Em entrevista semanal à TV 247, realizada nesta sexta-feira (27), o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou que a guerra contra o Irã colocou o imperialismo em um impasse, avaliou que a eleição presidencial de 2026 será difícil para Luiz Inácio Lula da Silva e disse que o PT não pode substituir o presidente por outro nome da própria legenda. Ao longo da conversa, Pimenta também comentou a crise da chamada terceira via, a situação da juventude, a política econômica do governo federal e o papel da burguesia na sucessão presidencial.
Ao tratar do conflito envolvendo os Estados Unidos, o Irã e “Israel”, Pimenta declarou que o governo Trump entrou em uma situação de difícil saída e que um recuo norte-americano representaria uma derrota importante, embora não signifique, por si só, o fim do imperialismo.
“A única coisa a dizer é que ele não consegue voltar no tempo. O único caminho seria não ter entrado, mas ele não está vendo uma saída fácil, porque a consequência é muito devastadora para o imperialismo. Eu só não acho que se o imperialismo recuar agora, esse daí é o fim do imperialismo norte-americano. Acho que é uma conclusão muito gaseosa. O imperialismo tem muitos recursos. Uma coisa que eu tenho observado nesse conflito com o Irã, é que o pessoal subestima muito o imperialismo. O imperialismo tem muita bala na agulha ainda. Tem muita coisa pela frente.”
Segundo Pimenta, a situação do exército sionista mostra que a guerra produziu um desgaste profundo. Ele mencionou uma declaração do próprio comando militar de “Israel”, segundo a qual as forças armadas estariam esgotadas e próximas do colapso, sobretudo em razão do cansaço dos reservistas e da dificuldade de ampliação do recrutamento. A partir daí, afirmou que a imprensa internacional não consegue explicar o impasse militar se, como foi propagandeado, o Irã estivesse destruído.
Ainda sobre o quadro internacional, Pimenta disse ver um enfraquecimento do imperialismo, mas sustentou que esse processo ainda está longe de se encerrar. Na avaliação do dirigente, Trump agravou a crise ao tentar uma ofensiva contra o Irã sem condições de obter uma vitória, o que abriu espaço para disputas internas no próprio campo imperialista.
“Eu acho que é visível o enfraquecimento do imperialismo, isso é visível. Tanto que há pessoas que levam ao extremo para falar que ele está completamente acabado. Mas o imperialismo tem muitos recursos e não vai deixar o cenário sem uma briga muito feia. A presença do Trump no comando dos Estados Unidos complica tudo para o imperialismo, porque ele não é o homem do imperialismo. Isso ficou bastante claro nessa crise. Ele foi para cima do Irã, dá um golpe de teatro em cima do Irã, como ele fez na Venezuela. E ele se deu mal.”
Pimenta afirmou ainda que a política de Benjamin Netaniahu também dá sinais de esgotamento. Segundo ele, o ataque ao Irã foi um erro e já há setores do imperialismo que procuram uma mudança de rumo, diante do caráter catastrófico assumido pela situação. Para o presidente do PCO, a crise em torno do Irã pode se converter em um ponto de inflexão da política imperialista e abrir uma nova etapa de disputas no interior do próprio bloco dominante.
Ao passar para a situação brasileira, Pimenta disse que uma eventual desistência de Lula produziria uma crise no PT e transferiria a popularidade do presidente para um candidato de direita. Segundo ele, não existe no partido outro nome com capacidade de substituí-lo na disputa presidencial.
“Analisando friamente a situação, eu diria o seguinte, se o Lula desistir, o PT vai entregar a sua popularidade, o Lula particularmente, vai entregar sua popularidade a um candidato de direita, que ele não pode ser substituído por ninguém do PT. Não adianta você, por exemplo, tirar o Lula e colocar o Fernando Haddad. Tem que colocar uma pessoa que unifique um determinado espectro da sociedade brasileira, da burguesia brasileira. Caso contrário, não dá jogo. Se o Lula não vai ganhar, não vai ser o Fernando Haddad que vai ganhar.”
Na mesma linha, o dirigente declarou que há risco real de derrota para Lula em 2026. Segundo ele, o bolsonarismo se fortaleceu nos últimos anos, enquanto o governo aparece identificado com o Supremo Tribunal Federal e com medidas de cerceamento da internet. Pimenta afirmou ainda que o escândalo do Banco Master tende a favorecer a propaganda bolsonarista, especialmente porque atinge o STF, que ele apontou como aliado do governo.
Questionado sobre a rejeição de parte da juventude à esquerda, Pimenta atribuiu o fenômeno à política do próprio PT. Segundo ele, o partido passou a aparecer como defensor da ordem existente e deixou de oferecer uma perspectiva de transformação, abrindo espaço para o avanço da direita entre setores jovens descontentes.
“Olha, eu acho que é o efeito da política da esquerda. O governo do PT se comporta como o governo do sistema. E tem medidas que foram tomadas aí que são muito impopulares. Por exemplo, essa questão da chamada lei felca, que atingiu em cheio a juventude. Isso daí, na minha opinião, vai ter um efeito devastador. […] Quando ela está no governo, como PT é um partido de governo, já teve no governo cinco vezes, eles começam a se comportar como defensores do status quo. E eles subestimam o nível de revolta do pessoal contra o status quo.”
Sobre a campanha presidencial, Pimenta disse que viagens, inaugurações e agendas públicas não serão suficientes para assegurar a vitória de Lula. Na avaliação dele, a disputa terá caráter ideológico e, caso o PT não assuma uma polarização pela esquerda, a direita acabará impondo os termos do confronto político. Ele acrescentou que o governo não fez sequer campanha contra as privatizações, mesmo nos casos em que não tivesse força para revertê-las, e criticou a política de adaptação do PT ao regime político.
Pimenta também comentou a desistência de Ratinho Júnior e afirmou que a retirada do governador do Paraná foi resultado de uma manobra de Flávio Bolsonaro no estado. Embora tenha dito que a chamada terceira via sofreu um golpe, avaliou que ela ainda pode reaparecer caso haja um grande acordo entre setores da burguesia e uma desistência de um dos polos principais. Segundo o dirigente, nomes como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Eduardo Leite não possuem peso suficiente para reorganizar esse campo.
Ao analisar o comportamento da burguesia, Pimenta afirmou que ainda há divisão em torno da sucessão presidencial, mas sustentou que esse setor não ficará fora do embate. Segundo ele, mesmo que não haja declaração pública imediata, a máquina política do regime tenderá a se mover em favor de uma das candidaturas. Também declarou que, do ponto de vista programático, amplos setores da burguesia estão mais próximos do neoliberalismo defendido por Flávio Bolsonaro do que da política apresentada por Lula.
Na parte final da entrevista, Pimenta voltou à crítica ao governo federal ao comentar a política econômica. Ele disse que o PT deixou de enfrentar seriamente a questão da dívida pública e atacou a manutenção de juros elevados, afirmando que o governo poderia, ao menos, levantar a bandeira de uma auditoria da dívida. Para ele, a continuidade dessa política estrangula a economia e pesa sobre trabalhadores e setores médios.
“Então, eu acho que o Brasil tem problemas estruturais importantes. Um problema que é muito visível, que eu acho que é extremamente grave, é o problema da dívida pública. Agora, não estou vendo o PT atacar esse problema de maneira séria, não. […] Vamos fazer auditoria, vamos ver que parte da dívida que é legítima e que parte da dívida que não é legítima. Poderia ser feito. Eu acho que é uma medida muito moderada que o PT poderia adotar, mas eu não estou vendo o PT adotar isso daí.”
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