A jornalista Fatima Ftouni, correspondente da Al Mayadeen no sul do Líbano, e o jornalista Ali Sheaib, correspondente da Al-Manar, foram assassinados no sábado (28) em um ataque aéreo de “Israel” contra um carro claramente identificado como veículo de imprensa. Segundo Jamal Ghourabi, correspondente da Al Mayadeen, o automóvel foi atingido por quatro mísseis de precisão. Quando ambulâncias chegaram ao local, os paramédicos também foram alvo do bombardeio, e um deles foi assassinado.
No veículo atingido também estava Mohammad, irmão de Fatima. A jornalista cobria a agressão israelense em curso no Líbano, trabalho pelo qual era conhecida na emissora. Antes de ir para o sul libanês como correspondente, Fatima havia atuado como editora do Al Mayadeen Net.
Ainda neste mês, a família da jornalista já havia sido atingida pela ofensiva israelense. Um tio de Fatima e a família dele foram assassinados em um ataque contra sua casa em Toul. A própria correspondente noticiou o caso ao vivo, poucas horas depois de perder os parentes.
A Al-Manar lamentou a morte de Ali Sheaib e o definiu como “uma frente inteira de imprensa”, além de ter prestado homenagem também a Fatima Ftouni. A emissora pediu às autoridades libanesas, aos ministérios responsáveis e às organizações internacionais que enfrentem o ataque reiterado contra jornalistas em campo.
Correspondente acompanhava a frente sul desde 1992
Conhecido entre colegas e combatentes como Hajj Ali Sheaib, o correspondente da Al-Manar cobria a frente sul do Líbano desde 1992. Ao longo de mais de três décadas, acompanhou praticamente todos os principais confrontos entre o Líbano e “Israel”.
Ele esteve presente durante a agressão de 1993, circulando entre aldeias bombardeadas. Cobriu também a operação Vinhas da Ira, em 1996, a libertação do sul do Líbano, em 2000, e a guerra de julho de 2006. Segundo os relatos divulgados após sua morte, Sheaib esteve entre os primeiros jornalistas a entrar em Marun al-Ras ao amanhecer do dia em que foi anunciado o cessar-fogo, antes mesmo de os soldados israelenses terem deixado as casas onde estavam abrigados.
De acordo com os comunicados divulgados após o assassinato, o jornalista foi ameaçado diversas vezes, ficou ferido em mais de uma ocasião e permaneceu durante décadas na linha de frente da cobertura da resistência libanesa.
Ataques contra a imprensa se repetem
O ataque contra Fatima Ftouni e Ali Sheaib se soma a uma série de bombardeios propositais contra profissionais da imprensa no Líbano. Em 21 de novembro de 2023, pouco depois do início da guerra de “Israel” contra o país, a correspondente Farah Omar e o cinegrafista Rabih Me’mari, ambos da Al Mayadeen, foram assassinados em um ataque que os atingiu logo após o fim de uma entrada ao vivo.
Em 25 de outubro de 2024, Ghassan Najjar e Mohammad Reda, também ligados à emissora, foram assassinados em outro ataque dirigido contra equipes de imprensa.
Segundo a Al Mayadeen, nos últimos três anos, centenas de jornalistas foram assassinados no Líbano, em Gaza e na Cisjordânia. A emissora afirmou que “Israel” tem atacado veículos identificados, locais onde câmeras estão visíveis e profissionais que usam coletes marcados, numa política voltada a eliminar testemunhas de seus crimes.
Farah Omar tinha 25 anos, era natural de Machghara, no Vale do Beqaa, e havia ingressado na Al Mayadeen em 2021 como editora de notícias e correspondente. Fazia mestrado em jornalismo e comunicação na Universidade Libanesa e havia participado da cobertura das eleições parlamentares libanesas de 2022 e das eleições presidenciais e parlamentares da Turquia em 2023. Também trabalhou como produtora do quadro Ala Fekra na plataforma digital da emissora.
Rabih Me’mari, de 44 anos, era natural de Trípoli, no norte do Líbano, e trabalhava havia mais de 20 anos no fotojornalismo. Entrou na Al Mayadeen pouco depois do lançamento da rede, em julho de 2012. Era casado com Manal Jaafar, também funcionária da emissora, e tinha dois filhos, Rami e Maria. Segundo a rede, ele vinha se revezando entre o sul do país e Beirute, mas insistiu em retornar à linha de frente até ser assassinado.
Outro jornalista foi assassinado em Tiro
Em outro ataque relatado pelas redes libanesas, o jornalista Ali Noureddine foi assassinado na segunda-feira (23) após um VANT israelense atingir seu carro na principal via da cidade de Tiro, no sul do Líbano. O bombardeio ocorreu em uma área movimentada, próxima a um centro comercial, e provocou pânico entre os transeuntes.
Com o assassinato de Noureddine, subiu para 20 o número de profissionais da imprensa assassinados por “Israel” no Líbano, segundo os dados divulgados junto com a notícia do ataque.
A Al Mayadeen classificou o assassinato de Noureddine como um crime israelense e um ataque direto ao jornalismo e às instituições de imprensa no Líbano. Em sua nota, a rede declarou solidariedade aos jornalistas, aos funcionários e à direção da Al-Manar, dirigida por Ibrahim Farhat, e afirmou que a emissora seguirá atuando com base em sua força institucional, em sua influência no Líbano e entre a diáspora árabe.
A rede também apelou à imprensa internacional e aos “homens livres do mundo” para que levantem uma campanha mundial contra os ataques israelenses a jornalistas. No mesmo comunicado, cobrou dos órgãos de imprensa imperialista o abandono da política de dois pesos e duas medidas diante dos ataques de “Israel” contra profissionais palestinos, libaneses e árabes.
O Hesbolá também condenou o assassinato de Noureddine, identificado na nota da organização como jornalista e imã da localidade de al-Housh, em Tiro. Segundo o partido, trata-se de um “crime de guerra” que se soma à longa lista de crimes cometidos pelo inimigo israelense contra jornalistas, civis e a população em geral. A organização afirmou ainda que a agressão demonstra o avanço da ofensiva israelense sobre o setor da imprensa, como parte de uma política sistemática para calar a verdade e a voz dos jornalistas.
Na nota, o Hesbolá convocou jornalistas, o Ministério da Informação, entidades de imprensa, sindicatos, instituições e figuras políticas e intelectuais a agir com urgência nos âmbitos libanês, árabe e internacional, especialmente nos fóruns jurídicos, humanitários e de direitos humanos.





