Estados Unidos

Meio de mandato: Trump fracassou porque se rendeu ao imperialismo

Presidente norte-americano enfrenta rejeição recorde após abandonar suas promessas de recuperar a indústria e acabar com as guerras; pesquisas apontam vitória democrata no Congress

As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira (3), deverão representar uma grande derrota para o presidente Donald Trump. As últimas pesquisas nacionais colocam o Partido Democrata entre sete e dez pontos percentuais à frente dos republicanos na disputa pelo Congresso. A aprovação presidencial caiu ao menor nível de seu segundo mandato, resultado do fracasso de um governo que prometeu recuperar a economia norte-americana e acabar com as guerras, mas terminou submetido à política tradicional do imperialismo.

Segundo levantamento do Instituto Emerson, publicado na sexta-feira (30), os democratas têm 52% das intenções de voto, contra 42% dos republicanos. A aprovação de Trump caiu para 37%, enquanto sua desaprovação chegou a 57%. Há 15 meses, quando o instituto começou a acompanhar a disputa, os números eram de 46% e 47%, respectivamente.

Outra pesquisa, divulgada pela NBC News no domingo (1º), apontou 52% para os democratas e 45% para os republicanos. A rejeição ao presidente chegou a 60%, o maior índice registrado pelo instituto em seus dois mandatos. Entre os eleitores independentes, a vantagem democrata alcançou 21 pontos.

O Silver Bulletin, de Nate Silver, calculou nesta segunda-feira (2) uma vantagem média de 8,9 pontos para os democratas. Já o instituto Polling Forecast projetou que o partido conquistará 242 cadeiras na Câmara dos Representantes e 53 no Senado. Segundo seu modelo, as probabilidades de maioria democrata são de 90% na Câmara e 81% no Senado.

Embora a distribuição dos votos entre os estados possa alterar o resultado, principalmente no Senado, os levantamentos mostram a dimensão do desgaste republicano.

A questão fundamental é que Trump fracassou justamente nas promessas que o levaram de volta à Casa Branca. Em 2024, apresentou-se como adversário das guerras intermináveis, da destruição da indústria norte-americana e da política econômica que havia arruinado importantes regiões operárias do país. Prometeu trazer de volta as fábricas, recuperar os empregos e deixar de gastar bilhões de dólares em intervenções estrangeiras.

Não conseguiu realizar nenhuma dessas promessas fundamentais. Ao contrário, acabou cedendo às pressões dos mesmos setores que controlavam a política norte-americana antes de sua eleição.

A base de Trump está desiludida

A pesquisa da NBC mostrou que 64% dos eleitores consideram que Trump não correspondeu às expectativas. O dado inclui aproximadamente um terço daqueles que votaram nele em 2024.

A insatisfação atingiu inclusive o Partido Republicano. Entre seus eleitores, 53% estão descontentes com a situação econômica e 37% acreditam que o presidente não cumpriu o que prometeu. Um ano atrás, 75% dos republicanos consideravam que o país seguia na direção correta. Agora, essa proporção caiu para 48%.

O problema central é econômico. Cerca de três quartos dos entrevistados pela NBC estão insatisfeitos com a economia. Pela primeira vez em 30 anos de pesquisas do instituto, a proporção de norte-americanos descontentes com a própria situação financeira superou a dos satisfeitos: 51% contra 49%.

Trump procurou recuperar a indústria por meio da imposição de tarifas sobre produtos estrangeiros. A medida deveria encarecer as importações e estimular a produção nacional. Entretanto, encontrou resistência entre os próprios capitalistas dos Estados Unidos, cujas empresas dependem de mercadorias, componentes e matérias-primas produzidos no exterior.

O governo foi obrigado a recuar em parte das tarifas, enquanto outras foram derrubadas pelos tribunais. As medidas que permaneceram em vigor contribuíram para aumentar os preços pagos pela população. Segundo estimativa do Centro de Política Tributária, citada pelo Conselho de Relações Exteriores (CFR), as tarifas representarão um custo médio de US$920,00 por família norte-americana em 2026.

Até agora, não houve a recuperação industrial prometida. Trump descobriu que não poderia simplesmente impor sua política econômica contra os interesses dos grandes monopólios capitalistas, que organizaram sua produção internacionalmente para aumentar os lucros.

Sua tentativa de combater a desindustrialização esbarrou, portanto, na própria organização do capitalismo norte-americano.

Prometeu acabar com as guerras e atacou o Irã

Na política externa, a capitulação foi ainda mais evidente.

Trump havia prometido encerrar a guerra da Ucrânia e abandonar as intervenções militares que consomem recursos dos Estados Unidos. Embora tenha reduzido a pressão sobre a Rússia em determinados momentos, não conseguiu pôr fim ao conflito.

O presidente teve de se submeter à política defendida pelos setores fundamentais do aparato de Estado norte-americano, incluindo a CIA, os militares e os grandes interesses financeiros, que pretendem enfraquecer a Rússia para preservar a dominação mundial dos Estados Unidos.

A situação no Oriente Médio foi ainda mais grave. A necessidade de defender “Israel”, principal instrumento do imperialismo na região, levou Trump a abandonar inteiramente sua promessa de retirar os Estados Unidos das guerras estrangeiras.

Em fevereiro, seu governo participou de uma nova ofensiva militar contra o Irã. O objetivo era proteger os interesses norte-americanos e socorrer o Estado de “Israel”, cuja política de guerra contra os palestinos e os demais povos do Oriente Médio aprofundou sua crise.

O ataque, entretanto, provocou uma reação iraniana que atingiu diretamente a economia mundial. O Irã atacou embarcações e instalações petrolíferas na região do golfo Pérsico, enquanto o tráfego pelo estreito de Ormuz foi drasticamente reduzido. O bloqueio imposto também pela Marinha norte-americana agravou as dificuldades de transporte.

Em 2025, aproximadamente 25% do petróleo transportado por via marítima e 19% do gás natural liquefeito comercializado mundialmente passaram por Ormuz. A interrupção desse comércio provocou uma elevação dos preços internacionais dos combustíveis.

Nos Estados Unidos, a gasolina voltou a ultrapassar US$4,00 por galão. Em setembro, a inflação chegou a 3,7% em 12 meses, com o aumento dos combustíveis respondendo por mais da metade da alta mensal dos preços.

O presidente que prometeu acabar com as guerras terminou provocando uma crise energética que atingiu os próprios eleitores.

Uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada em outubro mostrou que apenas 34% dos norte-americanos aprovavam os ataques contra o Irã, enquanto 54% consideravam que a guerra não havia valido a pena.

A contradição é evidente. Trump foi eleito por uma população cansada das aventuras militares do imperialismo, mas acabou executando uma política que beneficia os interesses estratégicos de Washington e de “Israel”, enquanto os trabalhadores norte-americanos pagam a conta.

Os setores do imperialismo que pressionaram pela intervenção não precisarão responder diretamente aos eleitores. Essa responsabilidade recairá sobre Trump e seu partido.

Da promessa de empregos à repressão policial

O fracasso econômico também explica a política repressiva adotada pelo governo. Sem conseguir recuperar os empregos e os salários, Trump intensificou a perseguição aos imigrantes, apresentados pela propaganda republicana como responsáveis pelo desemprego.

O Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) recebeu poderes ampliados e realizou um número recorde de prisões. O governo também reprimiu manifestações contra sua política de deportações.

A repressão deveria demonstrar que Trump estava cumprindo suas promessas de proteger os trabalhadores norte-americanos. Entretanto, atacar os imigrantes não resolveu a crise industrial, não aumentou os salários e tampouco reduziu o custo de vida.

As operações policiais ainda provocaram uma reação contrária entre setores da população. Segundo pesquisa CBS/YouGov realizada em outubro, 59% dos eleitores de origem latino-americana consideram que o governo está deportando mais pessoas do que esperavam. A mesma proporção avalia que Trump dedica atenção excessiva às deportações.

O presidente procurou compensar, por meio da repressão, sua incapacidade de enfrentar os problemas econômicos que haviam levado milhões de pessoas a votar nele.

Democratas avançam apesar de sua impopularidade

A consequência eleitoral dessa política poderá ser a perda do controle das duas casas do Congresso.

Os democratas aparecem à frente em disputas importantes na Carolina do Norte, Maine e Ohio. Também se tornaram competitivos em estados tradicionalmente republicanos, como Texas, Kansas e Alasca.

A dimensão da possível derrota de Trump fica ainda mais clara quando se considera a impopularidade de seus adversários.

Segundo a pesquisa da NBC, apenas 29% dos eleitores têm uma opinião positiva do Partido Democrata, enquanto 38% avaliam positivamente os republicanos. Aproximadamente metade da população tem uma opinião negativa de ambos os partidos.

Os democratas não conquistaram essa vantagem porque apresentaram uma alternativa à política imperialista. Pelo contrário, durante o governo de Joe Biden, foram responsáveis pela continuidade da guerra contra a Rússia e pelo apoio militar ao genocídio promovido por “Israel” na Palestina.

Agora, procuram explorar demagogicamente os resultados da política de Trump, embora defendam os mesmos interesses fundamentais do imperialismo norte-americano.

O fato de os eleitores estarem dispostos a entregar o Congresso a um partido tão rejeitado demonstra a profundidade da crise presidencial. Parte daqueles que apoiaram Trump em 2024 passou a considerar os democratas uma alternativa, não porque tenha adquirido confiança neles, mas porque se decepcionou com o próprio presidente.

A contradição central do governo é que Trump chegou ao poder apoiado por setores da população que rejeitavam a política tradicional do imperialismo, mas não teve condições de enfrentá-la. Suas tentativas de recuperar a indústria foram limitadas pelos interesses dos grandes capitalistas. Sua promessa de acabar com as guerras foi abandonada diante das pressões do aparato militar e financeiro de Washington.

Ao se render a esses interesses, perdeu o apoio de parte dos eleitores que acreditaram em suas promessas. Se as projeções eleitorais se confirmarem nesta terça-feira, os republicanos sofrerão uma derrota provocada não pela popularidade dos democratas, mas pelo fracasso de Trump em realizar a política que o levou à Presidência.

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