O Barém, monarquia do Golfo Pérsico que abriga a Quinta Frota dos Estados Unidos, apresentou no Conselho de Segurança da ONU um projeto de resolução para autorizar o uso da força no Estreito de Ormuz. A proposta, levada adiante justamente pelo país que assumiu a presidência rotativa do órgão em abril, prevê que os Estados-membros, isoladamente ou por meio de “associações marítimas multinacionais voluntárias”, possam empregar “todas as medidas defensivas necessárias e proporcionais” para garantir a passagem de embarcações.
O gancho da iniciativa é o bloqueio praticamente total do estreito pelo Irã, em resposta à guerra lançada pelos Estados Unidos e por “Israel” contra o país em 28 de fevereiro. Como cerca de 20% das exportações mundiais de petróleo passam por Ormuz, a interrupção do tráfego marítimo provocou forte alta nos preços da energia, além de ameaçar o abastecimento de fertilizantes e, por consequência, a produção de alimentos em vários países.
A proposta baremita estava prevista para ser votada na sexta-feira (3), mas a deliberação foi adiada na última hora. Oficialmente, o motivo alegado foi o feriado da Semana Santa, embora essa circunstância já fosse conhecida antes. Segundo fontes diplomáticas, o texto segue sem consenso dentro do Conselho de Segurança.
O sexto e mais recente rascunho da resolução autoriza medidas “defensivas” por pelo menos seis meses nas águas do estreito e em seus arredores, com o objetivo declarado de assegurar a navegação internacional e dissuadir qualquer tentativa de fechar ou obstruir a passagem. Nas primeiras versões, o Barém havia incluído referências mais explícitas a sanções e ação militar, o que encontrou oposição de outros membros do Conselho, principalmente Rússia e China.
O embaixador do Barém na ONU, Jamal Fares Alrowaiei, afirmou na sexta-feira que o texto ainda necessita de “muito trabalho”. Segundo ele, seguem as comunicações e discussões com os demais membros do Conselho para se chegar a uma redação que obtenha consenso e possa ser adotada rapidamente. Para ser aprovada, uma resolução do Conselho de Segurança precisa de pelo menos nove votos favoráveis e não pode ser vetada por nenhum dos cinco membros permanentes: Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França.
A resistência ao projeto foi expressa de maneira aberta por Rússia e China. Representantes chineses afirmaram que permitir, nas atuais circunstâncias, que os Estados-membros usem “todas as medidas necessárias” levaria a uma escalada ainda maior. A Rússia classificou o texto como “parcial”.
Do lado iraniano, a advertência foi igualmente direta. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, alertou contra “qualquer ação provocadora” dos agressores e de seus apoiadores, inclusive no Conselho de Segurança, para forçar a abertura de Ormuz. Segundo comunicado do ministério, o uso da força para liberar a passagem marítima “só tornará a situação ainda mais complicada”.
A posição iraniana foi reforçada pela Guarda Revolucionária, que afirmou que o estreito permanecerá fechado aos inimigos do país. Ao mesmo tempo, Teerã vem insistindo que os países vizinhos são nações amigas e irmãs, defendendo que os países árabes do Golfo Pérsico expulsem as forças norte-americanas da região.
A proposta do Barém deixa claro o papel da monarquia como fantoche do imperialismo na região. Desde o início da guerra, o país se tornou alvo de ataques iranianos justamente por sediar a Quinta Frota dos EUA, responsável pela projeção do poder naval norte-americano no Golfo Pérsico, no Mar Vermelho e no Mar Arábico. Essa força participou da agressão contra o Irã, e a iniciativa diplomática do Barém busca agora dar cobertura na ONU para uma operação naval contra Teerã.
A ofensiva baremita coincide com a pressão aberta de Donald Trump sobre os aliados europeus. Na quinta-feira, o presidente norte-americano ameaçou suspender a venda de armas à Europa para uso na Ucrânia, caso os países da OTAN não ingressem em uma “coalizão dos dispostos” para reabrir Ormuz pela força. Trump também chegou a sugerir que os Estados Unidos poderiam se retirar da aliança militar transatlântica.
A França procurou marcar certa distância dessa política. Em visita à Coreia do Sul, Emmanuel Macron afirmou que a abertura de Ormuz por meio de uma operação militar seria “irrealista”. Segundo ele, essa nunca foi a opção defendida por Paris, pois uma ação desse tipo demoraria muito tempo e exporia todos os que atravessassem o estreito aos riscos representados pela Guarda Revolucionária e pelos mísseis balísticos iranianos.
Macron declarou que o estreito só poderá ser reaberto mediante conversações com o Irã. Durante a visita a Seul, ele e o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, concordaram em atuar em conjunto para ajudar a reabrir Ormuz e ampliar a cooperação entre os dois países em áreas como tecnologia e energia.
Mesmo rejeitando, ao menos publicamente, a solução militar imediata, a França mantém a mesma exigência central dos imperialistas: a reabertura do estreito. Macron afirmou que Ormuz é estratégico para os fluxos de energia, fertilizantes e para o comércio internacional, reforçando a preocupação europeia com a crise econômica produzida pelo bloqueio.
Os efeitos do fechamento já são sentidos com força. O barril do petróleo Brent ultrapassou os US$100, depois de estar em torno de US$65 antes da guerra. Em meio à crise, os Estados Unidos aliviaram temporariamente as sanções sobre o petróleo russo, numa tentativa de conter o choque energético. Segundo o analista George Voloshin, sediado em Paris, isso abriu para Moscou uma oportunidade importante para ampliar os volumes de exportação e a receita petroleira, fazendo do petróleo russo a principal oferta de compensação no mercado mundial durante o bloqueio iraniano.
A China, por sua vez, acumulou grande quantidade de petróleo em suas reservas estratégicas antes da guerra e continua recebendo carregamentos de petróleo iraniano transportados em navios que Teerã ainda permite atravessar o estreito. Pequim também declarou que os “ataques ilegais” dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã são a causa principal do bloqueio de Ormuz.
A movimentação pelo uso da força não se limita ao Barém. Cerca de 40 países pediram na quinta-feira a reabertura “imediata e incondicional” do estreito, após reunião virtual organizada pelo Reino Unido. A chanceler britânica, Yvette Cooper, afirmou que o Irã estaria tentando fazer a economia mundial de refém com o bloqueio e disse que os países concordaram em estudar medidas econômicas e políticas, incluindo sanções.
Também os países do Golfo reforçaram o apelo para que a ONU autorize uma ação no estreito. O secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo, Jassem Al-Budaiwi, pediu em Nova Iorque que o Conselho de Segurança assuma plenamente suas responsabilidades e adote todas as medidas necessárias para proteger os corredores marítimos e garantir a continuidade segura da navegação internacional.
Representantes da Itália, dos Países Baixos e dos Emirados Árabes Unidos também defenderam a criação rápida de um corredor humanitário em Ormuz, sob o argumento de garantir o transporte de fertilizantes e demais insumos necessários para evitar uma nova crise alimentar, sobretudo em países africanos.
Nenhum país, no entanto, propõe a solução correta para o problema: atender às reivindicações iranianas e exigir a saída do imperialismo de toda a região.




