Líbano

Governo cachorro de ‘Israel’ negocia; resistência mantém luta armada

Reunião nos Estados Unidos abriu negociações diretas entre Líbano e “Israel”, enquanto Hesbolá rejeitou medida e travou novos combates em Bint Jbeil

O governo libanês participou nesta terça-feira (14), nos Estados Unidos, de uma reunião tripartite com representantes norte-americanos e de “Israel” que abriu caminho para negociações diretas entre Beirute e o Estado sionista, em meio à continuação dos massacres israelenses em território libanês. Ao mesmo tempo, a resistência libanesa manteve os combates no sul do país, sobretudo em Bint Jbeil, onde o Hesbolá montou uma emboscada contra tropas da ocupação e causou novas baixas ao inimigo.

Segundo a declaração conjunta divulgada após o encontro, realizado no Departamento de Estado norte-americano, os três lados concordaram em iniciar negociações diretas em data e local ainda não definidos. A reunião marcou o primeiro contato de alto nível entre os governos do Líbano e de “Israel” desde 1993.

A delegação libanesa foi representada pela embaixadora do Líbano nos Estados Unidos, Nada Hamadeh Moawad. “Israel” enviou seu embaixador nos Estados Unidos, Yechiel Leiter. Também participou do processo o embaixador norte-americano em Beirute, Michel Issa. Antes da reunião, houve ainda uma sessão preparatória para permitir a presença do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que classificou o processo como uma “oportunidade histórica”.

Pela declaração conjunta, os Estados Unidos manifestaram apoio à continuidade das conversas e ao plano do governo libanês de estabelecer o monopólio estatal das armas, isto é, de desarmar a resistência. O imperialismo também voltou a defender o suposto “direito de autodefesa” de “Israel” e insistiu que qualquer cessação das hostilidades deve ser acertada entre os dois governos, sob patrocínio norte-americano.

Do lado sionista, o objetivo foi colocado de maneira aberta. “Israel” exigiu o desarmamento dos grupos de resistência e a destruição de sua infraestrutura, afirmando estar pronto para negociações diretas voltadas a uma “solução duradoura”. O governo libanês, por sua vez, declarou que sua única proposta na mesa era um cessar-fogo e advertiu que, se “Israel” rejeitasse essa condição, não haveria novas rodadas de conversas.

As conversas ocorrem apesar de a própria legislação libanesa, por meio da lei de boicote de 1955 e de dispositivos do código penal, proibir contatos com o inimigo israelense. Ainda assim, a presidência do Líbano já havia confirmado, antes do encontro, um telefonema entre os embaixadores dos dois países nos Estados Unidos, com intermediação diplomática norte-americana.

Mais do que um cessar-fogo, porém, “Israel” levou para a mesa um plano de ocupação e submissão do Líbano. Segundo informações divulgadas pela emissora libanesa Al Mayadeen, o Estado sionista propôs dividir o sul libanês em três zonas. A primeira seria uma faixa permanente de oito quilômetros de profundidade, da qual os moradores deslocados não poderiam retornar. A segunda, ao sul do rio Litani, ficaria sob operação militar israelense até que o Hesbolá fosse desmantelado e desarmado. A terceira abrangeria as áreas ao norte do Litani e o restante do país, onde o Exército libanês ficaria encarregado de concluir o trabalho contra a resistência.

A proposta deixa claro que “Israel” não cogita retirada plena enquanto o Hesbolá não for eliminado. Trata-se, na prática, de um plano de tutela sobre o território libanês e de liquidação da principal força que enfrentou militarmente a ocupação sionista no país.

A decisão do governo libanês provocou reação imediata. Houve protestos em Beirute, diante do Grande Serralho, contra as negociações diretas. O secretário-geral do Hesbolá, xeique Naim Qassem, rejeitou a medida e afirmou que uma decisão dessa magnitude não pode ser tomada unilateralmente nem imposta sob pressão estrangeira.

Qassem também advertiu que a abertura de negociações diretas fora de um acordo nacional ameaça a coesão interna do Líbano e serve aos interesses do inimigo. Segundo ele, afastar ou enfraquecer a resistência em nome do processo político significa fazer uma concessão gratuita a “Israel”, num momento em que o país continua sob agressão militar.

O Movimento Amal adotou posição semelhante. Mustafa al-Fouani, chefe do órgão executivo do partido, reiterou a rejeição completa a qualquer contato direto com “Israel” e declarou que o mecanismo de monitoramento do cessar-fogo continua sendo a única via prática para garantir a interrupção das hostilidades e a execução integral do acordo firmado em novembro de 2024.

Enquanto o governo abria conversas com o inimigo, a resistência seguia lutando no terreno. Em Bint Jbeil, cidade do sul do Líbano próxima da fronteira e conhecida como a capital da resistência, combatentes do Hesbolá enfrentaram tropas israelenses de unidades de elite em combates intensos e de curta distância nos arredores do mercado antigo.

Segundo os relatos de campo, os confrontos prosseguiram apesar dos bombardeios aéreos, da artilharia e do cerco imposto pelas forças de ocupação. Ainda assim, os soldados israelenses não conseguiram alcançar posições fundamentais dentro da cidade, entre elas o estádio municipal, de onde o mártir Saied Hassan Nasseralá declarou, após a libertação do sul do Líbano em 25 de maio de 2000, que “Israel” era “mais frágil que uma teia de aranha”.

Mais tarde, foi informado que uma força israelense caiu numa emboscada preparada pela resistência. Os combatentes atraíram a unidade inimiga para dentro de uma casa e detonaram o imóvel com os soldados lá dentro, transformando a operação numa armadilha mortal. O “incidente de segurança” foi noticiado pela própria imprensa israelense.

As forças de ocupação, de acordo com os mesmos informes, não conseguiram alcançar nenhum ponto decisivo em Bint Jbeil. Pelo contrário: reduziram deslocamentos, homens e veículos para tentar conter as perdas. Em vez de avançar diretamente, passaram a usar veículos não tripulados e controlados à distância para testar as posições da resistência.

A imprensa israelense também informou que o comandante do Batalhão 52 foi gravemente ferido nos combates em Bint Jbeil. Além disso, um número muito grande de soldados feridos deu entrada em hospitais, muitos deles com lesões nos membros. Helicópteros militares passaram o dia transportando feridos desde a frente de combate no Líbano. Durante a noite, 10 soldados do Batalhão 101 da Brigada de Paraquedistas ficaram feridos em combates corpo a corpo com os combatentes da Resistência Islâmica, três deles em estado crítico.

Bint Jbeil tem importância militar e política central no sul do Líbano. A cidade domina vias que ligam a fronteira a áreas do interior, conecta rotas em direção a Tiro e permite controle sobre diversas aproximações à linha de confronto. Desde o período do mandato francês, a cidade ficou associada à luta armada. Durante a ocupação israelense do sul do Líbano, entre 1982 e 2000, tornou-se um dos principais centros de operações contra o inimigo. Na guerra de 2006, voltou a ser um dos pontos mais importantes dos enfrentamentos.

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