Ontem, dia três de abril, o jornalista Nêggo Tom públicou uma coluna no Brasil 247 intitulada Neymar e o machismo perna de pau, na qual faz coro com a imprensa burguesa pela censura no futebol e no Brasil, além de pedir, mais uma vez, pela não convocação de Neymar para a Copa do Mundo.
O texto se inicia com:
“Era setembro de 2010, quando o técnico Renê Simões – então treinador do Atlético-GO – proferiu a frase mais significativa do futebol brasileiro nos últimos trinta anos: ‘Nós estamos criando um monstro’. A manifestação do experiente profissional do futebol foi motivada por atitudes mimadas e desrespeitosas de um menino de 18 anos, que despontava como a grande promessa do futebol brasileiro. Naquele jogo, Neymar havia sido impedido por Dorival Júnior – então técnico do Santos – de cobrar um pênalti, e reagiu de forma absurdamente mal educada à decisão do comandante santista. Na oportunidade, Renê Simões disparou: ‘Eu estou no futebol desde garoto, e poucas vezes vi alguém tão mal educado desportivamente como esse rapaz Neymar. Eu trabalhei muito com jovens, venho a minha vida toda acompanhando, e acho que está na hora de alguém educar esse rapaz ou nós vamos criar um monstro. Nós estamos criando um monstro no futebol brasileiro.’”
O próprio Renê Simões, autor da declaração, já disse que o jogador teria melhorado e que, naquele período, não teria mais visto atitudes mal-educadas dentro de campo por parte de Neymar. Além disso, Renê disse recentemente em entrevista no podcast Denilsonshow que as críticas feitas a Neymar naquela época eram restritas às atitudes do jogador dentro de campo. No entanto, a fala de Renê Simões ainda hoje é utilizada para atacar Neymar, como vemos na matéria de Nêggo Tom.
Desconhecendo completamente a opinião atual de Renê Simões, o jornalista continua:
“Após 16 anos da polêmica declaração, vimos que o vaticínio de Renê se materializou. Ninguém se propôs a ‘educar’ aquele rapaz, pelo contrário, o seu entorno, sempre composto por ‘parças’ e ‘baba ovos’ de plantão – incluindo jornalistas esportivos – cuidou para que a profecia de Simões se concretizasse e o futebol brasileiro ficasse refém de um craque mimado, sem limites, e sem o perfil de ídolo do esporte mais amado no país. De 15 de setembro de 2010 a 02 de abril de 2026, nada mudou no comportamento mal educado de Neymar. Na última data, ao sair de campo após a vitória do Santos sobre o Remo, na Vila Belmiro, o eterno menino mostrou toda a sua falta de educação ao disparar contra o árbitro e dizer – em meio a gargalhadas – que o juiz ‘acordou de chico e veio pro jogo’. Aos 34 anos de idade, Neymar segue se comportando como o mesmo moleque de 18 que mandou Dorival Júnior ir ‘tomar suco de caju’, ao ter a sua vontade contrariada.”
Ou seja, para Neggô Tom, que provavelmente não acompanha futebol e se basta a ver as fofocas sobre o esporte, a atitude de críticas ao árbitro, que acontecem após todos os jogos no Brasil, seria a prova de que Neymar é um monstro.
A atitude se torna, inclusive, cômica por se tratar de alguém que se reivindica como sendo de esquerda. Seria normal para um jornalista de esquerda que sua principal preocupação fosse a de calar a crítica no futebol ou em geral? Porque uma das principais reclamações de torcedores e jogadores hoje no futebol brasileiro é justamente a censura contra críticas à arbitragem e à CBF.
Cômica, também, é a continuação do texto, já que o jornalista transforma a crítica a um juiz homem em machismo e misoginia, já que “estar de chico” poderia ser interpretado como uma referência à menstruação.
A ânsia por censura é tão bizarra que chega a situações absurdas como essa. Logo após a entrevista, inúmeros portais de notícias tiveram que explicar na Internet o que significava a expressão em relação à menstruação, o que prova que a maioria da população nem sequer sabe da conexão entre uma coisa e outra.
De qualquer forma, é óbvio que o que o jogador queria dizer é que o juiz estava irritado, sabendo ou não que a expressão poderia ser relacionada à menstruação.
O fato ganha importância porque faz parte de duas campanhas levadas adiante pela burguesia ao mesmo tempo. A primeira é a de que Neymar, o melhor jogador brasileiro – inclusive, Nêggo Tom deixa escapar essa afirmação em uma parte do texto – não deve disputar a Copa do Mundo que acontece em junho.
A seleção atual deve ser, na opinião da burguesia, uma peça de propaganda contra o Brasil e seu povo. A camisa da seleção homenageia um jogador do basquete norte-americano, com um desenho que não lembra em nada seus modelos históricos; o técnico é um europeu que deixa o estilo de jogo do Brasil chato e nos modelos adorados pela Europa; o principal jogador, Vini Jr., é muito mais uma estrela de propaganda política identitária do que bom jogador de futebol, tendo um desempenho pífio com a camisa da Seleção.
Já a segunda campanha é a da censura e do endurecimento de penas contra os brasileiros por meio da lei contra a misoginia, que prevê até cinco anos de cadeia por opiniões políticas, expressões contrárias às mulheres ou qualquer outra coisa que seja entendida como ódio às mulheres por parte dos juízes.
Nêggo Tom deixa claro que é disso que se trata no parágrafo a seguir:
“Além de mal educada desportivamente, a fala de Neymar é ofensiva às mulheres, reforça estigmas de inferioridade e desequilíbrio emocional feminino e bota mais lenha na fogueira do debate sobre misoginia na nossa sociedade. No país onde o feminicídio mata, em média, 4 mulheres por dia, aquele, que para muitos, é o maior craque do futebol brasileiro, contribui ainda mais para a discriminação de gênero e para a associação da natureza feminina a algo negativo. Essa declaração, entre outras, tão desastrosas quanto, não teria sido dada se o ‘profeta’ Renê Simões tivesse sido ouvido, e os responsáveis por educá-lo – social e desportivamente – tivessem cumprido com a sua obrigação. Inevitável não citar a ‘ideologia’ política que Neymar professa, e que potencializa seu caráter e personalidade, cada vez mais alinhados com discursos que vão de encontro à evolução da sociedade e a eliminação de preconceitos dentro dela. Sobretudo, do machismo e da misoginia, os principais instrumentos de violência contra as mulheres.”
É novamente cômico como uma parte da esquerda cobra maturidade política de um jogador de futebol, mas não é capaz ela mesma de ter noção da campanha que está levando adiante. Por meio do identitarismo, o Brasil virou uma ditadura. Já não é possível saber o que é permitido falar e o que não é, o Estado fiscaliza quem acessa a Internet e persegue inclusive uma parte significativa da esquerda. Tudo isso, aprovado com grande apoio de setores identitários da esquerda.
É dessa forma que se segue o texto de Nêggo Tom. Ele reclama de Neymar ter dito recentemente que não é tratado como um ser humano normal e que sua vida é muito difícil, com muita cobrança, e lança mão de uma série de comparações com a vida dos trabalhadores brasileiros, além de puxar a história do jogador para reclamar do fato de que sempre ganhou bem, desde pequeno, para jogar no Santos.
No entanto, Nêggo Tom não se lembrou do salário de Vini Jr., muito menos foi buscar quanto o jogador ganhava durante sua adolescência, quando resolveu escrever o artigo Vinícius Júnior já é maior do que Pelé, em junho de 2024.
Para o jornalista, Vinícius Júnior seria maior do que o maior atleta de todos os tempos por conta de seu posicionamento político contrário a ofensas racistas proferidas contra ele, enquanto Pelé nada teria feito quando questionado sobre o assunto.
Porém, o jornalista não percebe que o clima político hoje é extremamente favorável a esse tipo de posicionamento. A UEFA, a FIFA e o imperialismo de modo geral se utilizam de declarações contra o racismo como forma de propaganda política em benefício próprio, além de utilizarem os xingamentos para justificar a censura dos regimes políticos extremamente decadentes e em crise quase insolúvel.
É fácil ser contrário ao racismo quando, ao ligar a Rede Globo, o tema é utilizado à exaustão para levar adiante a censura e ataques políticos a determinadas personalidades. No entanto, para que a afirmação de que Vini Jr. seria maior do que Pelé por conta de seu posicionamento político, seria necessário que o jogador lutasse, por exemplo, contra o genocídio na Palestina e no Oriente Médio, onde a FIFA faz vista grossa. Seria o mínimo para que a afirmação de Nêggo Tom pudesse ser levada a sério.
Em outros textos, o jornalista chega a criticar o técnico Filipe Luís atribuindo ao ex-jogador um “racismo estilo europeu” por se abster de criticar a Argentina quando supostos xingamentos racistas teriam sido feitos por um jogador desse país a Vinícius Jr. em uma partida entre Real Madrid e Benfica. Porém, o próprio Nêggo Tom entra na campanha contra um jogador de fora da Europa e, além de tudo, também negro, ao mesmo tempo em que, ao comentar sobre a seleção de Ancelotti, o jornalista utiliza expressões como “estilo Ancelotti” e outras para engrandecer o técnico, o que não é perceptível em nenhuma matéria quando se tratava de comentar a Seleção com técnicos brasileiros.
Evidentemente, Nêggo Tom não entra na perseguição a Neymar, nem na política de engrandecer o técnico italiano Carlo Ancelotti, da própria cabeça. O faz porque a burguesia também o faz. Nenhuma de suas colunas escapa de uma concordância completa com a ala identitária da imprensa da burguesia. Amanhã, caso Vini Jr. consiga finalmente fazer algo grandioso pela Seleção e passe a ser um problema para o imperialismo, as críticas chegarão, e será a hora de Nêggo Tom passar a escrever colunas contrárias ao jogador, como hoje faz com Neymar.
Evidentemente, não é o posicionamento político, a quantia de dinheiro que recebe, a cor da pele ou qualquer outra questão a não ser a qualidade futebolística que mede a grandiosidade de um jogador de futebol.
O jornalista prova não entender do assunto quando, no título, escreve que Neymar seria “perna de pau”. A afirmação nem faz sentido dentro do próprio texto, pois, mais abaixo, ele o chama de “o maior craque do futebol brasileiro”.





