Bepe Damasco comemorou, no Brasil 247 de 4 de novembro, a derrota do Partido Republicano nas eleições legislativas norte-americanas. Em A humilhante derrota de Trump e a mudança de direção dos ventos, chamou o resultado de “tsunami democrata” e viu nele o começo de uma virada política mundial. Sua interpretação não vê que Trump perdeu apoio quando passou a praticar justamente a política de guerra e de favorecimento aos grandes capitalistas que havia prometido combater — uma política com profundas raízes nas administrações democratas.
Em 3 de novembro, os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, inclusive com vitórias em estados tradicionalmente republicanos. Mas o tamanho da derrota não esclarece, por si só, o motivo do voto. Damasco trata o avanço democrata como prova de que a população rejeitou a extrema direita e abraçou uma alternativa progressista, o que não corresponde aos fatos.
Trump se reelegeu prometendo recuperar a indústria, trazer empregos de volta aos Estados Unidos, reduzir o custo de vida e pôr fim às guerras intermináveis no exterior. A campanha procurou reunir trabalhadores de regiões desindustrializadas, pequenos empresários e parcelas da população que rejeitavam os políticos tradicionais.
Em 2026, o governo cedeu ao grande capital financeiro e iniciou uma guerra contra o Irã ao lado de “Israel”. A ofensiva não produziu a vitória rápida esperada, desorganizou o comércio de petróleo na região e contribuiu para elevar o preço dos combustíveis nos Estados Unidos. Trump também não realizou a recuperação industrial anunciada; além disso, suas tarifas encareceram mercadorias e encontraram resistência de empresas dependentes de cadeias internacionais de produção.
Em 3 de novembro, este Diário publicou Meio de mandato: Trump fracassou porque se rendeu ao imperialismo, citando pesquisas que davam ampla vantagem aos democratas. A NBC registrava 52% a 45% nas preferências para o Congresso; o Instituto Emerson, 52% a 42%. A derrota, portanto, não caiu do céu, como sugere a teoria dos “ventos” imprevisíveis de Damasco.
A ligação entre a guerra e o resultado foi reconhecida pelos próprios dirigentes republicanos. Em 4 de novembro, Trump admitiu que o Irã havia contribuído para a derrota, embora defendesse novamente sua decisão. O vice-presidente J. D. Vance foi mais longe e escreveu: “A razão de termos perdido é a guerra”. Segundo relatou, antigos eleitores republicanos cobravam quatro coisas: terminar a guerra, combater a inflação, colocar os EUA em primeiro lugar e mudar a relação com “Israel”. Vance afirmou que alguns desses eleitores compareceram às urnas, mas votaram nos democratas.
Pesquisas com eleitores também apontaram o custo de vida e denúncias de corrupção como preocupações fundamentais. Justamente por isso, não se pode reduzir o resultado a uma onda de identificação com o Partido Democrata.
É importante frisar que a guerra não começou com a chegada de Trump. Barack Obama participou da intervenção militar da OTAN na Líbia, em 2011, ampliou ataques com aeronaves não tripuladas e manteve a presença militar norte-americana no Oriente Médio. Joe Biden apoiou militarmente a Ucrânia e forneceu armas a “Israel” durante a destruição de Gaza. Kamala Harris foi vice-presidente dessa administração e defendeu elementos fundamentais de sua política externa na campanha de 2024.
Trump apresentou-se como adversário dessa tradição e acabou reproduzindo o emprego da força militar para sustentar os interesses estratégicos do capital. A política imperialista atravessa os dois partidos e que sua adoção pode entrar em choque com os compromissos utilizados para conquistar uma eleição.
Personalidades da direita que haviam apoiado Trump estão rompendo. O comentarista Tucker Carlson, um dos mais conhecidos defensores de sua campanha em 2024, passou a condenar a guerra contra o Irã. Em junho, anunciou que deixaria de apoiar o Partido Republicano e esclareceu que tampouco apoiaria os democratas. Expondo a oposição de uma parcela do próprio campo conservador à política externa do governo.
Damasco não conseguirá explicar esse fenômeno por meio de uma disputa entre democratas progressistas e republicanos extremistas. Carlson não mudou de lado. O que se alterou foi sua relação com Trump. Existe uma crise instalada que afeta os dois partidos.
Na imigração, outro assunto apresentado por Damasco como prova da superioridade política democrata, existe um porém. Trump ampliou operações policiais e deportações, atribuindo aos imigrantes a responsabilidade por dificuldades econômicas. Mas Obama já havia realizado deportações em massa, e o governo Biden continuou a deter e expulsar imigrantes. Apesar da diferença de método, a repressão migratória não é monopólio dos republicanos.
Damasco também celebra a eleição de mulheres, negros, muçulmanos, homossexuais e hispânicos pelo Partido Democrata. A presença desses grupos no Congresso, entretanto, não define a política econômica ou externa de seus integrantes. Existem parlamentares democratas que se opõem ao envio de armas a “Israel”, assim como dirigentes partidários que apoiaram contratos militares bilionários. A eleição de Obama, primeiro presidente negro do país, interveio na Líbia e espionou Dilma Rousseff. A vice-presidência de Kamala Harris não interrompeu o fornecimento de armas ao governo de Benjamin Netaniahu.
Democratas e republicanos, obviamente, não são idênticos. Suas bases eleitorais, divergências internas e propostas sobre saúde, imigração e tributação são diferentes. Ainda assim, os Democratas têm sido o partido do imperialismo por excelência.
Há ainda um problema no entusiasmo de Damasco. O descontentamento que levou Trump ao poder em 2016 e novamente em 2024 não foi resolvido. Continuam a desindustrialização de regiões inteiras, as dificuldades de manter o padrão de vida e a desconfiança em relação às instituições.
Essa discussão interessa também ao Brasil. Damasco termina imaginando que a derrota dos republicanos provocará uma série de reveses para a direita, de Milei aos Bolsonaro. A reeleição de Lula, porém, ocorreu por margem estreita, enquanto o PL ampliou sua representação na Câmara. A derrota para presidência não equivale a uma vitória definitiva do bolsonarismo, que pode ficar ainda mais fortalecido, dada a perseguição judicial e ao próprio esgotamento da política petista no governo.
O artigo de Damasco inverte, assim, a explicação mais importante do resultado norte-americano. Ele vê a vitória dos democratas como a negação da política de Trump, quando parte do desgaste de Trump veio de sua aproximação com a política tradicional dos democratas.
A derrota de Trump é, nesse sentido, também uma derrota da política que ele herdou e imitou de seus adversários. A eleição mudou o controle do Congresso; não resolveu a crise do regime político norte-americano nem o conflito entre as promessas feitas à população e os interesses econômicos contrários.
As eleições de meio de mandato nos EUA revelou, para quem tinha dúvidas, que boa parte da esqueda brasileira age como um puxadinho do Partido Democrata norte-americano.





