Coluna

Futebol é uma forma de politização

Achar que futebol é coisa de alienados é um erro

Com o encerramento dos campeonatos estaduais na última semana, uma sensação se repete em muitas torcidas pelo país: a de que, mais uma vez, determinados resultados foram influenciados por fatores que vão além do campo. Reclamações contra arbitragem, suspeitas de favorecimento midiático, decisões controversas do VAR ou da federação — tudo isso alimenta debates intensos entre torcedores. Para alguns, isso é apenas parte do folclore do futebol. Mas há algo mais profundo acontecendo: o futebol está constantemente produzindo experiências de politização.

Quem acompanha o futebol com atenção sabe como funciona. Um lance polêmico acontece. A arbitragem decide de maneira questionável. A mídia esportiva passa a tratar o episódio de forma seletiva ou a minimizar a polêmica. Imediatamente, torcedores se mobilizam: produzem vídeos, analisam imagens, discutem em grupos, organizam protestos nas arquibancadas e pressionam dirigentes. A indignação coletiva se transforma em organização. Esse processo é, em essência, político.

A torcida aprende, na prática, que instituições podem ser parciais, que decisões não são sempre neutras e que interesses podem influenciar resultados. Aprende também que a reação coletiva é a única forma de enfrentar essas situações. Não por acaso, as torcidas organizadas surgiram historicamente como formas de organização popular dentro do futebol.

Esse impulso organizativo já existente nas torcidas não é pequeno. Em muitos estádios brasileiros, as arquibancadas são um espaço onde se encontram expressões políticas claras. Faixas contra o racismo, contra o fascismo e contra diferentes formas de opressão aparecem com frequência. A própria torcida do Internacional, por exemplo, já levou aos estádios mensagens como “Amamos o Inter, odiamos o racismo”, além de contar com uma torcida antifascista organizada. Isso mostra algo importante: o futebol não é um espaço separado da política. Ele é um dos lugares onde a política acontece.

Para quem vive o futebol intensamente, não é difícil perceber que as “maracutaias” que aparecem dentro do esporte têm paralelos claros com o funcionamento das instituições da sociedade em geral. Decisões tomadas por poucos, interesses econômicos que pesam mais que a justiça, narrativas construídas por grandes veículos de mídia e a necessidade constante de pressão popular para que algo mude. O futebol, nesse sentido, funciona quase como uma escola informal de percepção política.

Quando um torcedor percebe que seu time pode ser prejudicado por estruturas que favorecem determinados interesses, ele começa a entender, mesmo que intuitivamente, que o mundo não funciona apenas pela lógica da neutralidade ou da meritocracia. Ele percebe que existem relações de poder. É justamente aí que se abre uma oportunidade.

O impulso de organização que já existe nas torcidas pode ser ampliado. As mesmas pessoas que se mobilizam para denunciar injustiças dentro do futebol podem também perceber que injustiças semelhantes estruturam a sociedade em que vivem. E, ao aprofundar essa reflexão, torna-se possível identificar que muitos desses problemas têm uma raiz comum: um sistema econômico que organiza a sociedade a partir da desigualdade e da concentração de poder.

Isso não significa transformar o futebol em um panfleto político permanente ou retirar dele sua dimensão lúdica e cultural. Significa reconhecer algo que já está acontecendo espontaneamente: o futebol mobiliza, organiza e desperta consciência coletiva.

As arquibancadas sempre foram espaços populares. São lugares onde trabalhadores, jovens e moradores das periferias se encontram, se reconhecem e se organizam. Ignorar o potencial político desse espaço seria desperdiçar uma das formas mais vivas de mobilização popular existentes no país. O futebol já politiza. A questão é saber se vamos aproveitar essa potência ou seguir repetindo por aí que futebol é coisa de alienado.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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