Briga e confusão se instauraram no partido Democracia Cristã (DC) no último sábado (16), quando o presidente da sigla, o ex-deputado João Caldas (AL), anunciou a candidatura de Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do Mensalão.
O problema é que a sigla estava articulada em torno do nome de Aldo Rebelo há meses. No final de março deste ano, inclusive, o ex-ministro já havia anunciado sua pré-candidatura à presidência por meio de seu perfil na rede social X. Naturalmente, Aldo não aceitou ser rifado dessa forma e foi a público anunciar a manobra. Em nota à imprensa, reafirmou que não abriria mão da disputa e acusou o anúncio de Barbosa de ser um “balão de ensaio” e uma afronta a tudo o que defende.
No dia seguinte, domingo (17), Aldo participou de um programa no YouTube, o Barbacast – Podcast do Barba, afirmando que o estatuto do partido garante o seu direito de disputar a convenção. Ele assegurou que a questão será judicializada e que, portanto, continuará sua pré-campanha. Aldo também denunciou o teor secreto da filiação de Barbosa, que, segundo a Folha de S.Paulo, teria ocorrido no começo de abril — em contraste com a sua, que foi pública. Segundo o ex-ministro, tanto ele quanto a sigla assumiram compromissos políticos que agora estão sendo violados por essa traição, e lembrou que foi o próprio partido que o convidou para ser candidato, e não o contrário.
Cândido Vaccarezza, presidente da sigla em São Paulo, também se posicionou contra a manobra, declarando à Folha de S.Paulo que Barbosa é “inapoiável” e que trabalhará contra sua candidatura ao Planalto. Afirmou, ainda, que o ex-ministro “não tem compromisso com a democracia, nem experiência política” e que o país não pode ser entregue “a um personagem como esse”.
Diante das reações contrárias, Caldas ameaçou expulsar sumariamente todos os que se opuserem ao nome de Joaquim Barbosa. A justificativa do presidente nacional do DC é a de que Aldo supostamente não estaria pontuando nas pesquisas. Segundo ele, havia um acordo prévio para testar a viabilidade da candidatura de Aldo, no qual sua popularidade seria medida durante três meses.
Na imprensa, Caldas teceu elogios a Barbosa, chamando-o de “o Obama brasileiro”. Chegou a declarar que “esse é o presidente que sonho para o país”, descrevendo a candidatura como “uma escrita feita pelas mãos divinas, o homem certo na hora certa para consertar tudo o que está de errado no Brasil”. Afirmou, ainda, que não haveria ninguém melhor para resolver a crise, pois o ex-ministro seria “o mensageiro que nos resgatará desse cenário”, capaz de equilibrar as instituições e dar esperança ao país, classificando-o como “uma pérola, um diamante”.
Por que Barbosa?
Mas por que Barbosa? Para além da adulação comum aos políticos da burguesia — frequentemente utilizada para disfarçar manobras rasteiras —, o que significa, de fato, o abandono de Aldo Rebelo? Para entender, precisamos primeiro lembrar quem é o ex-ministro do STF.
Ainda em 2003, Joaquim Barbosa foi a primeira indicação de Lula ao STF. O presidente se orgulhou de nomear o primeiro negro para o Supremo, tratando o fato como uma grande vitória do povo brasileiro e conferindo um ar de herói popular a Barbosa. Mal sabia ele a cobra que estava criando. Logo em seguida, o ministro foi cooptado pela burguesia para ser o homem à frente do processo do “Mensalão”.
Nosso inquisidor aplicou como bem entendia a lei e a Constituição brasileira, um traço inconfundível do STF, para prender e perseguir toda a direção do Partido dos Trabalhadores (PT), um processo que começou com Barbosa no “Mensalão”, passou pela Lava Jato de Sergio Moro (UNIÃO-PR) e Dallagnol (NOVO-PR) e terminou com Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) na presidência.
O então ministro do STF usou a teoria do domínio de fato para prender José Dirceu sem que houvesse provas, assim como retirou o direito dos réus de recorrerem a instâncias superiores ao julgá-los no STF. A imprensa, na época, noticiava cada capítulo do processo como se fosse uma novela. Foi um verdadeiro espetáculo montado para manchar a reputação do PT e de seus líderes. Depois disso, Barbosa virou herói da burguesia, não à toa seu nome foi soprado aos quatro ventos em várias eleições.
Em 2018, com Lula fora das eleições e sem uma unidade da burguesia em torno da candidatura de Bolsonaro, Barbosa foi cogitado à presidência, chegando a se filiar ao PSB para concorrer, mas desistiu quando a burguesia decidiu se unificar na candidatura de Alckmin no primeiro turno. Embora não tenha sido candidato em 2022, seu nome foi cogitado na imprensa burguesa. Agora, aparece novamente, e desta vez puxa o tapete de Aldo Rebelo.
A pré-candidatura de Aldo vinha adotando um caráter nacionalista, focado na defesa das empresas estatais brasileiras e em um programa de industrialização para o país. Ficou claro que há uma aversão da imprensa e de uma parcela da burguesia ao seu nome, chegando a qualificá-lo como “próximo ao bolsonarismo” — segundo o jornal O Globo — na tentativa de manchar sua imagem. Essa pecha de bolsonarista se deve ao fato de que Aldo se colocou contra o processo-farsa que prendeu os envolvidos no 8 de janeiro e prometeu que, se eleito, irá indultar os encarcerados, incluindo o ex-presidente Bolsonaro.
Barbosa, por outro lado, além de ser um homem de confiança da burguesia pró-imperialista, é uma figura com alto potencial de adesão eleitoral. Ele atrai tanto a classe média pretensamente progressista — que vê com bons olhos um candidato negro e chancelado pela imprensa — quanto a classe média mais abertamente conservadora e fascista, devido ao seu papel no ‘Mensalão’ e a toda a sua retórica anticorrupção. Vale apontar, também, que o nome de um ex-ministro do STF como Barbosa pode cumprir um papel fundamental neste momento em que a Corte sofre imensa pressão, especialmente devido ao envolvimento de ministros de destaque, como Alexandre de Moraes, no escândalo do Banco Master.
Mas por que sair candidato pela Democracia Cristã, que historicamente, apesar de ser um partido tradicional da política brasileira, nunca teve muita expressão eleitoral? Como a sigla não possui nenhum deputado eleito em Brasília, a Cláusula de Barreira determina que o partido fique sem tempo de propaganda na TV e desobriga os meios de comunicação de convidarem o candidato para os debates. Contudo, a solução é mais simples do que parece: caso o partido feche uma coligação com legendas maiores, passa automaticamente a ganhar tempo de televisão, proporcional à quantidade de deputados eleitos pela coligação. Quanto à participação nos debates, embora a Cláusula de Barreira exija o convite obrigatório apenas para legendas com pelo menos cinco deputados federais, nada impede a imprensa de convidar quem ela bem entender.
O fato é que Barbosa pode surgir como uma alternativa para a burguesia, e o tamanho reduzido do DC pode até ajudá-lo a se distanciar da crise política que assola o regime brasileiro. Pode-se tratar apenas de uma manobra para tirar Aldo da corrida, ou até de um balão de ensaio para testar a disposição de partidos do Centrão em apoiar a candidatura de Barbosa. De qualquer forma, não se trata, de jeito nenhum, de uma carta fora do baralho.
Caso Aldo não reverta a situação, a pré-candidatura de Rui Costa Pimenta pelo PCO será a única com uma posição verdadeiramente focada na defesa dos interesses nacionais. Pimenta também denunciou a farsa que foi a prisão de Bolsonaro e de todos os manifestantes encarcerados por participarem dos protestos do 8 de janeiro. Por esses e outros motivos, a pré-candidatura de Rui Costa Pimenta vive sob intenso fogo cruzado da imprensa e, no caso do presidente do PCO, dos sionistas. A burguesia quer deixar o terreno sem obstáculos para facilitar o golpe eleitoral: sonha todas as noites em tirar Lula e Bolsonaro das eleições para eleger um homem de confiança da chamada “terceira via”.





