Apartheid de vacinas

A assustadora disparidade na distribuição de vacinas pelo mundo

Enquanto os imperialistas estão com a vacinação adiantada e já reabrem a economia, países oprimidos não conseguem sequer adquirir imunizantes

(*) Por Tiago Carneiro, correspondente em Luxemburgo

No dia 17 de maio, o atual diretor geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom, declarou que o mundo está passando por um “apartheid de vacinas”. O motivo que levou o diretor geral da OMS a dar tal declaração é a concentração de vacinas pelos países mais ricos, que detêm apenas 15% da população, mas concentram 45% das doses administradas. Por sua vez, os países mais pobres, o que corresponde à quase metade da população mundial, administraram apenas 17% das vacinas aplicadas. Além disso, países imperialistas, que já estão com a vacinação adiantada, estão aplicando doses em adolescentes e crianças, enquanto os países atrasados ainda não conseguiram vacinar sequer idosos e trabalhadores da saúde (Routers, 17/05/2021).

Detalhando os dados da vacina pelo mundo, podemos ver que as potências imperialistas estão em uma posição confortável. Por exemplo, Israel, preposto dos Estados Unidos no Oriente Médio, imunizou completamente 56% de sua população. Por sua vez, os EUA e o Reino Unido imunizaram 40% e 35% da população, respectivamente. Colocando esses valores em milhões de doses aplicadas, os EUA, isoladamente, já administraram mais vacinas que toda a União Europeia: 286 milhões vs. 232 milhões (Financial Times –  Covid-19 vaccine tracker, 26/05/2021). 

Isso escancara a regra imposta pelo imperialismo: primeiramente vacinaremos os imperialistas de primeiro plano: EUA, Inglaterra e Israel. Em seguida, os países secundários. Os países oprimidos receberão os restos. Essa regra pode ser confirmada ao analisarmos a porcentagem da população vacinada em países membros da União Europeia. Uma vez que nos EUA e Israel já se fala em abrir a economia e parar de usar máscaras, os países do bloco europeu aceleraram a vacinação e apresentam taxas parecidas entre eles, algo em torno de 16%. Assim, Luxemburgo, Alemanha e França afrouxaram as regras de confinamento. Por exemplo, restaurantes já abriram seus terraços e algumas atividades culturais foram retomadas. 

Quando olhamos para os países oprimidos, os números são desoladores. Em abril, menos de 2% das vacinas administradas no mundo foram aplicadas no continente africano, que detém cerca de 15% da população global. A OMS, em seu sítio destinado à África, comemora a entrega de 16 milhões de doses da AstraZeneca a países do continente (OMS – África, 08/04/2021). Aqui, é válido dizer duas coisas: primeiro, essa quantidade de doses não ajuda um continente com mais de 1 bilhão de pessoas. Em segundo lugar, as vacinas recebidas são da AstraZenaca, que passou a ser proibida em diversos países imperialistas. Ou seja, a “caridade” imperialista é empurrar para países pobres a vacina por eles descartada. 

Enquanto a Inglaterra imunizou 40% da sua população, sua ex-colônia, a Índia, vacinou com duas doses apenas 3% dos mais de 1,3 bilhão de habitantes. Já os Estados Unidos, que imunizaram 35% de seus cidadãos, tem abaixo de si um subcontinente, a América Latina, com apenas 3% de imunizados. Fica evidente que a política colonial continua sendo aplicada até hoje e os povos dos países atrasados sendo tratados como cidadãos de última classe.

É importante dizer que a solução proposta pela OMS para a disparidade na distribuição de imunizantes, nas palavras do próprio Adhanom, “é compartilhar vacinas”. Entretanto, isso não é nem de longe verdade. O sofrimento da população mundial é resultado direto dos interesses dos grandes monopólios farmacêuticos e seus respectivos estados que colocam o lucro do negócio das vacinas acima da vida dos povos. Esses mesmos monopólios agem, através dos governos que controlam, para que os países fiquem reféns dessas empresas farmacêuticas. O Brasil, por exemplo, teve a vacinação interrompida em diversas capitais por diversas vezes. Além disso, recebe doses da Pfizer a conta gotas. A maior cidade do Equador, Guaiaquil, que em determinados momentos da pandemia não tinha mais onde enterrar seus mortos, moveu um processo contra a Pfizer, pois ela se recusou a vender vacinas para a cidade (Telesur, 17/3/2021). 

Evidenciando ainda mais a pressão imperialista sobre os países da América Latina, documentos mostram que os EUA “tentaram convencer” o Brasil a não adquirir a vacina Sputnik V, o que, aparentemente, vem surtindo efeitos. O governo sabujo e genocida de Jair Bolsonaro, através da Anvisa, vem colocando obstáculos cada vez mais absurdos na obtenção do imunizante russo. Além disso, o Brasil, contrariando outros importantes países oprimidos, como a África do Sul e Índia, é contra a quebra das patentes. O resultado disso é bem claro: o subcontinente já bateu a marca de 1 milhão de mortos, dos quais 44% são brasileiros. No que diz respeito às vacinas, a América Latina conta apenas com 3% da sua população vacinada (G1, 22/05/2021). 

Por fim, a OMS, como uma entidade representante do imperialismo, nada fala sobre a quebra de patentes, e como os países imperialistas estão agindo para sabotar qualquer iniciativa que não seja a compra de imunizante dos grandes laboratórios farmacêuticos mundiais. Os países imperialistas estão monopolizando a vacinação mundial e não será através da “caridade” que será resolvida a questão da vacinação. As populações dos países oprimidos precisam lutar pela quebra das patentes e para que governos sabujos do imperialismo, como o Brasil, adquiram imunizantes fora do monopólio dos grandes laboratórios farmacêuticos. 

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