Ricardo Machado

É dirigente do Sindicato dos Bancários de Brasília e ex-dirigente da CUT-DF. Integra a Coordenação dos Comitês de Luta do DF e Membro do Partido da Causa Operária (PCO)

Coluna

Congresso da Contraf é para prorrogar o mandato da diretoria

Esses congressos, com esse tipo de caráter e esses métodos, excluem a possibilidade de um debate político sério e consequente

No próximo final de semana, a partir da sexta-feira (27) e terminando no dia 29 (domingo), estará acontecendo, no Balneário do Guarujá (SP), em um resort de luxo, em frente à praia, o 7º Congresso Nacional da Contraf-CUT, que deveria ter, como uma das pautas principais, eleger a nova diretoria da entidade, com os critérios objetivos de formação de chapas etc. e tal, e determinar, para a próxima gestão, as diretrizes para o plano de luta. Mas o 7º Congresso não se dará nesse sentido.

A proposta levada pela corrente majoritária na Contraf (Articulação Sindical), e seguida caninamente pelas demais correntes, é a de modificar o atual estatuto da entidade no sentido de prorrogar o mandato da atual direção por mais um ano.

A justificativa da burocracia sindical, que sempre é a mesma para justificar a sua paralisia, é a de que o cenário político e econômico é adverso; que a categoria precisa de uma representante experiente para dialogar com os banqueiros e o governo federal; que há necessidade de estabilidade para lidar com temas complexos etc. Ou seja, o mesmo papo furado que a categoria bancária está cansada de ouvir quando se avizinha, e mesmo durante, a campanha salarial da categoria.

Uma primeira questão que chama a atenção é que esse congresso, que terá 300 delegados participantes, será composto inteiramente por diretores dos diversos sindicatos nacionalmente filiados à Contraf, a nata da burocracia sindical bancária; representantes de base: nada, ninguém!

Na verdade, esses congressos, com esse tipo de caráter e esses métodos, excluem a possibilidade de um debate político sério e consequente. Na realidade, o debate é apenas uma formalidade, um enfeite para encobrir o caráter conservador de todo o processo.

A proposta de mudança do estatuto para a prorrogação do mandato da atual direção até 2027, ao nosso ver, nada mais é do que manter o setor da burocracia na próxima campanha salarial, que tem a sua data-base em setembro próximo, de modo que satisfaça os interesses dos banqueiros e do governo.

Se houvesse, conforme determina o atual estatuto da Contraf, a disputa para a eleição de uma nova diretoria, poderia abrir-se o caminho para a composição de setores da própria burocracia que não estão satisfeitos com as atuais diretrizes da Contraf, e nada disso, claro, é interessante para os banqueiros, que preferem deixar tudo do jeito que está.

Nos últimos períodos — e aí já se vão oito anos, com a eleição e a recondução da atual direção da Contraf —, por conta da política da atual direção da Contraf, de colaboração com os patrões, a categoria bancária vem comendo o pão que o diabo amassou. Arrocho salarial, demissão em massa, descomissionamento, terceirização, aumento do adoecimento entre os trabalhadores bancários em consequência da pressão para o cumprimento de metas, sobrecarga de trabalho, reestruturações e, além disso, a defesa do famigerado acordo de dois anos (que tanto os banqueiros adoram), em que se paralisam as mobilizações por um longo período. É uma política que não abriu nenhuma perspectiva para os trabalhadores diante da brutal crise e faz a sorte do movimento dos trabalhadores depender dos banqueiros e dos governos, que não vislumbram outro caminho que não seja o de fazer os bancários pagarem pela crise.

Numa época como a atual, de violento retrocesso econômico, em que os métodos adotados “de luta” da burocracia são extremamente ineficazes, sendo necessário utilizar os métodos tradicionais de mobilização (assembleias presenciais, congressos de base, formação de comandos de mobilização etc.), a política das direções tem levado os trabalhadores a um beco sem saída, constituindo-se, na maioria das vezes, em meras encenações sindicais. Além disso, essas direções adotaram a teoria de que nada é possível fazer contra as demissões, o arrocho salarial etc., de que não é possível nem dá resultado lutar contra a sanha patronal.

Uma outra questão para a articulação manter a atual direção da Contraf diz respeito ao próximo processo eleitoral de outubro. Para a atual direção da Contraf, num ano eleitoral, é melhor fazer logo a campanha, pois, segundo a burocracia, é ruim que a campanha coincida com as eleições. Para nós, seria o contrário, e até melhor, com condições mais propícias para o atendimento das reivindicações dos bancários. A gente sabe muito bem que não é um problema de calendário. No ano passado, não houve eleição e também não houve campanha.

Esse Congresso da Contraf, cujo objetivo é prorrogar o mandato da atual direção, revela, mais uma vez, o abismo que separa o aparato sindical do ativismo e da base da categoria. É necessário romper com a política de colaboração com os patrões — política essa que tem implicado na completa atomização da categoria, na desmobilização e vem gerando um descrédito cada vez maior em relação às entidades de luta dos trabalhadores bancários.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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