Autoridades iranianas afirmaram, na sexta-feira (27), que a resposta aos recentes bombardeios norte-americanos e sionistas contra usinas, complexos industriais e instalações nucleares do país não seguirá mais a fórmula de “olho por olho” e deverá assumir um caráter mais amplo, intenso e severo. As declarações vieram após ataques contra as siderúrgicas de Mobarakeh, em Ispaã, e do Cuzestão, além de novas agressões contra usinas nucleares civis em Yazd e Arak.
Segundo uma fonte de segurança e política do Irã ouvida pela Al Mayadeen, os ataques contra a infraestrutura econômica do país alteraram a “equação da resposta”. A mesma fonte afirmou que as próximas ações iranianas serão “não convencionais” e superarão as operações anteriores em alcance e impacto, tendo como alvo capacidades e centros de mobilização do inimigo. Ainda de acordo com a fonte, o governo iraniano está preparado para uma guerra prolongada de defesa e represália.
A fonte disse também que os ataques dos EUA e de “Israel” contra instalações industriais, de serviços e vitais do país expressam um quadro de desespero político e militar dos agressores. Segundo ela, o primeiro-ministro sionista, Benjamin Netaniahu, ignorou advertências de altos funcionários sobre a possibilidade de desmantelamento das forças de ocupação israelenses.
O comandante da Força Aeroespacial do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), general de brigada Seyyed Majid Mousavi, reforçou a advertência. Segundo ele, o bombardeio da infraestrutura iraniana significa “brincar com fogo”. Em outra declaração, o general afirmou:
“A resposta desta vez não será de acordo com a equação do olho por olho… esperem e verão.”
Em nova manifestação, Mousavi voltou ao tema e disse que os agressores haviam ultrapassado novamente uma linha perigosa. “Vocês nos testaram antes; o mundo viu mais uma vez que foram vocês mesmos que começaram a brincar com fogo e a atacar infraestrutura”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “desta vez, a equação não será mais um olho por um olho; apenas esperem”.
Aviso a usinas de aço no Golfo e em ‘Israel’
Após os bombardeios contra os complexos siderúrgicos de Mobarakeh e do Cuzestão, veículos iranianos informaram que Teerã ampliou a lista de possíveis alvos de retaliação, passando a incluir instalações siderúrgicas em “Israel” e em países do Golfo. A agência Tasnim informou, citando fontes iranianas, que os novos alvos foram definidos a partir de inteligência de campo e de uma avaliação da infraestrutura industrial de países alinhados aos EUA. As mesmas fontes indicaram que a resposta do Irã poderá ultrapassar o setor siderúrgico.
Mais tarde, o CGRI divulgou um comunicado pedindo que trabalhadores de empresas industriais com acionistas norte-americanos e de instalações ligadas a “Israel” deixem imediatamente seus postos para evitar danos. O texto também orientou os moradores que vivem num raio de um quilômetro dessas instalações a saírem de suas casas até novo aviso.
Em uma declaração separada, o comando iraniano advertiu ainda a população da Ásia Ocidental a deixar áreas que abrigam tropas dos EUA e de “Israel”. O CGRI afirmou que as forças norte-americanas e sionistas, incapazes de defender suas próprias bases, passaram a se esconder em áreas civis e a usar a população como escudo humano. O comunicado acrescentou que o Irã se considera obrigado a eliminar as “forças terroristas” norte-americanas e sionistas onde quer que sejam encontradas, em razão do assassinato de civis iranianos e de dirigentes do país.
Bombardeios atingem trabalhadores e deixam feridos
Os avisos foram emitidos depois dos ataques aéreos lançados na sexta-feira (27) contra áreas industriais em várias cidades iranianas. Duas grandes empresas siderúrgicas foram atingidas. Na siderúrgica de Mobarakeh, na província de Ispaã, a maior produtora de aço e ferro do país, o ataque atingiu partes da usina de eletricidade quando trabalhadores estavam em atividade no local.
Já a Companhia Siderúrgica do Cuzestão, outro polo industrial importante do país, também sofreu danos em suas instalações durante um ataque aéreo conjunto dos EUA e de “Israel”. O vice-governador-geral do Cuzestão, Valiollah Hayati, informou que 16 pessoas sofreram ferimentos leves no bombardeio. Todos os feridos foram atendidos em um centro médico da região e depois receberam alta.
Além disso, a coalizão norte-americana e sionista lançou ataques contra usinas nucleares civis em Yazd e Arak. Os bombardeios ocorreram depois de, no início do mês, o Irã ter atingido um campo de gás ligado aos EUA no Catar, em resposta a um ataque anterior contra o campo de gás South Pars, em Buchehr.
Bases dos EUA passam a ser esvaziadas
Em meio às advertências iranianas, um relato publicado pelo The New York Times indicou que as forças norte-americanas na Ásia Ocidental estão sob crescente pressão depois das sucessivas ofensivas do Irã. Segundo o jornal, ataques contínuos tornaram bases-chave dos EUA cada vez mais inabitáveis, obrigando tropas a se dispersarem e operarem a partir de locais improvisados. O texto afirma que parte da campanha de guerra dos EUA e de “Israel” foi convertida, na prática, em uma operação remota, com pessoal deslocado de centros tradicionais de comando.
Antes do início da guerra, cerca de 40 mil soldados norte-americanos estavam estacionados na região. Desde então, milhares foram redistribuídos, alguns até para a Europa, enquanto outros permaneceram no Oriente Médio, mas fora de bases convencionais. Reportagens indicaram presença norte-americana em pontos civis, como uma base logística próxima ao antigo aeroporto de Beirute e operações de assessoria no Palácio Republicano de Damasco, além dos hotéis Four Seasons e Sheraton. Fuzileiros navais dos EUA também foram transferidos nesta semana para o Aeroporto Internacional de Djibuti, por meio de Istambul e Sófia.
Na quinta-feira (26), o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, advertiu hotéis dos países árabes do Golfo Pérsico a não receberem militares norte-americanos que fogem de suas bases e buscam se ocultar em instalações civis. Em publicação na plataforma X, Araghchi afirmou que, desde o começo da guerra, soldados dos EUA deixaram bases militares nos países do Conselho de Cooperação do Golfo para se esconder em hotéis e escritórios, usando a população local como escudo humano. O chanceler comparou a situação com hotéis nos próprios EUA, que recusam hóspedes capazes de colocar clientes em risco, e pediu que os hotéis do Golfo adotem a mesma conduta.
Danos a 104 bases e crise da defesa aérea
Segundo uma análise preliminar do pesquisador Fabian Hinz, baseada na localização dos ataques, o Irã já atingiu 104 bases norte-americanas e regionais. Empresas de satélite dos EUA, de acordo com o The Telegraph, retardaram em pelo menos 14 dias a divulgação de imagens, dificultando a avaliação dos danos.
Ainda segundo Hinz, a base mais atingida foi Ali Al Salem, no Cuaite, com 23 ataques. Em seguida aparecem Camp Arifjan, com 17, e Camp Buehring, com seis. Imagens dessas três bases, citadas pelo diário britânico, mostram danos a hangares, infraestrutura de comunicações, equipamentos de satélite, depósitos de combustível e, após um ataque a Ali Al Salem na quarta-feira, a um grande armazém.
O mesmo levantamento atribui 17 ataques a bases dos EUA nos Emirados Árabes Unidos, 16 no Barém, sete no Iraque, seis no Catar, seis na Arábia Saudita e dois na Jordânia. Em outra contagem, Hinz afirmou que o Cuuaite é o país mais atingido da região, com 50 impactos confirmados.
Um estudo do Centre for Strategic and International Studies estimou que os ataques dos primeiros dias da guerra causaram pelo menos US$800 milhões em danos, incluindo a destruição de um radar do sistema THAAD na Jordânia e de outras instalações em diversos países. Na Arábia Saudita, imagens de satélite da base aérea Prince Sultan mostram um hangar reduzido a escombros. No Catar, na base de Al Udeid, a maior base norte-americana do Oriente Médio, imagens mostram a destruição de várias antenas e conjuntos de satélites. Nos Emirados Árabes Unidos, na base de Al Dhafra, um edifício utilizado para alojar tropas foi atingido, abrindo uma grande cratera. Fontes iranianas afirmaram que esse ataque foi realizado com um míssil Khorramshahr-4, o mais avançado do arsenal do país.
Na segunda-feira (23), o Comando Central dos EUA, responsável pelas forças norte-americanas na Ásia Ocidental, abriu um pedido urgente para que empresas contratadas entreguem abrigos blindados transportáveis para a Jordânia. O CGRI também passou a atacar radares e instalações de defesa antiaérea, numa tentativa de “cegar” os EUA. Hinz informou que o Irã atingiu quatro locais que abrigavam componentes do sistema THAAD. Um radar de alerta antecipado no Catar e outras instalações semelhantes também foram atingidos. O The Telegraph afirmou que isso pode ter dificultado a interceptação de mísseis iranianos.
Um estudo publicado na quarta-feira pelo Royal United Services Institute acrescentou que um número crescente de lançamentos iranianos está atravessando as defesas aéreas dos EUA e de “Israel”, que enfrentam uma escassez aguda de mísseis interceptadores.
84ª onda da Operação Promessa Verdadeira 4
Também na sexta-feira (27), o CGRI anunciou a 84ª onda da Operação Promessa Cumprida 4. Segundo o comunicado, a Força Aeroespacial da corporação, com apoio da Marinha do CGRI, realizou uma operação conjunta com mísseis e VANTs contra a base de Al-Kharj, depois do uso de aeródromos regionais pelos EUA em suas ações contra o Irã.
O comunicado afirmou que os iranianos destruíram sistemas antimísseis, penetraram na base com mísseis de combustível sólido e líquido e atingiram a frota de abastecimento e apoio aéreo ali estacionada. De acordo com a nota, várias aeronaves pesadas e de grande porte usadas para reabastecimento e apoio foram destruídas ou sofreram danos severos. O CGRI dedicou essa onda aos mártires da IRIB, a radiodifusão da República Islâmica, e a seus trabalhadores.
Em outro comunicado relativo à mesma onda, a Marinha do CGRI informou ter atacado “vários centros de concentração de terroristas americano-sionistas” na ilha de Bubiã, em uma operação surpresa com mísseis e VANTs. O texto afirmou que um grande número de fuzileiros navais norte-americanos foi morto e que os feridos foram levados para os hospitais Saleh Al-Sabah, Mohammad Al-Ahmad e Ali Al-Salem. Fontes de campo, ainda segundo o comunicado, relataram o bloqueio completo desses hospitais, com pacientes cuaiteanos impedidos de entrar ou sair, o que teria provocado protestos no país.
Exército do Irã atinge centro logístico em Telavive
Na sexta-feira (27), o Exército iraniano anunciou ter realizado ataques com VANTs suicidas contra alvos sensíveis e estratégicos em Telavive. Segundo a nota, foram atingidos uma instalação identificada como Unidade 6900, descrita como centro central de apoio e logística das forças armadas sionistas, e um local de concentração de tropas no aeroporto Ben Gurion.
O comunicado afirmou que a nova leva de ataques teve por objetivo atingir forças especializadas do regime e interromper suas instalações logísticas. De acordo com o Exército iraniano, a Unidade 6900 é responsável pelo transporte e fornecimento de equipamentos para aeronaves-tanque e pela transferência de material para bases militares. O texto acrescentou que atingir essa linha logística afeta diretamente a capacidade de transporte rápido, seguro e em grande volume, diminuindo a capacidade de “Israel” de manter suas operações agressivas.
TNP sob questionamento
Horas depois dos novos bombardeios contra instalações nucleares, o deputado iraniano Ebrahim Rezaei, porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento, declarou que a permanência do país no Tratado de Não Proliferação Nuclear, o TNP, tornou-se “sem sentido”.
“O TNP não nos ofereceu vantagem alguma. Não protegeu nosso país do ataque de potências nucleares nem impediu repetidos ataques contra nossas instalações nucleares. Documentos e acordos internacionais foram completamente ignorados”, afirmou.
Rezaei disse ainda que, desde o começo da agressão norte-americana e sionista no fim de fevereiro, instalações nucleares iranianas vêm sendo atacadas repetidamente, enquanto a Agência Internacional de Energia Atômica não condenou os bombardeios. Segundo ele, a agressão mais recente ocorreu meses depois de os EUA e “Israel” já terem bombardeado três das principais instalações nucleares do país.
O parlamentar criticou também declarações recentes do diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, segundo as quais uma bomba atômica talvez fosse a única forma de eliminar o programa nuclear iraniano. Rezaei afirmou que o Irã não pretende produzir uma bomba e que essa política permanece inalterada, mas classificou a fala de Grossi como provocativa e perigosa.
O deputado apontou ainda um duplo critério das potências imperialistas e das instituições internacionais. Segundo ele, os EUA se retiraram de aproximadamente 60 organizações e convenções internacionais nos últimos anos sem sofrer qualquer consequência. Em contrapartida, caso o Irã abandone o TNP, o imperialismo reagirá com espanto e oposição. “Chegou a hora de sair”, declarou.
Preparação para invasão terrestre
Em paralelo à escalada aérea, uma fonte militar iraniana disse à agência Tasnim, em 26 de março, que o Irã está mobilizando um milhão de soldados para enfrentar qualquer eventual invasão terrestre lançada pelos EUA. Segundo a fonte, especulações sobre uma ofensiva norte-americana pelo sul do país provocaram uma onda de entusiasmo entre combatentes iranianos, dispostos a transformar o território nacional em “um inferno histórico para os norte-americanos”.
A mesma fonte afirmou que, além da organização de mais de um milhão de combatentes para operações terrestres, houve uma entrada maciça de pedidos de jovens iranianos para se alistarem junto ao Basij, ao CGRI e ao Exército. A declaração acrescentou que, se os EUA quiserem abrir o Estreito de Ormuz por meio de uma tática suicida e autodestrutiva, o Irã está pronto tanto para enfrentar essa estratégia quanto para manter o estreito fechado.





