Brasil

Esquerda defenderá o lavajatismo contra Bolsonaro?

Defender as liberdades democráticas é uma questão de sobrevivência para a esquerda e por isso, o campo criticar posições que apoiam o vale-tudo contra o bolsonarismo

O jornalista Aquiles Lins, editor do Brasil 247, publicou, no último dia 24, o artigo O golpe era real e foi despachado com o presidente, reagindo a áudios divulgados pela golpista Polícia Federal no programa dominical Fantástico, da igualmente golpista rede Globo. Para Lins, “os novos áudios revelados pela Polícia Federal sobre a tentativa de golpe de Estado (…) tornam cada vez mais difícil negar a existência de uma trama golpista articulada por integrantes das Forças Armadas e do governo Bolsonaro”. Os áudios, porém, nada revelam, além de conversas sobre eventos que nunca passaram da etapa da mera cogitação, o que, em condições normais, jamais seria considerado um crime. Ainda assim, Lins continua:

“As falas demonstram que a tentativa de ruptura institucional não foi uma ideia isolada de radicais inconsequentes, mas um plano articulado dentro do governo Bolsonaro, envolvendo militares de alta patente e figuras influentes. Cada nova prova dificulta ainda mais a defesa dos envolvidos e evidencia a gravidade do que ocorreu: uma tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito.”

Para que se pudesse caracterizar a tentativa de um golpe malograda, seria preciso alguma materialidade na ação golpista em si. Uma tentativa de golpe de Estado ocorre quando há ações concretas para subverter a ordem política vigente e tomar o poder sem seguir os mecanismos institucionais estabelecidos. Isso passa por um intenso trabalho de agitação junto aos órgãos de imprensa, por mobilização do aparelho burocrático de repressão. Em se tratando de golpes contra um governo de esquerda, é preciso coesão na direita e apoio do imperialismo, especialmente dos EUA.

Nada disso, porém, esteve presente na conjuntura política brasileira, desde 2022 até o momento, e o simples fato da PF e da burocracia judicial (PGR e STF) estarem protagonizando a campanha dita anti-golpista, prova que um dos elementos fundamentais para esse tipo de empreendimento político, a coesão interna da burguesia, não existe.

Ilustrativo da cisão que atravessa a classe dominante nesse momento, os áudios serviram para uma campanha contra o bolsonarismo, seguindo o mesmo método de campanha visto na famigerada operação Lava Jato, em que as ações espetaculares da PF eram acordadas com a rede Globo, a fim de garantir a máxima publicidade para os ataques cometidos pelo órgão aparelhado pelo imperialismo. O que os esquerdistas entusiastas da nova operação golpista em marcha não registraram na época é que os primeiros alvos eram da direita, por sinal, o mesmo setor social que hoje busca abrigo do imperialismo sob o bolsonarismo: os setores da burguesia brasileira que ainda não foram destroçados pelo neoliberalismo.

A partir da segunda metade dos anos 2010, toda a luta contra a corrupção, liderada pelo então juiz Sergio Moro, o então procurador Deltan Dallagnol e o então superintendente da Polícia Federal Leandro Daiello, terminaram com uma onda de assaltos criminosos contra o País, que incluíram o roubo de campos de petróleo pelos monopólios imperialistas do ramo, a destruição da Lava Jato, a perda de direitos trabalhistas históricos conquistados pela classe trabalhadora e o aumento exponencial da fatia do orçamento nacional destinada aos banqueiros internacionais. Um fenômeno similar se projeta para acontecer agora, como lembra Lins, no final de seu artigo:

“O julgamento do STF será decisivo para mostrar se o Brasil será capaz de responsabilizar aqueles que atentaram contra sua democracia ou se deixará impune, como no passado, abrindo margem para novas ameaças no futuro.”

Troque a “defesa da democracia” por “luta contra a corrupção” e o posicionamento será o mesmo do observado pela conspiração direitista que até prendeu políticos de direita como Anthony Garotinho (MDB), Sérgio Cabral (MDB), Eduardo Cunha (MDB) e até o ex-presidente Michel Temer (MDB) – entre outros mais insignificantes -, derrubou a presidenta petista da República, Dilma Rousseff e prendeu também o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, impedindo-o de participar das eleições de 2018. Para o moralismo pequeno-burguês, pode ter sido recompensador ver figuras execráveis como Cunha e Temer presos, porém, para milhões de famílias pobres que voltaram a passar fome após a queda do governo de esquerda, isso não representou nenhum ganho.

Finalmente, em lutas políticas como a da Lava Jato e as de agora, questionar “quem está prendendo” e “como está fazendo” é fundamental para que a esquerda não caia em golpes fuleiros. A posição de Lins, porém, leva o campo a cometer exatamente esse equívoco. Os responsáveis pelos golpes de 2016 e 2018 agora têm interesses em comum com a esquerda? De maneira nenhuma.

Os interessados e os interesses são os mesmos, o que mudou foi apenas o alvo da ofensiva, mas isso é momentâneo. As divergências no interior da esquerda podem ser superadas, e em algum momento serão. Quando isso acontecer, os trabalhadores, camponeses, estudantes e os demais movimentos sociais serão ainda mais duramente atacados, com toda a parafernália que ajudaram a construir agora, quando o Estado mobilizava seu aparelho de repressão para fazer toda sorte de loucuras contra os inimigos da vez.

Por essas razões, a esquerda deve sempre lutar pela máxima liberdade democrática, de opiniões, de associação, de manifestação e, acima de tudo, para que o Estado limite seu poder repressor exclusivamente ao autorizado pela lei, que deveria ser o mínimo em um sistema de governo verdadeiramente democrático, mas que foi completamente solapado pelos “defensores da democracia”. Trata-se, finalmente, de uma questão de sobrevivência, o que coloca também a necessidade do campo criticar duramente posições como a de Lins e reafirmar sua defesa intransigente das liberdades democráticas.

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