O secretário-geral do Hesbolá, xeique Naim Qassem, rejeitou qualquer diálogo direto com “Israel” e declarou que a resistência libanesa não aceitará rendição diante da agressão israelense e norte-americana contra o Líbano. Em pronunciamento e em mensagens divulgadas nos últimos dias, Qassem vinculou a saída para a crise à aplicação integral do acordo firmado em novembro de 2024, que previa a cessação da agressão, a retirada das tropas de ocupação, a libertação dos prisioneiros e o início da reconstrução.
Na abertura de sua fala, Qassem saudou os cristãos libaneses pela Páscoa e associou a data aos valores de Jesus Cristo, como o amor, o serviço e a integridade moral. Em seguida, voltou-se à situação do Líbano e afirmou que o país enfrenta uma agressão que não respeita limites humanos nem morais. Segundo ele, o entendimento de novembro de 2024 continha cláusulas claras, mas “Israel” não aplica nenhuma delas no terreno, enquanto prosseguem os ataques com apoio externo.
Qassem sustenta que a resistência manteve a paciência por meses, preservando espaço para a via diplomática, até agir no momento que considerou adequado. De acordo com ele, essa decisão impediu a execução de um plano mais amplo preparado contra o Líbano e retirou do inimigo o elemento surpresa. Também afirma que a resistência continua presente em todas as circunstâncias e que seus combatentes agirão sempre que houver oportunidade, inclusive com a captura de soldados israelenses.
“Não nos acalmaremos nem nos renderemos; o campo de batalha falará”, declarou. Em outro trecho, resumiu a posição do Hesbolá da seguinte forma: “a resistência permanecerá no terreno até o último suspiro”.
O dirigente do Hesbolá afirma que a soberania libanesa só pode ser defendida com a aplicação efetiva do acordo de novembro: fim total da agressão, retirada completa das forças de ocupação das áreas libanesas, libertação dos prisioneiros, retorno seguro dos moradores às suas aldeias e cidades e reconstrução das regiões atingidas. Segundo ele, o governo deve atuar como protetor da unidade nacional, e não como instrumento de pressão externa contra a própria população.
Qassem dirigiu críticas diretas às decisões adotadas pelo governo libanês em 2 de março, que, segundo ele, atingem a resistência e favorecem o agressor. Para o secretário-geral do Hesbolá, qualquer passo em direção a negociações diretas com “Israel” constitui um erro grave e precisa ser revertido. Ele afirma que uma decisão dessa dimensão não pode ser tomada de maneira unilateral e exige consenso nacional amplo.
“Isto é um erro grave, e este governo deve voltar atrás. Voltar atrás é uma virtude”, disse. Em outra passagem, cobrou coerência entre as posições anunciadas pelo Estado e as medidas concretas adotadas: “mostrem-nos a aplicação prática de suas decisões”.
Ao tratar da situação militar, Qassem afirma que “Israel” fracassa em seus objetivos no Líbano. Segundo ele, a ocupação não consegue realizar a invasão terrestre anunciada repetidamente e tampouco consegue interromper o lançamento de foguetes, projéteis e VANTs em direção às posições e colônias israelenses. Diz ainda que o inimigo altera seus objetivos de guerra ao longo da campanha, o que demonstraria instabilidade no planejamento militar.
Em carta enviada ao povo libanês, o dirigente do Hesbolá afirma que os combatentes surpreendem “Israel” com suas táticas, com a mobilidade dos mujaidines e com sua capacidade defensiva. Também sustenta que a resistência não aceitará qualquer arranjo político ou militar que restabeleça a situação anterior à guerra e pede às autoridades libanesas que não façam concessões.
“O inimigo, ‘Israel’, fracassou no campo de batalha diante dos heróis da resistência e não conseguiu realizar a invasão terrestre que anunciava repetidamente”, escreveu. Em outra passagem, afirmou: “vitória é que o inimigo não alcance seus objetivos, e ele não os alcançará”.
Qassem também denuncia a ofensiva israelense contra civis em todo o território libanês. Segundo os dados divulgados, uma das ondas mais intensas da agressão reuniu cerca de 150 ataques aéreos em apenas duas horas contra Beirute, o subúrbio sul, o sul do país, o Vale do Becá e o Monte Líbano. De acordo com a Defesa Civil libanesa, essa ofensiva assassinou mais de 300 pessoas e deixou 1.165 feridas. Só em Beirute, foram 92 assassinadas e 742 feridas; no subúrbio sul, 61 assassinadas e 200 feridas. Também houve assassinados e feridos em Balbeque, Hermel, Nabatieh, Aley, Saida e Tiro.
Ao abordar a situação interna do país, Qassem enfatiza que fracassarão as tentativas de semear divisão entre sunitas, cristãos e xiitas. Afirma que cristãos e muçulmanos são irmãos na pátria e que não haverá ruptura entre o Hesbolá, o movimento Amal, o Exército libanês e o povo. Segundo ele, os Estados Unidos e “Israel” querem fortalecer o Exército para desarmar a resistência, desmontar suas estruturas e colocá-lo contra sua própria população, algo que, diz, o Exército não fará.
O secretário-geral do Hesbolá também dirige uma mensagem aos deslocados pela guerra. Afirma que eles deram exemplo de firmeza e que os que os receberam demonstraram solidariedade exemplar. Segundo Qassem, o povo libanês mostrou uma capacidade de resistência superior à esperada pelo inimigo, apesar da destruição e das ameaças diárias.
Em outro ponto do pronunciamento, Qassem agradece ao Irã, ao Iêmen e ao Iraque pelo apoio ao Líbano e pela pressão sobre “Israel” e os Estados Unidos. Ele pede que o Estado libanês reveja sua posição em relação ao Irã e acolha todo país disposto a apoiar a firmeza libanesa. Ao mesmo tempo, rebate acusações repetidas de Cuaite e Barém sobre supostas atividades do Hesbolá em seus territórios, afirmando que tais alegações já foram negadas diversas vezes e continuam sendo levantadas sem apresentação de provas.
A fala de Qassem também presta homenagem aos combatentes, aos civis, aos jornalistas, às equipes médicas, aos integrantes dos serviços de emergência e aos membros das forças de segurança assassinados na agressão. Segundo ele, “Israel” não ataca apenas os que estão na linha de frente, mas toda a sociedade libanesa. Entre os citados, estão comandantes, jornalistas de veículos ligados à resistência e integrantes do Exército e dos serviços de saúde.
Paralelamente, combatentes da resistência enviaram uma mensagem formal a Qassem a partir das frentes de combate. No texto, declararam plena prontidão para enfrentar qualquer agressão contra o Líbano, reafirmaram obediência à direção do Hesbolá e prestaram homenagem ao Líder da Revolução Islâmica, aiatolá Saied Ali Khamenei, a Saied Hassan Nasseralá e a outros dirigentes martirizados da resistência. Também saudaram o movimento Amal, as Brigadas da Resistência Libanesa e o Exército libanês.
Qassem respondeu aos combatentes com uma carta em que os descreve como “heróis do campo de batalha” e afirma que sua atuação garante liberdade, dignidade e honra ao povo libanês. Na mensagem, declara que o Hesbolá e sua Resistência Islâmica ocupam a posição correta de defesa do Líbano, rejeitando a rendição e defendendo a existência e a independência do país.
“Com vocês, ó luzes da Resistência, nossa bandeira jamais cairá. Com vocês, ó pioneiros da liberdade, os tiranos serão derrubados. Com vocês, ó defensores de nossa terra, o futuro de nossas gerações estará assegurado”, escreveu.
Ao encerrar sua fala, Qassem reiterou que a medida do êxito não é uma alteração momentânea no terreno, mas o fracasso do inimigo em impor seus objetivos. Reafirmou que o Líbano seguirá firme com seu exército, seu povo e sua resistência, e que a ocupação terminará.




