Na segunda-feira (20), o governo dos Estados Unidos determinou que o delegado da Polícia Federal (PF) Marcelo Ivo de Carvalho deixasse o país após sua atuação no caso que levou à prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem em território norte-americano. A medida, anunciada publicamente pelo Departamento de Estado e mantida sem explicação formal detalhada ao governo brasileiro, aprofundou de imediato a tensão entre o Brasil e os Estados Unidos. Nesta terça-feira (21), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na Alemanha, que pode responder com reciprocidade e expulsar agentes norte-americanos em atividade no Brasil.
O episódio atingiu a cooperação policial entre os dois países e passou a ser tratado, por integrantes da diplomacia e da área de segurança, como uma das mais graves crises bilaterais dos últimos anos — provavelmente a maior desde o episódio da Lei Magnitsky.
Marcelo Ivo de Carvalho atuava como representante da Polícia Federal junto ao Immigration and Customs Enforcement (ICE), em Miami, na Flórida. Sua função era coordenar ações de cooperação entre Brasil e Estados Unidos em investigações transnacionais, operações migratórias e localização de foragidos. Segundo as informações publicadas na imprensa, ele era o único delegado brasileiro lotado diretamente nas dependências do órgão norte-americano, o que lhe dava papel central na interlocução entre as autoridades dos dois países.
A crise explodiu depois da prisão de Alexandre Ramagem. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal e apontado pelas autoridades brasileiras como foragido, ele foi detido pelo ICE nos Estados Unidos, mas acabou solto pouco depois. A Polícia Federal divulgou que a prisão havia sido resultado de cooperação internacional entre os dois países. O governo Trump, no entanto, adotou publicamente outra versão e transformou a operação em motivo de confronto com o Brasil.
Em nota divulgada nas redes sociais, o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, vinculado ao Departamento de Estado, afirmou que “nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”. Sem mencionar Marcelo Ivo pelo nome, o órgão informou que havia solicitado a saída do “funcionário brasileiro em questão”.
A acusação norte-americana é a de que o delegado teria tentado enquadrar o caso de Ramagem como deportação por visto vencido, e não como extradição. No primeiro caso, o trâmite migratório poderia ser mais rápido; no segundo, haveria um processo formal de extradição, com exame mais amplo do caso pelas instâncias competentes dos EUA.
Em Brasília, a reação foi de surpresa. Fontes da Polícia Federal disseram que a corporação não havia sido formalmente comunicada da decisão no primeiro momento. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que a medida “não tem fundamento” e lembrou que o delegado atuava em missão oficial, com base em entendimento de cooperação firmado com as autoridades norte-americanas.
Durante agenda em Hannover, o presidente declarou que, se ficar configurado abuso contra o policial brasileiro, o governo adotará reciprocidade contra agentes dos Estados Unidos que estejam no Brasil.
O episódio se soma a outros atritos recentes. Reportagens publicadas no mesmo dia indicam que Darren Beattie, enviado do governo Trump para o Brasil, teria atuado pela soltura de Ramagem e pela revogação da permanência do delegado brasileiro nos EUA. O nome de Beattie já aparecia em outro foco de tensão, depois que seu visto para viajar ao Brasil teria sido revogado pelo governo brasileiro por suposta má-fé no pedido de entrada.





