Pior: no caso dos microempreendedores, só no último período, quatro milhões estão falidos.
O texto, que na realidade é propaganda eleitoral, seguiu para a conclusão, que é o que importa: “O Brasil vive um momento decisivo. Ou transforma esses números em mudança estrutural, ou continuará assistindo mulheres, sobretudo nós, negras, fazerem muito com quase nada. Porque nós sempre fizemos. A diferença é que agora estamos sendo vistas. E, uma vez vistas, não aceitamos mais sair do centro”.
Ou seja, ou elege Lula e abre um CNPJ (não necessariamente nesta ordem) ou as mulheres ficarão… como estão. Desempregadas, vivendo de programa social, abrindo CNPJ para tentar ser absorvidas pelo capitalismo e vendo alguns carreiristas brigarem por um lugar ao sol sob o pretexto de “luta da mulher negra”.





