Polêmica

Um embelezamento dos crimes de guerra do imperialismo – parte 2

Finalizamos com este o debate com um artigo de Boaventura de Sousa Santos que, com sua visão acadêmica, acaba tirando a gravidade dos crimes de guerra do sionismo

A decapitação de São João Batista - Caravaggio (1607)

Continuamos aqui o debate sobre o artigo Decapitação e o fim da política, do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, publicado no Brasil247 nesta sexta-feira (27). No texto (leia), detecta-se que o texto acadêmico funciona como uma discussão meramente e que esconde o importa no assunto: trata-se, antes de qualquer coisa, de um crime de guerra.

No assassinato do aiatolá Khamei, mataram até sua neta, uma criança de 1 anos e 2 meses; além de sua esposauma filha, um neto, nora e o genro. Esse é o padrão. A repetição da palavra “decapitação” acaba enganando os eleitores, pois não se trata da morte de uma pessoa, de uma cabeça decepada. É ainda muito mais grave.

Quantas pessoas não foram mortas por estarem próximas de pessoas que os sionistas e o imperialismo resolveram explodir?

No Irã, a imprensa divulgou que “cientistas morreram”. Dito dessa maneira, é mentira. O sionismo assassinou, por exemplo, 12 membros de uma única família para matar um cientista. Em alguns casos, quando não tinham certeza do número do apartamento em que morava determinado cientista, derrubaram o prédio inteiro. É disso que se trata.

Quando Boaventura, escreve “A decapitação como instrumento da violência contemporânea”, como se fosse um estudo de caso, tira a realidade do que está acontecendo, como no trecho que diz que “a decapitação consiste na eliminação/neutralização de um indivíduo como modo, simultaneamente espetacular e econômico, de eliminar/neutralizar as lutas, as organizações ou as ideias que esse indivíduo representa.” E vai adiante, escreve que “etimologicamente, decapitação deriva da palava latina caput que significa cabeça”, e  “figurativamente, foi usada como significando chefe, líder ou liderança, nascente”.

Não se pode tratar de um tema político como se fosse uma lição de anatomia, uma dissecação em um ambiente perfeitamente esterilizado.

Trechos

Temos que destacar alguns trechos do artigo para que se possa ter uma ideia do que se trata:

“É nesse sentido que é hoje usada nas guerras irregulares e ilegais levadas a cabo por Israel e EUA. Decapitar significa eliminar um indivíduo considerado inimigo que representa de modo especial uma ameaça inimiga colectiva. Na medida em que for possível e eficaz, a decapitação é um atalho precioso porque permite de um só golpe atingir um alvo que, se atacado coletivamente, exigiria muitos golpes e muitos meios.” Lembrando que essa é uma prática corriqueira do imperialismo que em utilizado com maior frequência conforme aumenta sua crise.

Desde sempre os sionistas vêm assassinando lideranças, tudo acobertado pela imprensa do “mundo civilizado”.

O uso de lendas, seres mitológicos, como na parte que diz que “o fantasma que assombra a decapitação é a Hidra de Lerna. Na mitologia grega, a Hidra de Lerna era um monstro com corpo de dragão e várias cabeças de serpente. Segundo algumas versões deste mito, sempre que se cortava uma cabeça cresciam duas no seu lugar”, faz com que o leitor pense em algo distante, mágico, ou algo que sempre esteve no imaginário das pessoas.

Além de recorrer à mitologia, Boaventura adentra as figuras de linguagem, diz que “a decapitação está sempre relacionada com uma luta violenta. É a guerra e a metonímia da guerra”, e isso nos leva a quê?

Da mesma maneira que não é apenas inútil a classificação, a conclusão de que eventualmente “podemos hoje distinguir três tipos de decapitação: o assassinato (morte física), a prisão (morte política), o cancelamento (morte cívica); existe um efeito pernicioso de fazer igualar os atos terroristas do sionismo com o cancelamento, ou com as prisões. Todos os países têm prisões, portanto, todos promovem “decapitações”, o que é abertamente uma falsificação da realidade.

Afirmar, que “a ampliação dos modos de decapitação significa o aumento e a diversificação da violência nas sociedades contemporâneas que, por sua vez, [isso] está associado ao crescimento das forças políticas de extrema-direita, laicas ou religiosas, mascara que os maiores decapitadores são as democracias. Não é privilégio de nenhuma extrema direita.

“Israel” é vendido como a única democracia no Oriente Médio, ainda que há décadas promova massacres e limpeza étnica na Palestina. E a “surpresa” é que faz isso com o aval dos Estados Unidos, Japão, União Europeia, Reino Unido; o que podemos chama também de imperialismo.

Academicismo

Boaventura sustenta que “como qualquer outro fenômeno político, a decapitação gera um discurso dominante que deve ser analisado segundo o procedimento que designo por sociologia das ausências. Quer como discurso quer como prática, a decapitação cria um campo analítico que promove certas discussões e omite outras.

Assim, o leitor é tirado do mundo prático para o mundo dos discursos; onde, supostamente, quem tiver o melhor argumento ganha a discussão.

O autor acredita que “ao contrário do que propunha Clausewitz, a guerra deixou de ser o último recurso depois de a diplomacia falhar. Agora, o fracasso da diplomacia é intencionalmente produzido pela decapitação para que a guerra seja o único meio de prevalecer. As relações de Israel-EUA com o mundo árabe no Médio Oriente são uma flagrante demonstração disso. O fim da democracia decorre do fim da política, tal como o fim da política decorre do fim da democracia”.

A democracia, no entanto, não está em contradição com os decapitadores. É portanto, não o fim, mas a política em plena ação. O que temos é uma decomposição do capitalismo onde não cabem mais determinadas nuances.

É preciso, portanto, enfrentar o problema da decapitação na sua realidade: é um crime de guerra; e essa consciência tem que servir para que a classe trabalhadora enfrente os criminosos e os derrote, em vez de se perder em um milhão de definições que tiram o enfrentamento do campo da política e o leve para uma mera disputa de palavras.

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