Localizado nas proximidades do Teatro Municipal e da Praça da República, no coração da cidade de São Paulo, o Centro Cultural Benjamin Péret foi palco do um painel sobre a guerra no Oriente Próximo mais aguardado no Brasil. O evento, transmitido ao vivo para milhares de espectadores pela Causa Operária TV e pelo canal Arte da Guerra, reuniu Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), o comandante Robinson Farinazzo, do canal Arte da Guerra, e o jornalista Breno Altman, editor do portal Opera Mundi. Sob o título “Guerra contra o Irã: abaixo a agressão imperialista”, o encontro ocorrido neste sábado (4) foi definido pelos participantes menos como um debate de ideias divergentes e mais como um “painel de opiniões” unificado em defesa do povo iraniano.
A abertura dos trabalhos coube a Rui Costa Pimenta, presidente do Partido da Causa Operária (PCO), que iniciou sua fala destacando a importância do debate. Segundo o dirigente, o momento representa um “ponto de inflexão” na situação política mundial.
O fundamento revolucionário
Para Pimenta, o poderio militar iraniano, que hoje “entalou” o imperialismo em um “pântano militar”, tem sua certidão de nascimento na Revolução de 1979. Citando a máxima de Karl Marx de que “as revoluções são a locomotiva da história”, ele afirmou:
“Nada disso que nós estamos assistindo aqui hoje — o poderio militar iraniano, as represálias contra os ataques traiçoeiros do imperialismo — nada disso existiria não fosse a Revolução de 1979.”
O fim da ditadura do Xá Reza Pahlavi não foi apenas a troca de um governante, mas uma subversão completa da estrutura política e econômica do país. Pimenta caracterizou o regime anterior como uma “ditadura odiosa, sangrenta e criminosa, sustentada pelo imperialismo”. Segundo ele, a revolução foi uma “verdadeira comoção nacional” que permitiu ao Irã construir as bases de uma defesa que hoje parece surpreendente para quem não acompanha a política internacional de perto.
O presidente do PCO relembrou que a Revolução Iraniana ocorreu durante o último grande ciclo revolucionário mundial, iniciado com a crise capitalista de 1974. Ele traçou paralelos com a Revolução na Nicarágua, o movimento na Polônia — que desencadearia o colapso do bloco soviético — e a Revolução dos Cravos em Portugal. De acordo com o dirigente, a Revolução Iraniana foi, dentre todas, a mais “desestabilizadora para o sistema internacional do imperialismo”, pois retirou uma peça-chave da hegemonia ocidental no Oriente Médio.
Nacionalismo radical e a máscara religiosa
Um dos pontos centrais da exposição de Rui Costa Pimenta foi a desmistificação do caráter religioso do regime iraniano. Para ele, a propaganda imperialista utiliza a religião para “estigmatizar” o país e afastar o apoio da esquerda. Pimenta propôs uma análise baseada no que chamou de “objetividade política”:
“A República Islâmica é o regime de um nacionalismo radical. Não é um regime proletário socialista, mas é o regime nacionalista mais radical do planeta Terra, mais radical que o chavismo venezuelano.”
Pimenta argumentou que a face religiosa da revolução é a forma ideológica que o nacionalismo assumiu em um país oprimido.
“O fato de que esse nacionalismo se apresente com cores religiosas não acrescenta nada, nem subtrai nada. Independentemente das considerações religiosas, o regime é movido pela sua hostilidade ao imperialismo.”
O papel do clero
Ao tratar da estrutura do Estado iraniano, Pimenta rebateu a classificação de “teocracia” nos moldes em que a imprensa a descreve. Ele explicou que o clero xiita no Irã não deve ser comparado ao clero conservador da América Latina. “O clero xiita foi a coluna vertebral da oposição ao regime do Xá. Eles são militantes, pessoas que estiveram presas e foram torturadas”, explicou, citando o exemplo de Saied Ali Khamenei.
O analista comparou o clero iraniano a movimentos como o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), definindo-os como “militantes que estão na luta”. Segundo Pimenta, o Conselho Supremo da Revolução Islâmica é o órgão onde os setores revolucionários mantêm uma influência decisiva sobre o regime.
Sobre a “democracia”, Pimenta afirmou que o Irã possui instituições representativas, parlamento e eleições para presidente, mas que, como todo regime revolucionário, exclui os “contrarrevolucionários”.
“Nós não podemos ter uma visão da democracia que seja puramente jurídica. Um regime anti-imperialista, por definição, é um regime democrático, pois se apoia na relação com a população para enfrentar todo o imperialismo mundial.”
A guerra como contrarrevolução
Finalizando sua primeira intervenção, Rui Costa Pimenta definiu a agressão contra o Irã como uma guerra declaradamente “contrarrevolucionária”. O Irã é o centro do Eixo da Resistência, apoiando o Hesbolá no Líbano e a resistência no Iêmen, no Iraque e na Palestina.
“O imperialismo não pode conviver com uma estrutura tão revolucionária. É preciso esmagar a revolução que se desenvolve naquela região impulsionada pelo Irã.”
Pimenta encerrou criticando a postura da esquerda brasileira que “apoia o povo, mas não o governo” do Irã.
“Isso é uma abstração. Não foi o povo em abstrato que construiu túneis e mísseis para impor uma derrota ao imperialismo; foi a República Islâmica. Se existe uma força anti-imperialista no mundo hoje, é o Irã.”
O balanço das perdas: os números que a imprensa esconde
Após a fundamentação histórica apresentada por Rui Costa Pimenta, a palavra foi passada ao comandante Robinson Farinazzo, oficial da reserva da Marinha do Brasil e editor do canal Arte da Guerra. Para o comandante, o mundo está diante de uma transformação sem precedentes, movida pela incapacidade do Pentágono em gerenciar o risco militar contra uma potência regional da magnitude do Irã.
Farinazzo iniciou sua exposição apresentando dados que, segundo ele, são omitidos ou minimizados pela “mídia mainstream”. Com 35 dias de guerra transcorridos até a data do debate, o comandante contabilizou a destruição de 35 aeronaves dos Estados Unidos.
“Foram 17 drones de última geração e o restante dividido entre jatos, helicópteros e aeronaves de grande valor destruídas no solo.”
O comandante comparou a situação atual com a Guerra do Vietnã — na qual os EUA perderam cerca de 10 mil aeronaves —, ressalvando que, embora as condições sejam diferentes, a “taxa de sucesso” iraniana em derrubar ativos tecnológicos de ponta é algo que o mundo não via há décadas. Para Farinazzo, o desastre militar norte-americano é muito maior do que o apresentado oficialmente. Ele apontou uma inconsistência estatística nos relatórios do Comando Central dos Estados Unidos (Centcom):
“Eles estão com mais de 700 feridos e querem nos fazer acreditar que são apenas 13 mortos. Se você tem 700 feridos por politraumatismos e queimaduras, vai ter no mínimo 200 mortos. Há sempre uma proporção. O fato de terem parado de divulgar as baixas há dez dias mostra que não conseguem mais justificar as perdas perante a opinião pública.”
O recuo inédito da Marinha dos EUA
Um dos pontos mais enfáticos da fala de Farinazzo foi a situação da Marinha dos Estados Unidos na região do Golfo. Segundo o oficial, a frota norte-americana foi “varrida” das águas iranianas, um evento que ele classifica como inédito na história naval moderna.
“Não há precedente na história da humanidade da Marinha dos Estados Unidos ser varrida de uma região geográfica. Eles simplesmente não conseguem se aproximar do Irã.”
O comandante explicou que o Irã ainda não utilizou todo o seu arsenal, mas que os ataques e contra-ataques realizados até agora já foram suficientes para mostrar que os sistemas defensivos imperialistas tornaram-se “peneiras”. Ele destacou que porta-aviões como o Abraham Lincoln foram obrigados a se afastar da costa para evitar a destruição por mísseis e veículos aéreos não tripulados (VANTs) de baixo custo, expondo a vulnerabilidade da força naval.
Engenheiros geniais
Para Farinazzo, o segredo da resistência iraniana reside na qualidade de seus quadros técnicos e no orgulho nacional. Ele descreveu o Irã como um país de engenheiros geniais, citando o fato de serem os inventores históricos de sistemas complexos, como o ar-condicionado sem eletricidade. O comandante destacou que o Irã forma hoje mais engenheiros por ano do que o Brasil, mas com uma diferença fundamental:
“O Irã não forma seus engenheiros para depois ficarem jogando no mercado financeiro ou para dirigirem Uber. Eles formam engenheiros para construir um país e dar continuidade a uma civilização.”
O ‘gato na árvore’ e a lição para o Brasil
Robinson Farinazzo encerrou este bloco de sua intervenção comparando Donald Trump a “um gato que subiu na árvore e não consegue descer”. Segundo o analista, o ex-presidente e candidato foi avisado por militares de alta patente de que a aventura no Irã seria desastrosa, mas ignorou os alertas.
Para o comandante, a principal lição que o Irã deixa para o Brasil é a da união nacional. Ele destacou que o Irã é um país multiétnico — composto por persas, azeris, baluques, curdos, árabes e até judeus e armênios — que se uniu em torno da integridade do país.
“É um momento de reflexão. Se a gente não se unir em torno de um projeto nacional, não vai sobrar nada. O estrangeiro não vem aqui para fazer o bem, vem para levar nossas riquezas.”
O declínio dos EUA
Com a palavra, o jornalista Breno Altman deu continuidade ao painel aprofundando a crise do imperialismo. Ele destacou que a produção e a acumulação de riqueza estão saindo do eixo “Norte-Ocidente” em direção ao bloco liderado pela China e articulado via BRICS. Altman resgatou uma declaração de Donald Trump para ilustrar a gravidade do momento: “perder o dólar, perder a supremacia, corresponde a perder a Terceira Guerra Mundial”.
América Latina e Oriente Médio
Altman explicou que, apesar do comportamento por vezes “tresloucado” de Trump, existe uma política desenhada para recompor a economia norte-americana. Ele citou o documento da Nova Estratégia de Segurança Nacional, que define a América Latina como o foco prioritário devido às suas reservas de água doce, terras raras, petróleo e gás, além da proximidade geográfica.
Contudo, o segundo braço dessa estratégia é o Oriente Médio, visto como o caminho para estrangular o crescimento chinês. Altman apresentou um dado logístico crucial: “50% do petróleo importado pela China passa pelo Estreito de Ormuz. Se os EUA controlassem o estreito, dariam um golpe duro contra a China”. Por essa razão, o articulista classifica o conflito atual como uma guerra por procuração: o alvo imediato é o Irã, mas o cálculo visa China e Rússia.
Solidariedade sem conjunções adversativas
Altman encerrou esta parte de sua fala com uma crítica à esquerda pequeno-burguesa, que utiliza “conjunções adversativas” ao tratar de países sob ataque imperialista: “Estamos com o Irã, mas o regime… Apoiamos a Palestina, mas o Hamas…”. Ele concluiu dizendo:
“A nossa solidariedade à República Islâmica do Irã deve ser incondicional, como foi ao Vietnã contra os EUA”, defendeu. Ele elogiou a postura do PCO, afirmando que, apesar de divergências históricas, hoje existe uma identidade quase total nas questões internacionais. “A contradição principal desta etapa não é abertamente entre classe trabalhadora e burguesia, mas entre o imperialismo e os povos que lutam contra ele. Devemos cerrar fileiras com todas as forças anti-imperialistas.”
A “Guerra Mundial Oculta”
Instigado por perguntas da audiência sobre o papel da Rússia e da China, Rui Costa Pimenta afirmou que o mundo já vive um conflito global, embora não declarado formalmente. “Nós estamos vivendo uma situação que é uma guerra mundial em andamento, só que ela é uma guerra mundial oculta, escondida”, afirmou o presidente do PCO.
Pimenta argumentou que Rússia e China já compreenderam que o Irã é uma linha de defesa vital. Para ele, se o imperialismo conseguir derrubar o Irã, os próximos alvos serão invariavelmente os russos e os chineses. “Eles já perceberam que não dá para ceder mais terreno. Chineses e russos estão ajudando o Irã; se não estivessem, seria um sinal de que não sabem o que estão fazendo”, pontuou. O dirigente criticou a postura anterior da Rússia na Síria, classificando-a como um erro de “bobeira”, mas ressaltou que agora o bloco de oposição ao imperialismo está claramente definido.
O comandante Robinson Farinazzo corroborou a tese, utilizando a história como régua. Ele lembrou que a participação chinesa na guerra do Vietnã contra os franceses só foi detalhada décadas depois devido à discrição diplomática da China.
Considerações finais
Breno Altman, em suas considerações finais, discutiu sobre o que chamou de “contradição principal” do atual cenário internacional. Para o jornalista, embora a luta de classes entre burguesia e proletariado (capitalismo versus socialismo) seja o motor da história, nesta etapa específica de “longo período contrarrevolucionário” após 1991, essa luta manifesta-se de forma distinta.
“A contradição entre capitalismo e socialismo se manifesta hoje como uma contradição entre o imperialismo e os povos que lutam contra ele.”
O comandante Robinson Farinazzo encerrou sua participação com um apelo à dignidade e ao reconhecimento da ameaça que paira sobre as riquezas brasileiras. Ele relatou sua experiência pessoal ao conhecer iranianos, destacando a “altivez face às adversidades” como uma característica civilizatória que o Brasil precisa assimilar.
O oficial da reserva alertou para a cobiça estrangeira sobre o território nacional e criticou a desunião interna. “Do Oiapoque ao Chuí, a gente fala a mesma língua e não está se entendendo. Se a gente não se unir em torno de um projeto nacional, não vai sobrar nada”, advertiu.
Rui Costa Pimenta, ao fechar o painel, reforçou que o mundo assiste ao fenômeno político de derrota do imperialismo mais importante desde a Guerra do Vietnã — e, possivelmente, superior a ela. Ele reiterou que o enfrentamento militar tradicional que o Irã impõe aos Estados Unidos mostra uma capacidade técnica que nenhum país demonstrou até hoje, forçando um “recuo e reconhecimento de fracasso extraordinário” por parte do imperialismo.




