O artigo 2026: Nós contra Trump, assinado por Israel Dutra e publicado no sítio Revista Movimento nesta terça-feira (13), demonstra uma série de confusões políticas disseminadas no interior da maioria da esquerda.
No primeiro parágrafo, Dutra escreve que “estamos apenas no começo de uma luta aguda entre a soberania dos povos e a ofensiva neofascista para reorganizar a vida política no planeta”. O problema, no entanto, não é uma pretensa ofensiva “neofascista”, mas o imperialismo em si.
A luta “antifascista” é um disfarce que a esquerda tem utilizado para mascarar seu abandono da bandeira do socialismo e da revolução para assumir a luta em defesa da democracia liberal.
Não existe, de fato, uma contradição entre a democracia liberal e o fascismo. O crescimento da extrema direita no Brasil, a “ofensiva neofascista”, foi estimulada por uma intensa campanha de perseguição ao PT na grande imprensa.
Essa mesma imprensa serviu para trazer o Supremo Tribunal Federal (STF) para o primeiro plano na política nacional. O STF, com o pretexto de combater o fascismo, com o apoio da esquerda, tem implementado uma ditadura no País, onde impera a censura e a violação dos mais elementares direitos democráticos.
Da “luta contra o fascismo”, ou contra o bolsonarismo, a esquerda pequeno-burguesa lançou a palavra de ordem “Ele, não”, que dever ser lida como “Qualquer um, menos Bolsonaro”. Esse “qualquer um” era literal, tanto que para as presidenciais de 2022 essa esquerda “antifascista” tentou compor com figuras do “campo democrático”, que abrigava figuras da direita tradicional que não encontraram espaço no bolsonarismo.
A vida antes e depois de Trump
Dutra diz que com o ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, “Trump afirmou ao mundo seus verdadeiros interesses: o controle do Petróleo venezuelano, pela via da tutela do novo governo de Delcy Rodriguez”.
Existe uma diferença entre ter um interesse e de fato tutelar o governo venezuelano. Após circular na imprensa esquerdista que Delcy Rodriguez estaria colaborando com os EUA, o próprio Trump revelou que compraria petróleo venezuelano a preço de mercado. Órgãos como The Economist também deram conta de que os americanos estavam buscando cooperação; enquanto outros órgãos diziam que um controle efetivo do país só seria possível com uma invasão por terra, o que é tido como improvável, pois a população venezuelana possui milhões de milicianos armados.
Seguindo, o articulista diz que o ataque à Venezuela “foi um gesto sem precedentes, que rompe qualquer padrão de direito internacional, seguindo na mesma toada dos que sustentaram o genocídio em Gaza; agora, os canhões trumpistas se voltam contra Cuba, Colômbia e mesmo contra a histórica aliada dos Estados Unidos, a Europa”.
Padrões internacionais não existem, o que impera é a lei do mais forte. O genocídio em Gaza, foi obra de Joe Biden, o “democrata”, apoiado pela esquerda pequeno-burguesa.
Eleger símbolos do fascismo como Bolsonaro e Trump serve para encobrir outros delinquentes políticos. Dutra diz, por exemplo, que “Trump, inimigo número um da humanidade Trump é ambicioso e parece não conhecer limites. Sua meta é mudar o regime político dos Estados Unidos, travar a competição com a China e impor novos parâmetros civilizatórios, a serviço dos grandes bilionários. É a encarnação do neofascismo e da ofensiva neocolonial do imperialismo”.
A ofensiva contra a China iniciou-se com Joe Biden logo após a derrota que a OTAN sofreu no Afeganistão. Desde então, estão sendo formadas, ou reforçadas, alianças militares como o QUAD e a AUKUS, que atuam no Pacífico formando um cerco contra os chineses. Além disso, o Japão está se rearmando e aumentando o tom belicoso, aumentando a tensão na região.
Quanto a estar a serviço dos bilionários, essa é a função do Estado burguês desde sempre, não existe novidade nisso; e a ocorrência de ações mais agressivas das potências, isso é fruto da crise do imperialismo, que tem se aprofundado.
Embora o texto diga que a ofensiva de Trump “teve como epicentro o apoio à Netanyahu no genocídio que leva Gaza à barbárie”, o fato é que este governo buscou um acordo de paz. O apoio aos sionistas, é preciso que se diga, tem contado com o apoio integral do imperialismo, que mandou armas e até soldados contra os palestinos. Os governos europeus têm reprimido violentamente com espancamentos e prisão aqueles que lutam contra o genocídio. E esses governos são as democracias que essa esquerda quer apoiar na “luta contra o fascismo”.
Dutra escreve que “estamos apenas no começo de uma luta aguda entre a soberania dos povos e a ofensiva neofascista” como se fossem duas entidades diferentes. A ofensiva é do imperialismo, que não precisou lançar mão do fascismo para impor sua política.
Obedecendo ao imperialismo
O problema das bigtechs aparece mais de uma vez no texto de Dutra. Para ele, é prioritário “avançar no debate e controle das redes sociais, antes que seja tarde”. Esse é exatamente o desejo do imperialismo, que precisa controlar as redes para tentar impedir a livre circulação de informação. A questão de se combater notícias falsas é uma fraude, pois o imperialismo tem medo é da verdade.
A “luta contra o fascismo” é uma política de espantalho. O imperialismo utiliza essa falsa luta para aumentar a repressão. Um exemplo é próprio Brasil, onde ao STF é permitido todo tipo de arbitrariedades, uma vez que seria para o bem da democracia. O ministro Alexandre de Moraes instaurou o chamado “Inquérito das Fake News”, que vai completar 7 anos em março, e que o juiz que não tem data para ser encerrado, ainda que a Constituição determine que isso não deva acontecer.
A esquerda precisa se livrar dessa enganação de “luta contra o fascismo”. Atualmente, o principal inimigo da classe trabalhadora atende pelo nome de democracia liberal, que, apesar do nome, não passa de ditadura.





