Política Internacional

NYT reconhece que subestimaram o poder iraniano – Parte 2

Thomas L. Friedman, editorialista do The New York Times, quer que o Irã entregue seu urânio em troca de um acordo de paz, o que não faz sentido, e os EUA nunca cumprem acordos

Aeronaves dos EUA destruídas

Continuamos aqui o debate com o texto de Thomas L. Friedman, editorialista de política internacional do The New York Times, teve seu artigo Trump tem uma saída para a guerra publicado na Folha de S. Paulo nesta sexta-feira (3) (leia).

A saída para a guerra que Friedman propõe parece bem fora da realidade. Sustenta que “Trump deveria deixar de lado seu plano de paz de 15 pontos, que seria ridiculamente complicado de implementar, e reduzi-lo a dois pontos: o Irã entrega seus mais de 430 quilos de urânio altamente enriquecido, quase o bastante para produzir a bomba, e em troca os Estados Unidos desistem da mudança de regime”.

Na verdade, os EUA já desistiram da “mudança de regime”, perceberam que não vão conseguir colocar um governo fantoche como o antigo Xá. Por outro lado, por que o Irã entregaria seu urânio? Esse pedido não faz o menor sentido.

Friedman segue em sua divagação dizendo que “ambos os lados então concordariam em encerrar todas as hostilidades. Ou seja, nada mais de bombardeios americanos e israelenses, nada mais de foguetes iranianos e do Hezbollah, nada mais de bloqueio do estreito de Hormuz e, com certeza, nada de tropas americanas desembarcando no Irã”.

Olhando para o mundo real, por que alguém acreditaria em acordos com EUA e “Israel”? Por acaso os sionistas respeitaram o cessar-fogo com o Líbano? Aceitaram com os palestinos? Não.

Será o que o editorialista do NYT se lembra que o Irã foi atacado no meio das duas últimas negociações?

Mentiras e mais mentiras

Friedman utiliza uma frase de um certo John Arquilla, (ex-professor de análise de defesa na Escola de Pós-Graduação Naval e autor do livro a ser lançado “The Troubled American Way of War”), que diz que “Temos que perceber que o que o regime iraniano mais quer é permanecer no poder, e o que os Estados Unidos e Israel mais querem é que o Irã não tenha uma bomba”. Ora, qual “regime” no mundo está interessando em deixar o poder? Fora isso, os agressores sabem muito bem que o Irã não estava atrás de uma arma nuclear. Talvez agora esteja, pois esta parece ser a única coisa capaz de inibir futuras agressões.

Diz também que “ambos os lados podem conseguir o que mais querem se estiverem prontos para abrir mão do que querem em segundo lugar.” O fato é que o imperialismo quer tudo. A desculpa das armas nucleares é uma farsa, é a mesma mentira que utilizaram contra o Iraque. Portanto, é falso afirmar que “para os Estados Unidos e Israel, o segundo prêmio após eliminar o urânio altamente enriquecido do Irã seria a mudança de regime”. Mudar o governo é a prioridade número um, basta ver que tentaram uma revolução colorida no início de 2026 e assassinaram covardemente o aiatolá Khamenei.

Segundo Friedman, “a equipe de Trump supostamente tem negociado através do Paquistão com o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, que tem fortes laços com a Guarda Revolucionária do Irã, que parece ser o verdadeiro poder nos bastidores. O regime iraniano remanescente pode muito bem estar pronto para considerar entregar seu urânio em troca de sua sobrevivência”.

Friedman está subestimando a inteligência de seus leitores e do governo iraniano. Se entregarem o urânio, em seguida vira uma nova exigência que, se não for cumprida, será utilizada para romper o cessar-fogo, como fazem costumeiramente os sionistas.

Propaganda democrata

Thomas L. Friedman diz que, “embora talvez nunca tenha explicado isso com todas as letras, se você observar as ações do presidente Barack Obama em relação ao Irã, ele claramente entendia que era um problema complexo”.

Seguindo o raciocínio, o jornalista escreve que “essa foi a lógica do acordo de Obama com o Irã em 2015, o Plano de Ação Conjunto Global, que estabeleceu limites verificáveis internacionalmente ao programa de enriquecimento de urânio do país, e sua decisão de conviver com seu crescente arsenal de mísseis balísticos e seu cultivo de milícias apoiadas pelo Irã no Líbano, Síria, Iêmen e Iraque – que não ameaçavam os Estados Unidos”.

Nada mais falso, o governo Obama, além das sanções econômicas criminosas, passou a bombardear incessantemente a Síria. E-mails vazados da então secretária de Estado, Hillary Clinton, provam que o plano era destruir o governo Al-Assad. O Eixo da Resistência, aqui chamado de milícias, ameaçam, sim, o EUA, dado que o país tem inúmeros interesses na região, fundamental para sua dominação.

Friedman é obrigado a reconhecer que “o acordo de Obama com o Irã funcionou como planejado. Quando Obama deixou o cargo, as restrições às capacidades de enriquecimento nuclear do Irã, verificadas por inspetores internacionais, significavam que o Irã, se rompesse o acordo, precisaria de pelo menos um ano para produzir material físsil suficiente para uma ogiva nuclear”. O que é mais do que suficiente para comprovar que o país não perseguia uma bomba.

Os EUA, no primeiro se retirou unilateralmente dos acordos de 2018, como o texto comprova. Portanto, não estavam em condições de exigir nada. “Quando Trump voltou ao poder, ele novamente negligenciou forjar uma alternativa” afirma o jornalista e, vem com essa “brilhante” conclusão de que “então o Irã passou de estar a um ano de uma bomba sob o acordo nuclear de Obama para semanas de distância graças à retirada imprudente de Trump da estratégia de Obama sem uma substituição eficaz”.

Já faz trinta e quatro anos que repetem que o Irã está prestes a construir uma arma nuclear. O que contraria o que dizem as agências reguladoras e mesmos os serviços de inteligência americanos.

Concluindo, Friedman escreve o seguinte: “os Estados Unidos deveriam estender garantias de que encerraremos a guerra, deixaremos o regime no lugar, pararemos de destruir a infraestrutura do Irã e até ofereceremos algum alívio das sanções ao petróleo, se o Irã entregar todo o seu material físsil altamente enriquecido e cessar todas as hostilidades de seu lado. Todo o resto fica adiado para outro dia. (Enquanto isso, um regime iraniano muito enfraquecido teria que ser mais responsivo ao seu povo.)”

Ninguém acredita em garantias dos EUA. Se quisessem um acordo, já teriam parado de cometer seus crimes, como o de destruir a infraestrutura iraniana. Se os EUA não levantarem as sanções, o Irã poderá muito bem cobrar pedágio no Estreito de Ormuz e utilizar o dinheiro para reconstruir o que for necessário.

Thomas L. Friedman poderia deixar sua arrogância de lado e ver as multidões que diariamente se aglomeram nas praças, mesmo sob bombardeio para apoiar o governo. Se existe algum regime enfraquecido, deve ser nos EUA, ou “Israel”, e o mais provável é em ambos.

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