O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (14) que as negociações com o Irã podem ser retomadas em até dois dias, no Paquistão, poucos dias depois do fracasso das conversações em Islamabade e logo após o anúncio de um bloqueio naval norte-americano contra portos iranianos que já falhou completamente na prática. Ao mesmo tempo em que a Casa Branca tentou elevar a pressão militar, a própria situação criada pela medida passou a empurrar o governo norte-americano de volta à mesa de negociações.
Segundo declaração reproduzida pelo New York Post, Trump indicou que uma nova rodada de conversas pode acontecer em breve. “Vocês deveriam ficar por lá, porque alguma coisa pode acontecer nos próximos dois dias, e estamos mais inclinados a ir para lá”, afirmou. O presidente norte-americano também elogiou o comandante paquistanês Asim Munir e vinculou diretamente esse fator à possibilidade de retorno das negociações.
A fala veio depois da rodada de negociações realizada no fim de semana em Islamabade, a primeira conversa direta entre autoridades dos dois países em mais de 10 anos. O encontro terminou sem acordo depois de mais de 20 horas de discussões. De um lado, o Irã apresentou um marco para entendimento. De outro, os Estados Unidos insistiram em exigências já rejeitadas por Teerã, como a interrupção total do enriquecimento de urânio e a entrega do material nuclear já acumulado pelo país.
O governo iraniano reiterou que seu programa nuclear está amparado pelo direito internacional e que as exigências norte-americanas vão muito além do tema da não proliferação. Na conversa telefônica com o presidente francês Emmanuel Macron, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian declarou que a equipe iraniana atuou com “seriedade e boa-fé”, mas que “exigências maximalistas” e a falta de vontade política dos Estados Unidos impediram um acerto final.
Pezeshkian também deixou claro o limite da negociação. Segundo a presidência iraniana, ele afirmou que o Irã continuará as conversas apenas dentro do marco do direito internacional e com o objetivo de resguardar os direitos do povo iraniano. Ao mesmo tempo, advertiu que qualquer ameaça ao Estreito de Ormuz terá consequências amplas para o comércio mundial.
A contradição do governo Trump ficou ainda mais evidente porque, enquanto voltava a falar em acordo, os Estados Unidos anunciavam um bloqueio naval contra os portos iranianos no Golfo Pérsico e no mar de Omã. A medida, apresentada pelo Comando Central norte-americano no dia 12 e colocada em prática na segunda-feira (13), foi denunciada pelo Irã como um ato de agressão aberto.
Em carta enviada à Organização das Nações Unidas, o embaixador iraniano Amir Saeid Iravani declarou que “a imposição de um bloqueio naval é uma violação grosseira da soberania e da integridade territorial da República Islâmica do Irã”. Na mesma mensagem, afirmou que os Estados Unidos carregam plena responsabilidade por esse ato e por todas as suas consequências regionais e internacionais.
O ponto decisivo é que a operação norte-americana não se mostrou capaz de interromper o tráfego ligado ao Irã. Dados marítimos indicaram que pelo menos dois navios saídos de portos iranianos atravessaram o Estreito de Ormuz apesar da ameaça dos Estados Unidos. O cargueiro Christianna, com bandeira da Libéria, saiu de Bandar Imam Khomeini após descarregar 74 mil toneladas de milho. Já o petroleiro Elpis, com bandeira de Comores, deixou Bushehr carregando 31 mil toneladas de metanol. Um terceiro navio, o petroleiro chinês Rich Starry, também atravessou o estreito pela rota aprovada pelo Irã ao sul da ilha de Larak.
Isso mostrou a farsa da manobra norte-americana. Os Estados Unidos anunciaram um “bloqueio contra o bloqueio”, mas o Irã mantém o controle político e militar da situação em Ormuz, restringe a circulação segundo seus próprios critérios e continua capaz de permitir ou bloquear a passagem de embarcações. Na prática, o imperialismo tentou impor um bloqueio sobre uma área em que não controla plenamente as condições concretas da navegação.
A crise também se ampliou entre os aliados dos próprios Estados Unidos. Segundo o Wall Street Journal, a Arábia Saudita pressiona Trump para abandonar o bloqueio e retomar as negociações com o Irã, diante do temor de que o conflito se expanda e comprometa também Babelmândebe, no mar Vermelho. O governo do Catar igualmente defendeu a volta das negociações e ressaltou a necessidade de garantir segurança duradoura para a navegação regional. Até a Holanda já informou que não participará de um bloqueio conduzido pelos Estados Unidos em Ormuz.
Se a pressão militar continuar, o conflito pode atingir não apenas Ormuz, por onde antes passava cerca de 20% do petróleo e do gás do mundo, mas também outras rotas comerciais. O próprio Irã e seus aliados deixaram claro, desde o começo da guerra em 28 de fevereiro, que responderão a qualquer tentativa de asfixia econômica e militar em escala regional.
No Parlamento iraniano, o porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa, Ebrahim Rezaei, reforçou que a trégua atual não pode servir para prolongar indefinidamente o impasse sem o reconhecimento efetivo dos direitos iranianos. Entre esses direitos, destacou a soberania sobre o Estreito de Ormuz. Segundo ele, sem garantias políticas e jurídicas claras, o fim do período de cessar-fogo pode levar à retomada da guerra.
Enquanto isso, os efeitos econômicos da escalada já aparecem. O preço do barril de petróleo voltou a superar US$100,00, o fluxo marítimo em Ormuz caiu a níveis mínimos e aumentou o temor de desorganização no abastecimento internacional de energia. Diante disso, o próprio governo Trump, que havia tentado elevar a pressão ao máximo, recua parcialmente e volta a falar em entendimento com Teerã.
A situação mostra que a política norte-americana segue encurralada pela resistência iraniana. Depois de fracassar em impor suas condições na mesa de negociações, o imperialismo tentou recorrer ao cerco naval. Agora, diante da dificuldade de aplicar esse cerco, da reação internacional e da continuidade da capacidade iraniana de controlar o estreito, Trump volta a falar em acordo. O chamado “bloqueio do bloqueio” já nasce, assim, como mais uma demonstração de que os Estados Unidos não conseguem impor livremente sua vontade sobre a região.




