Política internacional

Xi Jinping adverte Trump sobre Taiuã em encontro na China

Primeiro dia da visita do presidente norte-americano a Pequim teve reunião de quase duas horas, banquete de Estado, acenos comerciais e divergências sobre Taiuã, Irã e Ormuz

O presidente da China, Xi Jinping, recebeu nesta quinta-feira (14) o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Pequim, no primeiro dia de uma visita de Estado marcada por gestos públicos de cordialidade, negociações comerciais, pressão sobre o Irã e um alerta direto sobre Taiuã.

Segundo a agência britânica Reuters, a reunião entre os dois presidentes durou mais de duas horas no Grande Salão do Povo. O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que Xi advertiu Trump de que a questão de Taiuã é o tema mais importante nas relações entre os dois países e que, se for mal conduzida, pode levar a relação bilateral a uma situação “muito perigosa”, com possibilidade de confronto ou conflito.

A reunião ocorreu em meio à guerra dos Estados Unidos contra o Irã e à crise no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo. De acordo com a Casa Branca, os dois governos concordaram que Ormuz deve permanecer aberto para garantir o fluxo de energia. O governo norte-americano também informou que Xi manifestou oposição à militarização do estreito e a qualquer tentativa de cobrança de pedágio pela passagem.

O principal ponto de tensão do primeiro dia foi Taiuã. Segundo o comunicado do Ministério das Relações Exteriores da China, Xi afirmou que “a questão de Taiwan é o tema mais importante nas relações China-EUA”. O dirigente chinês disse ainda que a independência de Taiuã e a paz no Estreito de Taiuã são “irreconciliáveis como fogo e água”.

A declaração foi feita durante a parte fechada da reunião. A imprensa estatal chinesa informou que Xi pediu cautela máxima dos Estados Unidos no tratamento do tema. A advertência tem relação direta com a venda de armas norte-americanas a Taiuã, política que a China rejeita e que os Estados Unidos mantêm sob o argumento de que precisa fornecer meios de defesa à ilha.

Há um pacote de US$ 14 bilhões em armas para Taiuã aguardando decisão de Trump. O presidente norte-americano não respondeu a uma pergunta de jornalistas sobre o tema quando os dois líderes posavam para fotos no Templo do Céu, em Pequim.

Apesar da advertência sobre Taiuã, Xi e Trump apresentaram a reunião como um passo positivo nas relações entre as duas maiores economias do mundo. Segundo o Ministério das Relações Exteriores da China, Xi afirmou que as equipes econômicas e comerciais dos dois países haviam alcançado resultados “equilibrados e positivos” em negociações preparatórias realizadas na Coreia do Sul, na quarta-feira (13).

A reunião ocorre após uma guerra comercial que levou os dois países a impor tarifas superiores a 100% um contra o outro. A trégua comercial em vigor ainda é frágil, e um dos objetivos da visita norte-americana é ampliar compras chinesas de produtos agrícolas, aeronaves da Boeing e energia.

A Casa Branca informou que os dois governos discutiram formas de fortalecer a cooperação econômica, ampliar o acesso de empresas norte-americanas ao mercado chinês e aumentar o investimento chinês na indústria dos Estados Unidos. O comunicado também citou a continuidade das ações contra o fluxo de precursores de fentanil para o território norte-americano.

Trump levou a Pequim uma delegação de grandes empresários, incluindo Elon Musk, da Tesla, Tim Cook, da Apple, e Jensen Huang, da Nvidia. Durante a reunião, segundo o Ministério chinês, Trump pediu que os empresários se apresentassem a Xi.

A guerra dos Estados Unidos contra o Irã também esteve no centro das conversas. Trump afirmou em entrevista à Fox News que Xi teria garantido que a China não enviará “equipamentos militares” ao Irã. O presidente norte-americano declarou que essa seria uma “grande declaração” e que o líder chinês teria falado “de forma muito firme”. Trump também afirmou que Xi defendeu a reabertura do Estreito de Ormuz e criticou a cobrança de taxas sobre embarcações que passam pela região.

Segundo o comunicado da Casa Branca publicado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, os dois países concordaram que o Irã “nunca poderá ter uma arma nuclear”.

Em público, Trump adotou tom de conciliação. O presidente norte-americano afirmou ter uma “relação fantástica” com Xi e disse que os laços entre China e Estados Unidos “vão ser melhores do que nunca”.

“Vamos ter um futuro fantástico juntos. Tenho muito respeito pela China e pelo trabalho que você fez”, declarou Trump, dirigindo-se ao presidente chinês.

Trump também chamou Xi de “grande líder” e afirmou que sua visita à China era “uma honra como poucas”. Segundo a BBC, ele elogiou a recepção, a cerimônia oficial, a presença de crianças com bandeiras chinesas e norte-americanas e o banquete oferecido pelo governo chinês.

A recepção incluiu guarda de honra, banda militar, execução dos hinos nacionais e salva de 21 tiros na Praça Tiananmen, segundo o Ministério das Relações Exteriores da China.

No comunicado oficial chinês, Xi apresentou a ideia de uma relação “construtiva” e de “estabilidade estratégica” entre os dois países. Segundo a China, esse novo enquadramento deverá orientar as relações pelos próximos três anos.

À noite, Xi ofereceu um banquete de Estado a Trump. Segundo a BBC News Brasil, o presidente chinês afirmou que as relações entre China e Estados Unidos são “as mais importantes relações bilaterais do mundo” e envolvem uma população conjunta de 1,7 bilhão de pessoas.

Depois da reunião, Trump publicou na rede Truth Social que Xi teria se referido aos Estados Unidos como uma nação “talvez em declínio”, mas “de forma muito elegante”. Trump afirmou ainda que o comentário do presidente chinês dizia respeito ao governo de Joe Biden, e não ao momento atual do país.

Trump e Xi devem voltar a se encontrar na sexta-feira (15), quando está previsto novo encontro com chá e almoço antes da partida do presidente norte-americano.

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