Leste Europeu

Após golpe na Hungria, eleições búlgaras também serão marcadas pela guerra

Disputa será o próximo teste decisivo sobre a política da União Europeia para a Ucrânia

O golpe de Estado contra Viktor Orbán na Hungria alterou o quadro político do Leste Europeu e colocou ainda mais peso sobre a eleição parlamentar da Bulgária, marcada para 19 de abril. Com a queda do principal obstáculo interno da União Europeia à política de apoio a Vladimir Zelensqui, a disputa búlgara será o próximo teste decisivo sobre a política do bloco para a Ucrânia. A vitória de Péter Magyar foi recebida na Ucrânia e na União Europeia como um alívio, justamente porque Orbán vinha bloqueando pacotes de ajuda e impondo resistência à linha do bloco europeu sobre a guerra.

Nesse novo cenário, a Bulgária aparece como o elo seguinte da crise. As pesquisas colocam na frente o ex-presidente Rumen Radev, que lidera a coalizão Progressive Bulgaria e tem criticado abertamente o alinhamento automático com a União Europeia, o pacto firmado com a Ucrânia e a deterioração das relações com a Rússia. Radev lidera a corrida com cerca de 30% das intenções de voto, enquanto a coalizão ligada ao atual governo interino, We Continue the Change–Democratic Bulgaria, aparece muito atrás.

É justamente por isso que a questão ucraniana se transformou no centro da campanha. No fim de março, o primeiro-ministro interino Andrey Gyurov foi à Ucrânia e assinou com Vladimir Zelensqui um acordo de cooperação em segurança com duração de dez anos. O pacto prevê ajuda militar contínua, cooperação industrial em defesa, produção conjunta de drones e munições, treinamento militar e apoio búlgaro à entrada da Ucrânia na OTAN e na União Europeia. O acordo foi fechado às vésperas da eleição, numa tentativa evidente de amarrar a política búlgara à linha de Kiev antes que um novo governo possa rever esse rumo.

Depois da mudança ocorrida na Hungria, a União Europeia e a Ucrânia têm interesse direto em impedir que a Bulgária se transforme em mais um foco de resistência dentro da Europa. Se a saída de Orbán enfraqueceu um dos polos mais hostis à política europeia para a guerra, uma eventual vitória de Radev na Bulgária pode abrir uma nova frente de atrito, ainda que em outra escala. Por isso a eleição búlgara vem sendo tratada como um pleito de importância estratégica para o bloco.

A Comissão Europeia confirmou a ativação, a pedido da Bulgária, do chamado sistema de resposta rápida para o período eleitoral, enquanto o governo interino montou estruturas voltadas ao combate à “desinformação” e às “ameaças híbridas”. Oficialmente, a medida é apresentada como defesa da lisura do processo. Na prática, a questão já entrou no conflito político interno, porque a oposição tem denunciado que se trata de mais um mecanismo de intervenção na disputa búlgara.

A importância da Bulgária para a Ucrânia, no entanto, não se resume ao campo militar ou diplomático. O país é peça importante do chamado Corredor Vertical de gás, estrutura apoiada pelo bloco europeu e pelos Estados Unidos para ampliar o fluxo energético do sul da Europa em direção à Ucrânia e reduzir a dependência regional do gás russo.

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