Lei Tabata Amaral

Querem calar todo mundo em nome do combate ao ‘antissemitismo’

Política sionista some do horizonte, e entra em cena a velha chantagem: se você vai além da crítica educada, então talvez seja antissemita

O artigo de Becky S. Korich é um exemplo acabado de como se procura transformar a denúncia dos crimes de “Israel” em caso de polícia. O texto posa de equilibrado, repete a fórmula obrigatória de que “criticar Israel é legítimo”, mas todo o seu esforço real vai em outra direção: alargar ao máximo o conceito de antissemitismo para enquadrar, intimidar e silenciar qualquer protesto mais contundente contra o sionismo. Não é um texto contra o ódio. É um texto a serviço da censura política.

A manobra aparece desde o começo. A autora escreve que “criticar Israel é legítimo”, mas logo em seguida desloca o problema do Estado para a identidade, do genocídio para a sensibilidade do ofendido, da política para a moral. Esse truque é velho. Primeiro, concede-se formalmente o direito à crítica. Depois, esvazia-se esse direito na prática, porque qualquer crítica mais dura, qualquer hostilidade política real ao Estado sionista, qualquer denúncia consequente de seus crimes passa a ser tratada como suspeita de racismo. É assim que funciona a operação.

O centro do texto é justamente esse. Becky Korich não quer discutir o que “Israel” faz. Não quer discutir Gaza, o Líbano, a Palestina ocupada, os bombardeios, os cercos, os massacres, a limpeza étnica. Ela quer discutir o direito de se indignar. Quer transformar a revolta contra um Estado criminoso em desvio moral de quem protesta. A política sionista some do horizonte, e entra em cena a velha chantagem: se você vai além da crítica educada, então talvez seja antissemita.

A autora usa o episódio do bar no Rio para fazer essa operação. Chama a placa contra norte-americanos e israelenses de “exclusão ganhando ares de virtude”, como se estivesse diante de um caso puro e simples de preconceito identitário. Mas isso é falsificação do problema. O contexto é uma guerra de agressão, um genocídio televisionado e uma mobilização internacional contra o Estado sionista e contra o imperialismo norte-americano, que o arma, financia e protege. Tratar um protesto político, ainda que provocativo, como se fosse apenas aversão étnica é arrancá-lo de seu conteúdo histórico concreto para submetê-lo a uma leitura policial.

Mais adiante, a fraude fica escancarada. A autora afirma que “a degradação começa quando a crítica abandona o objeto e escorrega para o ataque à identidade”. Mas quem faz isso, no texto inteiro, é ela. Quem abandona o objeto — o Estado de “Israel”, sua máquina de guerra, seus crimes — para escorregar o tempo todo para a identidade judaica é o próprio artigo. O que deveria estar em julgamento são os atos de um Estado colonial e de seus dirigentes. Becky Korich, porém, prefere deslocar tudo para um terreno em que toda denúncia passa a correr o risco de ser lida como ódio aos judeus.

Esse é precisamente o mecanismo ideológico do sionismo. Fundir, o tempo todo, “Israel”, sionismo e judaísmo, para que qualquer ataque ao primeiro respingue sobre o terceiro. A autora diz rejeitar essa confusão, mas vive dela. Porque, se realmente levasse a sério a distinção, não trataria como ameaça civilizatória toda manifestação política mais dura contra “Israel”. Não faria do passaporte israelense uma categoria quase sagrada, imune à hostilidade política, no exato momento em que o Estado que ele representa massacra populações inteiras.

É ainda mais revelador o elogio que ela faz ao projeto de Tabata Amaral. Becky Korich escreve que a deputada propôs algo “trivial” ao tentar “definir o que é antissemitismo para que ele possa ser reconhecido sem contorcionismo retórico”. E ainda insiste: “O projeto não cria crime, não inventa mordaça, não penaliza opinião.” Isso é o coração do artigo. Todo o resto é preparação para esse ponto. A autora quer convencer o leitor de que ampliar o enquadramento jurídico e político do antissemitismo não ameaça a liberdade de expressão. Ora, esse é justamente o tipo de mentira usada sempre que se quer abrir caminho para a repressão de ideias.

Quando ela afirma que o texto legal “distingue crítica política de racismo”, o que procura vender é a tese de que o aparelho de Estado saberá separar, com neutralidade e precisão, denúncia legítima de “ódio”. Mas a experiência concreta mostra o contrário. Sempre que esse tipo de dispositivo é ampliado, ele vira arma para perseguir o antissionismo, intimidar ativistas, restringir manifestações e proteger diplomaticamente “Israel” contra a indignação popular. Não se trata de proteger judeus contra perseguição. Trata-se de proteger um Estado criminoso contra a crítica política radical.

A passagem mais cínica talvez seja esta: “Nada muda para quem critica de fato, muda para quem usa a crítica como disfarce.” Quem decide quem “critica de fato” e quem usa “disfarce”? A autora? Tabata Amaral? O Judiciário? A imprensa liberal? O resultado prático é óbvio: todo opositor mais duro do sionismo passa a ser colocado sob suspeita. A liberdade é mantida para a crítica domesticada, civil, ornamental, que não ameaça nada. A crítica real, que nomeia genocídio, colonialismo, apartheid e terrorismo de Estado, essa passa a ser empurrada para a zona da suspeita moral e jurídica.

É aí que o artigo revela sua função: não quer combater preconceito; quer disciplinar a linguagem política. Quer dizer ao público até onde ele pode ir. Pode criticar, sim, desde que não ofenda demais. Pode denunciar, sim, desde que não atinja a legitimidade de “Israel”. Pode protestar, sim, desde que preserve a respeitabilidade dos responsáveis pelo massacre. Em resumo: pode falar, desde que fale baixo. Isso não é defesa de convivência democrática. Isso é uma pedagogia da submissão.

A autora também tenta se valer de uma falsa sofisticação sociológica, com referências a Eric Hoffer e ao poema de Brecht, para dar profundidade a uma tese extremamente rasteira. Fala de “identidades frágeis”, de “ódio que precisa de direção”, de mutações do antissemitismo. Tudo isso serve para sugerir que a hostilidade a “Israel” seria apenas mais uma forma atualizada de preconceito antigo. É uma maneira elegante de apagar a realidade material da ocupação, da guerra e da violência sistemática. O Estado sionista desaparece como agente histórico, e sobra apenas a psicologia do ofendido e do ofensor.

No fim, a conclusão do texto é transparente. Becky Korich não está preocupada com a verdade. Está preocupada em fechar o cerco. O artigo quer naturalizar a ideia de que protestos políticos duros contra “Israel” são moralmente suspeitos, e que definir juridicamente o antissemitismo de modo cada vez mais expansivo é algo normal, razoável e até banal. Em outras palavras: quer transformar a indignação contra criminosos de guerra em caso de censura.

É por isso que o texto precisa ser lido pelo que é. Não como reflexão humanista, mas como peça de guerra política. Uma peça escrita para confundir deliberadamente judaísmo com sionismo, racismo com antissionismo, preconceito com revolta política, e para apresentar como defesa da civilização aquilo que, no fundo, é defesa do silenciamento. O recado é simples: os criminosos de guerra de “Israel” não querem apenas bombardear povos inteiros. Querem também calar quem denuncia seus crimes. Becky Korich escreve exatamente a serviço disso.

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