Luta de classes

Quem tentar ficar com um pé em cada canoa vai cair

A esquerda não pode ter medo da polarização política, deveria, na verdade, aproveitar as contradições sociais para atrair a classe trabalhadora

Comuna de Paris

O artigo Polarização – sim ou não?, de Emir Sader, publicado no Brasil247 nesta terça-feira (31), é um texto confuso, que tenta ser sarcástico, e que faria muito melhor se tivesse começado pelo final, quando afirma que “A luta de classes não é uma invenção do marxismo. Ela é produzida e reproduzida por uma sociedade que opõe os produtores das mercadorias e os que se apropriam delas, entre burgueses e proletários”.

No primeiro parágrafo, por exemplo, se lê que “tudo caminhava para o melhor dos mundos possíveis, com todo mundo feliz, quando, de repente, alguns começaram a falar da tal da polarização. Como se as nossas sociedades fossem profundamente desiguais e divididas entre os ricos e os pobres, entre os poderosos e os excluídos”.

Supondo aqui, que seja uma crítica à direita que sustenta que os problemas começaram com a esquerda, quando esta se começou a falar, sem motivos, de uma “polarização”, Sader se esquece de dizer que a esquerda, e ele mesmo, tentam vender a ideia de que este é o melhor dos mundos possíveis, e que tudo caminhava para o melhor.

A frase “o melhor dos mundos possíveis”, aliás, é bem apropriada, lembra o livro de Voltaire, Cândido, ou o Otimismo. No livro, o filósofo Pangloss era um otimista incorrigível que pregava que este era o melhor dos mundos possíveis, uma paródia das ideias do filósofo alemão G. W. Leibniz.

Tem muito Pangloss na esquerda que repete o tempo todo da menor taxa de desemprego, da inflação controlada. No entanto, a polarização não diminui, aumenta. Assim, como, entra ano, sai ano, o número de pessoas que dependem do Bolsa Família não diminui, aumenta.

Temos aí um sinal de que as políticas desses quase 20 anos de PT não mudaram praticamente nada na vida das pessoas. Tudo o que fizeram foi rapidamente destruído pelo golpe de 2016. Nem poderia ser diferente, Michel Temer não encontrou praticamente oposição. Dirigentes petistas chegaram a dizer que seria preciso “virar a página do golpe”; ou que “golpe” seria uma palavra “forte demais” para descrever o que tinham acabado de fazer com o governo petista.

Emir Sader poderia ter explicado que a polarização não é uma invenção, algo que, de repente, surgiu do nada. E não apenas isso, poderia dizer que no Brasil, a partir do golpe, o centro político se esfacelou; que o PSDB, por exemplo, praticamente sumiu do mapa. Mesmo na esquerda, partidos como o PSTU, que apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff, racharam e entraram em uma crise profunda.

Todo o embate do período anterior, o do Mensalão, com os ataques violentos do grande capital ao PT e à esquerda. A campanha absurdamente virulenta e agressiva da imprensa, tudo isso ajudou a parir a extrema direita no Brasil, que foi alimentada pela Lava Jato. Uma fraude judiciária transformada nisso que se chama “espetáculo midiático” e que revelou a importância do STF nos planos da burguesia de controlar o sistema político.

Por outro lado, a esquerda que insiste que “tudo caminha para o melhor dos mundos possíveis” é ignorar a própria luta de classes, é acreditar que as reformas superficiais do PT seriam possíveis para, gradualmente, emancipar a classe trabalhadora; e, pior, é acreditar que a burguesia aceitaria passivamente que a esquerda se consolidasse na presidência.

Luta política

O texto de Sader, infelizmente, não resolve seu dilema. Para ele, Lula vence as eleições, acha mesmo que agora será mais fácil, pois considera seu governo cheio de realizações. Mesmo assim, tem que reconhecer que a sociedade brasileira segue “sendo uma das mais desiguais do mundo. A concentração de renda seguiu sendo a mesma, a exclusão social prosseguiu.”

Tendo em vista que a sociedade brasileira segue sendo uma das mais desiguais do mundo, é preciso reconhecer que a polarização pode levar à derrota de Lula. É preciso reconhecer os limites dessa política que não mudou nada estruturalmente no País.

A esquerda não deveria fugir da polarização, deveria radicalizar. Em vez disso, se limita a tentar diminuir a polarização, a reformar o Estado burguês, a defender a “democracia”, a se juntar com instituições ultrarreacionárias e inimigas do povo como o STF.

Não existe conciliação possível entre a burguesia e a classe trabalhadora, são duas classes antagônicas e as classes dominantes não aceitam reformas em seu Estado, isso só vai ser possível com o aumento da polarização e com a radicalização: trabalhador de um lado, burguês do outro. Quem tentar ficar com um pé em cada canoa vai cair.

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