Segundo os delírios diários de Donald Trump, os EUA destruíram a Marinha, a Força Aérea e líderes iranianos; mísseis e drones iranianos estão esgotados e o regime foi dizimado militar e economicamente. Trump prometeu recentemente ataques intensos nas próximas duas ou três semanas para “levar o Irã à Idade da Pedra”. Como não conseguem localizar o arsenal militar do Irã, EUA e Israel vêm basicamente despejando mísseis em escolas, hospitais, museus, locais históricos e residências, cometendo crimes de guerra em série — comportamento costumeiro dessa coligação abominável.
Como se sabe, o presidente dos EUA mente tanto que acaba acreditando nas próprias mentiras, o que não o impede de desdizer à tarde o que tinha afirmado pela manhã. Além disso, em uma guerra, a primeira vítima é a verdade. Por isso, os dados objetivos do conflito devem ser sempre a principal referência do observador comprometido com a verdade. Um dado inegável é que quem controla o Estreito de Ormuz é o Irã. O local é uma pequena passagem marítima de cerca de 33 km de largura no ponto mais estreito, localizada entre o Golfo Pérsico (ao norte, controlado pelo Irã) e o Golfo de Omã (ao sul, perto de Omã). Ele conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico, servindo como porta de saída para o oceano Índico.
A importância do Estreito para a economia mundial é enorme, pois é um dos principais “gargalos” do comércio global de energia. Por ali passam, em tempos normais, cerca de 20-30% do petróleo mundial (mais de 20 milhões de barris/dia), vindo de países como Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes, Kuwait e Irã. Também transporta 20% do gás natural liquefeito (GNL) global, especialmente do Catar. Qualquer interrupção causa picos nos preços do petróleo, afetando inflação, transporte e indústrias em todo o mundo.
O Irã está aproveitando a guerra para deixar bem claro quem controla o Estreito de Ormuz. Já anunciou, inclusive, que, normalizada a situação, mudará o status do Estreito, passando a cobrar um pedágio das embarcações que por ali passam, inclusive para reparações de guerra, já que o país está sendo destruído por ataques criminosos e totalmente ilegais. Aliás, esse pedágio já está sendo cobrado dos navios autorizados pelo Irã a cruzar Ormuz. O Irã criou uma capacidade integrada de interdição do Estreito que não pode ser derrotada sem o uso de tropas de infantaria (coisa que o imperialismo não consegue organizar).
Essa estratégia integrada, projetada para interditar o tráfego marítimo, é difícil de derrotar rapidamente devido à combinação de armas assimétricas, geografia favorável (costa extensa de 1.800 km e ilhas) e táticas de guerrilha naval. Vale lembrar que o Irã vem se preparando para essa guerra há cerca de 25 anos, e seus militares pensaram os seus aspectos nos mínimos detalhes. O controle do tráfego no Estreito de Ormuz pelo Irã é mais uma derrota para os EUA nessa guerra.
Os pretextos usados pelos EUA para a agressão ao Irã vieram mudando a cada semana desde o início da guerra, ao sabor das oscilações da demência de Trump. Primeiro foram as armas nucleares; não adiantou o Irã dizer que não iria fabricar. Em seguida, foi a existência de mísseis balísticos — o Irã não poderia também possuí-los. Depois, a mudança de regime, porque o Irã iria dominar o Golfo Pérsico. Finalmente, Donald Trump está dizendo que o objetivo é abrir o Estreito de Ormuz para o tráfego normal de embarcações. O que é muito curioso, porque o Estreito estava funcionando normalmente antes do ataque traiçoeiro — feito em meio a negociações — dos EUA e Israel.
Os EUA não precisam diretamente do Estreito de Ormuz para movimentar sua economia, mas a economia mundial precisa, porque o controle por parte do Irã, proibindo a passagem às embarcações dos países inimigos, está impactando fortemente os preços globais de energia, com risco inclusive de uma depressão econômica. O fato de que, quarenta dias após o início da guerra, o Estreito continue fechado é uma prova definitiva da força dos iranianos. Enquanto o presidente dos EUA age como uma barata tonta, o Irã até o momento executa um plano de guerra minuciosamente elaborado.
A realidade política do Irã e de seus inimigos é muito diferente, o que é um fato crucial da guerra. Neste momento, em Israel, milhões de pessoas passam um tempo significativo em abrigos, com medo dos bombardeios, cada vez mais comuns porque o sistema de defesa antiaérea virou uma verdadeira “peneira”. Nos EUA, não mais do que 20% da população apoia a agressão contra o Irã, fato que pode significar uma derrota acachapante para Trump nas eleições parlamentares de novembro próximo. No Irã, apesar de a população estar sendo bombardeada por caças, ninguém está se escondendo em bunkers (seguindo o exemplo, aliás, de seu líder máximo, Ali Khamenei, covardemente assassinado pelos sionistas). Isso mostra a realidade política muito diferente entre os dois países. Há um problema adicional para os agressores: os iranianos ainda não colocaram todas as suas cartas sobre a mesa no que se refere a recursos tecnológicos. O país dispõe ainda de capacidades bélicas e estratégicas que ainda não foram reveladas.
Quanto mais essa guerra se prolongar, mais difícil será para os EUA e Israel sustentá-la. Há, primeiro, dificuldades de reposição de suprimentos de guerra, pois, apesar da fortuna investida em guerras, a indústria dos EUA tem baixa capacidade de produção. Além disso, é uma guerra muito assimétrica do ponto de vista financeiro. O drone iraniano Shahed-136 (o mais usado) tem custo de produção médio de US$ 35.000. Outros modelos custam em média US$ 40.000 a US$ 60.000. A comparação com as defesas do inimigo é impressionante. O míssil interceptador Patriot, fabricado pelos EUA, custa de US$ 3 a 4 milhões, ou seja, um drone custa de 0,5% a 1,5% de um míssil de defesa. É uma guerra muito difícil de sustentar, mesmo para o país mais rico do mundo, o que é agravado pela tendência crescente a uma derrota fragorosa.
A guerra, além de prejudicar muito a economia norte-americana através do aumento de preços dos derivados do petróleo, está consumindo rapidamente o orçamento do Pentágono. Neste mês de abril, o governo norte-americano enviou ao Congresso uma proposta de orçamento militar recorde, de US$ 1,5 trilhão para o ano fiscal de 2027 (que começa em outubro próximo). Este valor representa um aumento histórico de aproximadamente 42% (cerca de US$ 445 bilhões) em relação aos níveis aprovados para 2026.
O pedido de US$ 1,5 trilhão é justificado pela administração Trump como fundamental para manter a supremacia militar global. Para compensar o aumento nos gastos militares, o plano propõe cortes de cerca de 10% em gastos discricionários não relacionados à defesa, atingindo agências civis, programas sociais e educação. O orçamento inclui recursos para o projeto “Golden Dome” (um sistema de defesa antimísseis), expansão da frota naval e um aumento significativo para a Força Espacial, que teria seu orçamento mais que dobrado para US$ 71 bilhões.
A indústria de defesa dos Estados Unidos é composta por gigantes do setor privado que formam a espinha dorsal do que é conhecido como o Complexo Industrial-Militar. Essas empresas não apenas fabricam o armamento, mas também exercem uma influência profunda sobre o Congresso e o governo norte-americano. As cinco maiores empresas, frequentemente chamadas de “The Big Five”, dominam a maior parte dos contratos do Pentágono. Essas empresas são diretamente beneficiadas pelas guerras eternas provocadas pelos EUA e certamente têm influência decisiva na expansão do orçamento militar do país. Apesar do orçamento trilionário dos EUA, a guerra contra o Irã levantou sérias dúvidas entre os especialistas sobre a eficiência do equipamento fornecido pelo Complexo Industrial-Militar.
À medida que o conflito se desenvolve, são cada vez mais fortes os sinais de que o Irã vai impingir uma derrota estratégica aos EUA. Um país atrasado, uma potência média, que sofre todo tipo de boicote há 47 anos, manter-se firme e enfrentar o império mais poderoso da Terra é um feito que vai impactar a história das guerras. Em caso de vitória do Irã, os EUA vão se enfraquecer em outras frentes. Por exemplo, a permanência dos EUA no Oriente Médio vai ficar cada vez mais difícil. As ditaduras árabes no Golfo Pérsico, países artificiais que são braços e pernas do imperialismo norte-americano, estão ficando em uma situação insustentável. Esses governos, dominados por emirados extremamente corruptos, que colocaram as riquezas dos países a serviço de algumas famílias, vão ter dificuldades para se manter.
Um outro efeito impagável de uma possível vitória do Irã nesta guerra é o enfraquecimento de Israel. Este possivelmente é o melhor resultado de todos. Uma vitória do Irã em um conflito direto e total contra os Estados Unidos representaria uma mudança sem precedentes na história moderna. As consequências para os EUA e, principalmente para Israel, seriam estruturais.





