Um artigo de Miguel do Rosário publicado no Brasil 247 tenta extrair da pesquisa Datafolha uma conclusão otimista sobre o governo Lula e sobre a chamada “frente ampla democrática”. O problema é que a interpretação apresentada se apoia mais em um sonho do que no sentido efetivo dos números. O texto vê “resiliência”, “base social diversa” e possibilidade de vitória com “a máquina na mão”. Mas quase não entra no ponto principal: se o governo está estagnado mesmo ocupando o Planalto, isso sugere não força, e sim dificuldade de entregar resultados que mobilizem o eleitorado.
Esse é o primeiro problema do artigo. Ele fala longamente da base social de Lula, mas evita enfrentar a questão mais incômoda: o governo não tem muitos dados novos e impactantes para apresentar ao País. O próprio autor admite isso de maneira indireta quando escreve que “o povo sempre pode rebater com o que não foi criado” e que “o modelo de comunicação baseado unicamente em inaugurações de obras locais está repetitivo”. Esse trecho é importante porque desmonta parte do restante do texto. Se a comunicação está repetitiva e se o eleitor pode responder com aquilo que não foi entregue, então o problema não é apenas de “narrativa”. É de conteúdo do governo.
O segundo ponto fraco aparece quando o autor transforma a persistência de Lula em quase uma prova de vitalidade. Ele escreve: “é com esses 70 milhões — e com a máquina na mão — que se ganha o jogo”. Mas a própria formulação pode ser lida no sentido oposto. Se, com “a máquina na mão”, o governo está apenas tentando segurar sua base e não consegue abrir vantagem confortável, isso não é exatamente demonstração de força. Um governo federal obrigado a celebrar a mera conservação de uma posição apertada é um governo em crise.
O texto também romantiza em excesso a base social de apoio. Quando fala em “um setor da sociedade permanece mobilizado em defesa de princípios de justiça social, igualdade, soberania e direitos democráticos”, o autor converte intenção de voto em adesão programática profunda. O eleitor pode votar em Lula por memória, rejeição ao adversário, identificação histórica, cálculo pragmático ou simples falta de alternativa. O artigo escolhe a leitura mais nobre e ideológica possível, mas não demonstra que essa seja a leitura correta. Faz poesia onde seria preciso fazer análise política.
Há ainda um terceiro problema, mais importante: Miguel do Rosário sugere que o caminho para sair dos 45% e vencer é justamente aprofundar ou dar conteúdo à “frente ampla democrática”. É aí que o texto vai além da leitura benevolente do Datafolha e passa a defender uma linha política que o próprio desempenho do governo põe em xeque. Uma crítica plausível ao quadro atual é exatamente a contrária: foi a frente ampla que produziu a paralisia do governo.
Ao se submeter aos inimigos dos trabalhadores, o governo se viu amarrado. Figuras como Geraldo Alckmin e Simone Tebet simbolizam isso. Em vez de um governo com marca própria e medidas de forte impacto popular, consolidou-se uma administração defensiva, incapaz de romper com políticas econômicas impopulares.
O artigo toca nesse problema sem querer levá-lo às últimas consequências. Quando diz que Lula “não pode se restringir a mobilizar a atenção de pequenos nichos” e que deve “liderar um projeto de transformação nacional”, o autor reconhece implicitamente que esse projeto não existe hoje de forma nítida. Só que ele não pergunta por quê. E a resposta está justamente na coalizão que ele defende. Um governo montado para tranquilizar os capitalistas tem enorme dificuldade de adotar medidas que criem entusiasmo popular real.
Isso ajuda a entender por que o texto fica preso a um registro meio compensatório. Ele elogia a “resiliência” de Lula, celebra a dimensão de sua base, fala em sonho nacional, trem, energia solar, desenvolvimento. Mas quase tudo aparece no futuro, como promessa, sugestão ou desejo. Não como saldo de governo. É a imaginação substituindo a avaliação concreta do que foi feito. O autor fala mais do que o governo deveria ser do que do que ele efetivamente é.





