Continuamos aqui o debate com o artigo O fascismo do século XXI e o Anticristo, de Boaventura de Sousa Santos, publicado no Brasil 247, nesta segunda-feira (13). Na primeira parte (leia), fizemos um resumo do texto, visto que tem 19 mil caracteres e apresentamos a concepção marxista do fascismo, pois Leon Trótski escreveu como ninguém sobre o assunto, pois acompanhou esse fenômeno político desde seu início.
Como dito anteriormente, Boaventura faz uma ressalva, para ele o fascismo não é uma “entidade monolítica” e ao contrário dos outros que se referem ao fascismo como uma entidade política, ele distingue entre “fascismo político e fascismo social: o primeiro ocorre nas relações propriamente políticas e o segundo, nas relações sociais”.
Feita a advertência, Boaventura inicia dizendo que “a relação do fascismo político da primeira metade do século XX com a religião é complexa. O secularismo da sociedade moderna (a separação entre a Igreja e o Estado) nunca foi completo e só operou nas metrópoles, não nas colônias. Como tanto a religião como o Estado laico continuaram a disputar o seu lugar na sociedade, as contradições e disputas entre uma e outro coexistiram com convergências, cumplicidades e utilizações recíprocas. No caso do fascismo italiano, podemos dizer que a sacralização da política (a veneração do Estado fascista, os rituais e os símbolos fascistas) significou a emergência de uma religião política, secular, laica, que passou a existir em paralelo com a religião tradicional (o reconhecimento privilegiado do catolicismo). Em 1932, Mussolini afirmava que, em contraposição com Robespierre, o Estado fascista não tinha uma teologia própria, mas sim uma moralidade própria”.
Robespierre defendia que o Estado e a sociedade republicana deveriam ser fundados sobre uma base teológica, mesmo que não cristã. O revolucionário francês rejeitava a um tempo o catolicismo (supersticioso) e o ateísmo (aristocrático e imoral). Sua inspiração era o Deísmo, de Jean-Jacques Rousseau.
Para Robespierre, o verdadeiro “culto” digno de Deus não eram os rituais eclesiásticos, e sim a prática dos deveres humanos e da virtude. Em sua opinião, a ideia de um Ser que vigia os oprimidos e pune os tiranos era “popular” e essencial para manter a coesão social.
Quando Mussolini diz que não uma teologia, mas uma moralidade própria, está assinalando que precisa de uma ideologia para sustentação ao Estado. E moral, neste caso, precisa ser entendido no seu sentido mais literal: um conjunto de regras, valores, princípios e normas de conduta.
Trótski deixa claro que não surge uma verdadeira “sacralização do Estado”. E, repetindo o trecho do debate anterior contido em O Programa de Transição, temos que “Mussolini. Na verdade, nunca teve a menor ideologia. A “ideologia” de Hitler nunca conquistou seriamente os operários. As camadas da população nas quais a embriaguez do fascismo, em certo momento, subiu à cabeça, sobretudo as classes médias, já tiveram tempo para se desembriagarem. Se, apesar de tudo, uma oposição, mesmo que pouco notável, limita-se aos meios clericais, protestantes e católicos, a causa não se encontra na força das teorias semidelirantes, semicharlatanescas da “raça” e do “sangue”, mas na falência estarrecedora das ideologias da democracia, da social-democracia e da Internacional Comunista.
A Igreja e o fascismo
Apesar das diferenças entre Mussolini e a Igreja, ambos se beneficiaram dos acordos que firmaram entre si.
O Conselho de Latrão (1929) criou o Estado da Cidade do Vaticano como soberano, além da compensação financeira pelas terras perdidas na unificação da Itália – 750 milhões de liras em dinheiro vivo, e 1 bilhão de liras de títulos do governo a 5%. Esse aporte financeiro deu liquidez ao Vaticano que se tornou uma potência financeira. Além disso, houve o reconhecimento do catolicismo como “religião oficial do Estado”.
Mussolini, por sua vez, ganhou legitimidade internacional e interna. O Papa Pio XI chegou a descrevê-lo como um “homem enviado pela Providência”.
A Igreja foi uma aliada de Mussolini no combate ao comunismo, o inimigo comum. O Vaticano dizia temer a expansão do “ateísmo militante” e do socialismo na Europa. Mussolini, por sua vez, apresentava o fascismo como a única maneira possível de se restaurar a ordem e proteger a propriedade privada e a religião contra o “perigo vermelho”.
Com o apoio da Igreja, Mussolini conseguiu controlar a oposição de grande parte da população católica.
Colaboração de classes
A aliança entre Mussolini e o Vaticano não era um detalhe da política italiana.
Trótski via o fascismo como uma forma de “bonapartismo” – um regime de terror. A Igreja, como uma das instituições mais poderosas da burguesia conservadora, naturalmente apoiaria um “salvador” que prometesse destruir o movimento operário.
O acordo entre Mussolini e a Igreja foi a prova definitiva de que a hierarquia católica era uma força reacionária que, diante da ameaça de uma revolução socialista, preferia apoiar uma ditadura fascista violenta a permitir o avanço da classe trabalhadora.
Com isso, temos que são as condições materiais, a luta de classes que determina a relação entre o fascismo e a Igreja.
O texto de Boaventura, como se poderá notar, aponta para outra direção, e de cunho idealista. Ele diz, por exemplo, que “o socialismo revolucionário do primeiro Mussolini pretendia ser mais uma crença do que uma ciência. Como ele repetia: “a humanidade precisa de uma crença”. Tratava-se de apelar a uma experiência de fé na religião da Nação. A religião patriótica.” E que “Giovanni Gentile defendia que o fascismo tinha um caráter religioso, ‘na medida em que leva a vida a sério’, e ‘como movimento surgiu de toda a alma da nação’. Visava criar um Estado ético”.
Como se pode notar, o texto vai construindo o fascismo como que saindo de um conjunto de ideias, de uma moral. A moral, no entanto, é determinada pela infraestrutura econômica.
Aqui, é preciso relembrar a frase genial de Karl Marx em sua Contribuição à Crítica da Economia Política:
“Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas ao contrário, o seu ser social que determina a sua consciência”
continua…





