Europa

O que está em jogo nas eleições na Hungria

Votação decidirá composição do Parlamento e pode alterar política da Hungria diante da União Europeia, da guerra na Ucrânia e do bloqueio de bilhões de euros ao país

Os eleitores da Hungria vão às urnas neste domingo (12) para escolher os 199 integrantes da Assembleia Nacional. A eleição, realizada a cada quatro anos em turno único, ocorre em meio a uma forte pressão internacional sobre o governo de Viktor Orbán.

Estão registrados para votar cerca de 8,2 milhões de eleitores. Segundo dados do Escritório Nacional Eleitoral da Hungria, a participação entre 2006 e 2022 variou de 61% a 69,59%, e a última eleição, realizada em 2022, teve comparecimento recorde. Também se registraram para votar cerca de 91 mil cidadãos húngaros que vivem no exterior, muitos deles na região da Transcarpátia, na Ucrânia.

Embora mais de uma dezena de partidos tenham apresentado candidatos, a disputa está polarizada entre o Fidesz, de Orbán, e o Tisza, dirigido por Péter Magyar. Orbán governa a Hungria desde 2010 e busca o quinto mandato consecutivo. Seu partido e os aliados democrata-cristãos controlam atualmente 135 das 199 cadeiras da Assembleia Nacional.

O governo húngaro tornou-se um dos principais focos de atrito com a burocracia da União Europeia. Orbán se opõe à política de sanções contra a Rússia, rejeita o envio de armas para Quieve e veta, neste momento, um pacote de empréstimos de €90 bilhões destinado à Ucrânia. Ao longo dos últimos anos, o governo também negociou exceções para manter a compra de energia russa, o que reforçou o conflito com Bruxelas.

Péter Magyar, por sua vez, deixou o Fidesz em 2024 e se projetou como principal nome da oposição. Ele defende uma reaproximação da Hungria com a União Europeia e aposta na liberação de quase €20 bilhões que seguem congelados por Bruxelas. Sua candidatura é vista como a principal alternativa para substituir Orbán e alterar a política do país em relação à guerra e à própria União Europeia para se aproximar do imperialismo.

As pesquisas divulgadas antes da votação apresentam diferenças amplas. Uma média publicada pelo Politico aponta 49 pontos para o Tisza e 39 para o Fidesz. Já outros levantamentos dão resultados muito distintos, conforme a origem política e o financiamento dos institutos responsáveis. Pesquisas ligadas a setores pró-União Europeia apontam vantagem larga para Magyar, enquanto levantamentos de centros conservadores indicam dianteira do Fidesz. O governo húngaro afirma que essa discrepância tem servido para preparar uma contestação do resultado — um golpe — caso Orbán seja reeleito.

A campanha foi marcada ainda por uma sucessão de denúncias de ingerência estrangeira. De um lado, jornalistas e setores pró-imperialistas afirmaram que haveria interferência russa em favor de Orbán. De outro, o governo húngaro passou a denunciar a atuação da União Europeia, da Ucrânia e de setores da imprensa ligados a organismos estrangeiros.

Um dos episódios mais importantes ocorreu quando veio a público a colaboração do jornalista oposicionista Szabolcs Panyi com um órgão de espionagem de um país da União Europeia para obter informações sobre o ministro das Relações Exteriores da Hungria, Péter Szijjártó. Panyi admitiu ter fornecido o número do chanceler a esse órgão estatal, que depois obteve dados ligados às comunicações do ministro. O caso foi tratado pelo governo húngaro como evidência de colaboração entre setores da oposição e serviços estrangeiros.

A questão ucraniana também entrou diretamente na disputa. Segundo o governo da Hungria, o governo ucraniano mantém fechado o fluxo de petróleo russo pelo oleoduto Druzhba, apesar da estrutura continuar operacional. A medida, segundo Orbán, eleva os custos de energia no país e busca enfraquecer seu governo às vésperas da eleição.

Também surgiram denúncias envolvendo integrantes ligados ao Tisza. Segundo autoridades húngaras, dois especialistas em tecnologia que trabalhavam para o partido mantinham vínculos com estruturas ucranianas voltadas à guerra cibernética. A oposição afirma que a operação policial realizada contra eles foi uma armação do governo. Já o Comitê de Segurança Nacional da Hungria declarou que um dos investigados teria recebido treinamento com a chamada IT Army of Ukraine e atuado em operações ligadas a Quieve. O caso segue sob investigação.

Os Estados Unidos também intervieram abertamente no processo eleitoral. O vice-presidente J.D. Vance esteve na Hungria em 7 de abril para apoiar Orbán e acusou a União Europeia e a Ucrânia de interferirem na votação. Donald Trump, por sua vez, publicou mensagem pedindo que os húngaros votassem pela reeleição do primeiro-ministro. Em resposta, representantes europeus passaram a denunciar a visita de Vance e a manifestação de Trump como outra forma de interferência estrangeira.

O peso internacional da eleição decorre do papel que a Hungria vem desempenhando dentro da União Europeia. Uma derrota de Orbán pode abrir caminho para o fim do veto húngaro ao pacote de €90 bilhões para Quieve, para uma política mais alinhada às decisões de Bruxelas e para a redução da resistência à ruptura com a energia russa. Uma vitória do Fidesz, por outro lado, tende a manter o atual impasse.

Na edição deste sábado (11) da Análise Política da Semana, Rui Costa Pimenta tratou a eleição húngara como parte do confronto entre o imperialismo europeu e os governos que resistem, ainda que parcialmente, à política imperialista:

“Primeiro, queria chamar a atenção para o fato de que a política de isolamento da Rússia continua a pleno vapor da parte da União Europeia e do imperialismo em geral. Estou me referindo logicamente à eleição na Hungria. Nós vamos ver o mesmo cenário lógico em relação à Bulgária. A União Europeia está procurando evitar o esfacelamento da União Europeia pela presença de setores que são favoráveis à Rússia, principalmente no leste europeu. Já deram vários golpes de Estado, falsificaram eleições e hoje está tendo eleição. O que é a bola cantada da coisa é o seguinte. As pesquisas dariam que o Viktor Orbán, que é quem eles querem derrubar, que é um elemento bem de direita, o que mostra que essa coordenada direita e esquerda, no que diz respeito ao imperialismo, não dá um posicionamento correto. É um elemento bem de direita que eles estão tentando derrubar. Ele perderia a eleição por uma larga margem, mas todo mundo acredita que ele vai ganhar a eleição. O desenvolvimento da situação seria o seguinte: haveria uma gritaria de que houve fraude na eleição e aí seria encenada uma revolução colorida. Um dos principais inimigos do Orbán é o George Soros. O Soros é húngaro também. O Soros encenaria uma revolução colorida ao estilo do que aconteceu na Ucrânia. E muita gente está falando que seria uma Ucrânia número dois, a Hungria. Vamos ver como é que a situação se desenvolve. Se o Orbán ganhar e não acontecer nada, mostra que o imperialismo está muito fraco. Se ele perder, mostra a força do imperialismo no controle desses países. O fato é que o imperialismo tem manipulado as democracias — que essas seriam todas democracias — para que o resultado saia favorável a ele. É uma democracia, é o povo que decide, mas o resultado tem que ser favorável ao imperialismo.”

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