Ricardo Machado

É dirigente do Sindicato dos Bancários de Brasília e ex-dirigente da CUT-DF. Integra a Coordenação dos Comitês de Luta do DF e Membro do Partido da Causa Operária (PCO)

Coluna

As demissões no Banco BV não podem ser conquistas dos demitidos

Os 200 demitidos do banco devem ficar satisfeitos com a "super vitória" de sair com uma micharia a mais no bolso

No final do mês de janeiro, o Banco Votorantim (hoje banco BV) demitiu 200 funcionários. Muitos desses demitidos têm mais de 10 anos de casa.

Este Diário, em matéria sobre as demissões no BV, caracterizava que a atitude da direção do BV é uma prática aplicada pelos demais banqueiros que, através das famigeradas reestruturações, estão adotando medidas de um violento ataque à categoria bancária, sendo que as demissões em massa são parte do cardápio das maldades, cujo objetivo é o lucro a qualquer preço, e que a única forma eficaz de enfrentar esse cenário é a intensificação das mobilizações, por parte do movimento sindical, e a organização de uma greve de toda a categoria contra as dispensas e em defesa da estabilidade no emprego.

Mas, ao contrário disso, com o que a categoria se depara (para os demitidos, nem se fala, já que estão no olho da rua) é com a atuação das direções sindicais.

Em matéria vinculada no site do Sindicato dos Bancários de São Paulo, cujo título é “Atuação do Sindicato conquista proposta para demitidos, em janeiro, pelo Banco Votorantim”, do dia 12 de março, diz-se que “a conquista de uma proposta financeira para os demitidos, além de assessoria para realocação no mercado, sem a quitação do contrato de trabalho, é uma vitória da nossa mobilização junto aos trabalhadores, provando mais uma vez que luta coletiva sempre vale a pena”.

Ou seja, os 200 demitidos do banco devem ficar satisfeitos com a “supervitória” de sair com uma micharia a mais no bolso e com um tal de pacote de outplacement (um nome pega-trouxa) para se prepararem e se recolocarem no mercado de trabalho. Parece brincadeira, mas não é, não!

A proposta, que segundo a burocracia sindical “é uma vitória”, é a seguinte:

“A proposta apresentada pelo Banco Votorantim visa oferecer uma indenização aos empregados demitidos, em janeiro de 2026, que possuíam até 02 anos de vínculo com o banco, que somam cerca de 70 trabalhadores.

É oferecido meio salário para trabalhadores com até 12 meses de vínculo com o banco; e um salário para os demitidos que estavam no banco há mais de 12 até 24 meses.

Além disso, o banco irá oferecer a todos os demitidos um pacote de outplacement, que consiste em uma assessoria para que possam se preparar e se recolocar no mercado de trabalho.

Importante: esta proposta, diferente da que o banco fez individualmente com os demais empregados, não exige qualquer contrapartida, tampouco efeitos de quitação dos contratos de trabalho.

O banco informou que fará o crédito em conta dos valores a esses empregados já no dia 20 de março, e a comunicação também, nos próximos dias, para todo o público desligado em janeiro de 2026 sobre o outplacement, de forma que os interessados possam solicitar a assessoria.

O Sindicato aproveita para reforçar o direito que todos os empregados têm, uma conquista garantida na Convenção Coletiva de Trabalho aos demitidos, de receberem a verba para requalificação profissional, que pode ser utilizada nos cursos de qualificação oferecidos pela entidade. Clique aqui e veja as turmas abertas.

E os demitidos com mais de dois anos de vínculo?

O Banco Votorantim justificou que restringiu a proposta financeira e indenizatória aos demitidos com até dois anos de vínculo pelo fato de já ter oferecido proposta, com valores diferenciados, aos demitidos com mais tempo de banco”. (Site SP Bancários, 12/03/2026)

Ao contrário das justificativas sem o menor conteúdo, na verdade, de “estar mobilizando contra as demissões”, “protestos realizados pelo Sindicato” etc. e tal, as direções que controlam o maior sindicato dos bancários, ou seja, o sindicato de São Paulo, não só não prepararam nenhuma luta contra as demissões, como neste momento não se dispõem minimamente a esboçar nenhuma resistência frente aos ataques sistemáticos que os patrões vêm desfechando contra os trabalhadores. As derrotas que, nos últimos tempos, os bancários estão sofrendo são expressão dessa política de colaboração com os banqueiros. Uma política de acordos não declarados ou assinados, mas que consiste, de fato, em pulverizar a categoria, abandonando os métodos tradicionais de luta (greves, manifestações, assembleias presenciais etc.) em prol de “reuniões” e “seminários” com representantes dos patrões, ou protestos inúteis, cujo objetivo é confundir e esgotar os ânimos dos trabalhadores.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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