Breno Altman

Jornalista, fundador de Opera Mundi e autor do livro Contra o Sionismo: Retrato de uma Doutrina Colonial e Racista (Alameda Editorial).

Coluna

Um dia de vergonha na história do Itamaraty

Evento com lideranças sionistas, convocado pelo Ministério de Relações Exteriores, confronta a posição histórica do presidente Lula e a tradição da própria diplomacia brasileira

Apesar da péssima repercussão, o Ministério de Relações Exteriores segue adiante com seu plano de organizar, no próximo dia 16 de abril, um seminário sobre antissemitismo cujos palestrantes judeus são todos do campo sionista. Pior ainda: nas três mesas estabelecidas, a Confederação Israelita do Brasil detém o protagonismo, incluindo a participação de seu presidente, Cláudio Lottenberg.

Essa entidade, como é publicamente sabido, está entre as agências mais servis ao Estado genocida de Israel e ao governo Netanyahu. Sob a camuflagem de representação da comunidade judaica em nosso país, opera como cabeça de ponte do regime sionista. Seu alinhamento com os crimes de lesa-humanidade cometidos por Israel contra o povo palestino é notório.

Ao se vincular diretamente com tal organização, sem que sejam convidadas vozes antissionistas do judaísmo brasileiro, o Itamaraty chancela objetivamente uma das maiores falsificações contemporâneas: a equivalência entre antissionismo e antissemitismo. Essa mesma fraude está embutida no PL 1424/26, apresentado pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), em seu intuito de criminalizar a crítica ao regime sionista.

Nunca é demais repetir a diferença substancial entre antissionismo e antissemitismo. Se a segunda categoria se refere ao perverso racismo antijudaico, a primeira diz respeito ao combate contra uma corrente ideológica definida pela defesa de um Estado supremacista judaico e pela colonização da Palestina. O vínculo estrutural entre sionismo e judaísmo nunca passou de escudo para uma doutrina racista e colonial atualmente majoritária entre os judeus.

Aliás, sionismo sequer é antagônico a antissemitismo. Ao longo da história, diversas lideranças sionistas estabeleceram acordos com governos antissemitas, interessadas na expulsão de judeus dispostos a emigrar e se incorporar à ocupação da antiga Canaã. O caso mais célebre é o Acordo Haavara, assinado pela Federação Sionista da Alemanha com a administração de Adolf Hitler, vigente de 1933 a 1938.

Na contramão do governo Lula

Além de estender um tapete vermelho aos propagandistas locais de um regime processado por delito de genocídio, a iniciativa do Itamaraty entra em aberta contradição com a postura do presidente Lula diante da causa palestina e do massacre conduzido por Israel desde outubro de 2023. Lembremos da coragem do mandatário brasileiro, em fevereiro de 2024, quando comparou os métodos do governo Netanyahu contra os palestinos às práticas dos nazistas contra os judeus.

Mesmo que a coordenação efetiva desse evento esteja nas mãos de uma assessora presidencial, a senhora Clara Ant, estreitamente associada a interesses sionistas, inexiste dúvida sobre o potencial desse seminário em macular a coerência do discurso humanista e anticolonial historicamente vocalizado pelo atual chefe de Estado. Não é aceitável duplo padrão diante da grande régua moral de nossos tempos.

Aliás, também salta à vista uma questão: o Itamaraty já organizou algum seminário desse tipo sobre o genocídio palestino e a islamofobia? Ou esses assuntos seriam menos relevantes, apesar da carnificina na Faixa de Gaza e da máquina de moer gente liderada pelo governo Netanyahu em prol de suas ambições expansionistas?

No mais, se o objetivo real fosse enfrentar o antissemitismo, o foco de qualquer empreitada deveria ser a proteção legal e a legitimação pública do antissionismo. Reconhecer líderes sionistas como a única voz do judaísmo contribui para a narrativa que torna todos os judeus responsáveis, perante a opinião pública, pelas atrocidades do Estado de Israel.

O Itamaraty poderia ter a mesma bravura de 1975, quando o Brasil integrou a maioria de delegados que aprovou a resolução 3379 das Nações Unidas, considerando o sionismo uma forma de racismo e apartheid. Por alguma razão, no entanto, dessa vez preferiu escrever uma desanimadora página de vergonha.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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