Carla Dórea Bartz

Jornalista, com 30 anos de experiência (boa parte deles em comunicação corporativa). Graduada em Letras e doutora pela USP. Filiou-se ao PCO em 2022.

Coluna

A economia da enchente

Como enchentes recorrentes, omissão do poder público e especulação imobiliária operam juntas para desvalorizar territórios e expulsar moradores na zona sul de São Paulo

No dia 16 de janeiro de 2026, uma chuva de verão provocou o transbordamento do córrego Morro do S e arrastou um carro para dentro das galerias pluviais que passam sob a Avenida Giovanni Gronchi, na Vila Andrade, zona sul da cidade de São Paulo. Um casal morreu. Os corpos foram encontrados em pontos distintos da cidade: o marido nas imediações do Parque Burle Marx; a esposa, dias depois, já no Rio Pinheiros, próximo ao Autódromo de Interlagos.

Não foi um caso isolado.

Em 6 de fevereiro de 2025, outro episódio: um jovem foi levado por uma enxurrada formada durante um temporal na região da Cohab Adventista, no Capão Redondo. Seu corpo nunca foi encontrado. Mais uma vida absorvida pela estatística silenciosa das enchentes. Mais uma família deixada sem resposta.

No dia 29 de dezembro de 2020, ainda em plena pandemia, uma enchente praticamente idêntica ocorreu na mesma região. Um casal de servidores públicos teve o carro arrastado pela água na Avenida Carlos Caldeira Filho (que margeia o Córrego Morro do S). O corpo do marido foi localizado no dia seguinte. O corpo da esposa só apareceu em janeiro de 2021. As imagens, as cenas e as justificativas oficiais foram assustadoramente parecidas.

Esses episódios revelam um padrão que já não pode ser tratado como exceção ou fatalidade. Não se trata de eventos climáticos imprevisíveis, mas de uma política urbana que aceita a morte como custo operacional. A prefeitura e os vereadores conhecem o problema há décadas. Há estudos, propostas, diagnósticos técnicos e projetos formais. Há tecnologias diversas para ajudar a resolver. Oficialmente, existem sete projetos de piscinões previstos para a região. Apenas um está em execução.

O Piscinão do Capão Redondo, orçado em cerca de 180 milhões de reais, deveria ter sido concluído em 2025. A entrega foi adiada sucessivas vezes e agora é prometida para julho de 2026. Enquanto isso, a região continua alagando. Em janeiro deste ano, o próprio canteiro de obras ficou submerso durante o temporal, evidenciando que a obra atrasada sequer foi capaz de responder às chuvas atuais.

O prefeito atribui os atrasos a entraves burocráticos, desapropriações antigas e dificuldades técnicas do terreno. Mas essa explicação não convence. A repetição das tragédias, sempre nos mesmos pontos, ao longo de anos, indica que não estamos diante de mera incompetência administrativa. Há uma lógica política mais profunda operando.

Além da perda irreparável de vidas humanas, há um efeito que raramente entra no noticiário: a degradação progressiva do espaço urbano e das condições de vida de milhares de pessoas que moram e trabalham na região. Casas são invadidas pela água suja repetidas vezes; estruturas são comprometidas; móveis, carros e eletrodomésticos se perdem; comércios acumulam prejuízos sucessivos; seguros se tornam inviáveis. O cotidiano passa a ser organizado em torno do medo da próxima chuva. Esse desgaste contínuo não é um efeito colateral neutro: ele produz desvalorização material, esgotamento psicológico e sensação de abandono, criando um ambiente em que permanecer se torna cada vez mais difícil.

As enchentes recorrentes cumprem uma função econômica concreta: tornam o território progressivamente inviável para quem mora. O abandono prolongado do poder público, combinado à degradação material da vida cotidiana, cria as condições ideais para a atuação predatória de especuladores do mercado imobiliário. No ano passado, sem aviso adequado à população, a prefeitura e a Câmara Municipal aprovaram uma nova lei de zoneamento da região, permitindo a construção de prédios sem limite de altura em vilas residenciais consolidadas há cerca de seis décadas.

São vilas formadas por casas modestas, bens de famílias da classe trabalhadora, financiadas durante uma vida inteira por antigos programas públicos de habitação hoje esquecidos e construídas quando o bairro ainda não tinha metrô, água e gás encanados, transporte estruturado, comércio ou infraestrutura urbana. Agora que tudo isso existe, o território se tornou valioso e seus moradores, um obstáculo.

Desde a mudança do zoneamento, os moradores – muitos deles idosos – passaram a sofrer assédio constante de especuladores. As propostas surgem com valores baixos de compra, contratos de exclusividade e uma pressão baseada no medo: a casa está em área de alagamento; a situação vai piorar; a obra ao lado pode comprometer a estrutura. O que está em jogo não é o valor de uso, ou seja, o fato de que ali vivem pessoas, mas apenas o valor de troca. A casa como objeto especulativo, mercadoria.

Esse processo não é espontâneo. Ele foi antecipado e denunciado pelos próprios moradores em 2022, quando apresentaram à prefeitura uma proposta formal solicitando estudos de viabilidade para as áreas inundáveis às margens do córrego Morro do S. O documento apontava a impermeabilização do solo, a ocupação irregular das margens, o assoreamento do leito e a necessidade de soluções estruturais: piscinões, corredores verdes, preservação das nascentes e limpeza periódica. Tudo isso, inclusive, alinhado aos discursos oficiais sobre sustentabilidade e Agenda 2030.

Nada foi feito.

Em vez disso, avançam os empreendimentos. Prédios altos e desproporcionais já começam a demolir e a substituir as moradias existentes. As obras provocam rachaduras, barulho, insegurança estrutural e uma sensação permanente de ameaça. As famílias se veem encurraladas, como se ocupassem um espaço que deixou de lhes pertencer. Para esses prédios, no entanto, não há alagamentos.

Enquanto vilas sexagenárias em bairros como Pinheiros e Jardins são preservadas, valorizadas e celebradas como espaços de qualidade de vida, “refúgios urbanos”, as da zona sul são empurradas para a extinção. Não por despejo direto, mas por abandono planejado, degradação ambiental, desvalorização programada e pânico induzido.

Na imprensa, a forma jornalística também opera objetivamente a favor dessa situação. Na tragédia do dia 16 de janeiro, as reportagens televisivas trataram o episódio como mais uma morte ocorrida na periferia, nas chamadas “áreas de risco”. Nenhuma reportagem foi capaz – ou esteve disposta – a explicar que as mortes ocorreram embaixo de uma das principais avenidas da cidade, a Giovanni Gronchi, parte de um eixo viário que atravessa zonas de intenso interesse imobiliário.

Para quem acompanhou os acontecimentos pela TV, a impressão é de que se trata de algo que acontece porque as pessoas vão morar onde “não pode”, uma desculpa recorrente para a omissão do Estado.  As mortes ocorreram em uma zona de transição bem urbanizada, sob uma linha de metrô de superfície privatizada e na divisa entre bairros populares e áreas valorizadas, exatamente onde os interesses imobiliários especulativos estão em expansão.

As enchentes, nesse contexto, não são acidentes. São, ao contrário, um mecanismo econômico necessário para o redesenho do território e a geração de lucro. Nesse mecanismo, as mortes são tratadas como “danos colaterais”, expressão recorrente na linguagem das guerras modernas. O termo é enunciado justamente para neutralizar moralmente a morte de civis, apresentando-a como efeito inevitável, técnico, não intencional, embora estruturalmente previsto. Para quem fica, a sensação é de se tornar um refugiado dentro da própria casa. A diferença é que, neste caso, não temos bombas (ainda). Somente a desculpa da “crise climática”.

Eis o verão.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.