A ministra Cármen Lúcia anunciou, em 9 de abril, que antecipará sua saída da presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e marcou para 14 de abril a eleição simbólica que confirmará Kassio Nunes Marques na presidência e André Mendonça na vice-presidência da Corte. Seu mandato iria, formalmente, até 3 de junho, mas ela afirmou que preferiu iniciar desde já a transição para garantir “equilíbrio e calma” na passagem das funções em ano eleitoral.
O dado político mais importante não está apenas na antecipação, mas em quem recebe o comando da Justiça Eleitoral. O TSE, que em 2022 esteve sob a presidência de Alexandre de Moraes durante a eleição presidencial, será entregue justamente a Kassio Nunes Marques e André Mendonça, os dois ministros do STF indicados por Jair Bolsonaro. Hoje, Nunes já ocupa a vice-presidência do tribunal, e Mendonça é ministro efetivo da Corte.
A mudança chama ainda mais atenção porque não parte de uma figura neutra na ofensiva judicial contra o ex-presidente. Cármen Lúcia votou, em março de 2025, para tornar Bolsonaro réu no caso da trama golpista e, em setembro do mesmo ano, seu voto formou a maioria pela condenação do ex-presidente na Primeira Turma do STF. Bolsonaro acabou condenado a 27 anos e 3 meses de prisão; chegou a ter a domiciliar concedida em março de 2026, depois de ter cumprido pena na Papudinha, e já estava inelegível desde 2023, situação agravada pela condenação criminal posterior.
Se até pouco tempo o aparato institucional tratava o bolsonarismo como um fator a ser contido por todos os meios, agora a passagem do comando do TSE para dois ministros associados ao campo bolsonarista ocorre de maneira organizada e sem crise. A própria justificativa oficial fala em tranquilidade administrativa.
O que isso indica é que a burguesia, diferentemente de 2022, já não parece disposta a levar adiante uma política de contenção total do bolsonarismo. Com Bolsonaro preso, afastado da disputa e submetido a um cerco judicial que neutraliza sua ação direta, o que havia de mais explosivo e imprevisível no movimento foi temporariamente retirado de cena. Nessas condições, abre-se espaço para um entendimento mais estável entre o regime e o bolsonarismo sem Bolsonaro, ou ao menos com Bolsonaro domesticado pela própria máquina do Estado.)
A pergunta, portanto, não é apenas quem comandará formalmente a Justiça Eleitoral em outubro. A pergunta decisiva é: a serviço de qual política estará essa nova composição?





