Hungria

Quando a pequena burguesia chama vitória da OTAN de ‘triunfo da democracia’

Autor não demonstra que a situação húngara seja comparável à brasileira em seus fundamentos materiais

O artigo de Oliveiros Marques tenta apresentar a derrota de Viktor Orbán como “uma vitória simbólica da democracia em escala global”. O problema é que, para sustentar essa conclusão, ele precisa apagar quase tudo o que havia de concreto na eleição húngara. O texto transforma uma disputa política inserida no conflito entre a União Europeia, a OTAN, a Rússia e a guerra da Ucrânia numa historinha edificante sobre “resistência democrática”. Com isso, cai de maneira exemplar na propaganda imperialista mais elementar.

A operação aparece já no início. O autor afirma que a derrota de Orbán “se impõe como um símbolo global” e que ela seria “um revés significativo para a extrema-direita mundial”. Isso não demonstra nada; apenas nomeia politicamente o resultado do jeito mais conveniente ao campo que venceu. Em vez de examinar quem ganhou, quais forças internacionais comemoraram, que programa externo estava em jogo e qual conflito dividia a Hungria do bloco europeu, o artigo escolhe a moldura ideológica pronta: se Orbán perdeu, venceu a democracia; se a oposição ganhou, a sociedade impôs limites ao autoritarismo. É uma leitura infantilizada da política internacional.

O mais grave é o que o texto omite. Não há enfrentamento sério do fato de que a principal linha de choque entre Orbán e o bloco ocidental era a guerra da Ucrânia. O artigo fala longamente em “práticas autoritárias”, “controle institucional” e “restrições a liberdades civis”, mas não discute que o governo húngaro vinha se chocando com a União Europeia justamente por se opor à escalada contra a Rússia, por bloquear medidas em favor de Kiev e por manter relações energéticas e diplomáticas que contrariavam Bruxelas. Esse é um dado central da eleição. Ignorá-lo não é detalhe: é mutilar o objeto para que ele caiba na moralina desejada.

Quando o autor escreve que Orbán era parte de uma “aliança simbólica entre governos que flertavam com o autoritarismo, o nacionalismo exacerbado e o enfraquecimento de instituições democráticas”, ele foge mais uma vez do problema real. O núcleo da questão não estava numa simbologia abstrata, mas no lugar ocupado pela Hungria no conflito europeu. A comemoração imediata de Ursula von der Leyen, Roberta Metsola, Macron, Merz, Starmer, Tusk e Zelensqui não foi a comemoração de almas democráticas diante de um milagre cívico. Foi a comemoração de um bloco de poder que acabara de remover um obstáculo interno à sua política externa. Chamar isso de “vitória da democracia” é repetir, sem qualquer mediação crítica, a linguagem do próprio imperialismo.

O texto também abusa de um expediente muito comum da esquerda pequeno-burguesa: pegar qualquer derrota de um adversário do bloco liberal europeu e convertê-la automaticamente em lição universal para o Brasil. Daí a frase de que o resultado na Hungria “acende alerta ao bolsonarismo”. É uma transposição mecânica e grosseira. O autor não demonstra que a situação húngara seja comparável à brasileira em seus fundamentos materiais. Apenas usa Orbán como espantalho para reforçar um discurso interno sobre Bolsonaro. A Hungria desaparece como realidade concreta e vira apenas cenário para uma pregação doméstica.

Esse vício fica ainda mais evidente quando o artigo diz que “a relação entre ambos nunca foi protocolar” e que Orbán e Bolsonaro representariam uma aliança entre projetos autoritários semelhantes. Mesmo admitindo afinidades ideológicas entre os dois, isso não autoriza apagar a especificidade do caso húngaro. Orbán não era apenas um líder conservador incômodo ao liberalismo europeu. Era, sobretudo, um governante em colisão com a política da OTAN e da União Europeia no momento mais agudo da guerra da Ucrânia. O artigo substitui esse dado por uma caricatura mais útil ao moralismo antifascista de ocasião.

Há ainda uma deformação importante quando o autor afirma que a derrota de Orbán “representa a capacidade de resistência das instituições e, sobretudo, da população diante de projetos que buscam corroer direitos e liberdades”. Essa formulação tenta produzir a imagem de uma sociedade que, por força própria, derrotou um regime autoritário. Mas ela evita perguntar qual foi o papel da pressão externa sobre o país, do congelamento de recursos europeus, da campanha política e midiática internacional, do alinhamento de governos ocidentais em favor da mudança e da centralidade da questão ucraniana. Em suma, ela apresenta como pura expressão da vontade democrática nacional um processo que, segundo os próprios elementos trazidos na conversa, estava profundamente atravessado por interesses geopolíticos externos.

Outro problema do artigo é sua adesão acrítica ao clichê “democracia versus extremismo”. Essa linguagem tem uma função política muito clara: impedir que se veja o conteúdo de classe e de poder das coalizões em disputa. Se tudo é resumido a democracia contra autoritarismo, então o bloco liderado pela União Europeia, pela OTAN e pelos governos ocidentais aparece automaticamente como campo do bem. Some da cena o fato de que esse mesmo campo sustenta a guerra na Ucrânia, promove sanções, opera chantagem econômica e intervém pesadamente na vida política de diversos países do continente. O texto não ignora isso por acaso; ignora porque sua função é precisamente lavar essa realidade.

A frase final talvez seja a mais reveladora. O autor diz que “a democracia, apesar de constantemente ameaçada, continua sendo mais forte do que o autoritarismo”. Isso não é análise. É slogan. E, pior, slogan construído a partir de um caso no qual o elemento mais importante era justamente a reorganização do alinhamento internacional da Hungria. Em vez de explicar por que o campo vencedor foi tão celebrado por Bruxelas e Kiev, o artigo fecha com uma profissão de fé abstrata. É o tipo de escrita que troca política por pedagogia moral.

No fundo, o texto sofre de um problema mais geral. Ele parte da propaganda imperialista e a toma como descrição objetiva do mundo. Se a União Europeia está de um lado, esse lado é “democrático”. Se Orbán se choca com a política de guerra, sua derrota é lida como avanço civilizatório. Se a imprensa liberal celebra, então o povo venceu. É exatamente assim que a esquerda pequeno-burguesa abandona qualquer critério independente e passa a funcionar como correia de transmissão ideológica da ordem imperialista.

O erro do artigo, portanto, não é apenas de ênfase. É de método. Ele não analisa a eleição húngara a partir das contradições reais do país e de sua inserção no conflito europeu. Ele enquadra tudo previamente numa moral de desenho animado: Orbán seria a treva, seus adversários seriam a democracia, e o resto do mundo deveria aplaudir. Ao fazer isso, o texto não explica nada. Apenas ajuda a vender como libertação aquilo que, no mínimo, também pode ser lido como vitória estratégica do bloco atlântico.

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