São Paulo

Identitários alucinados da UP chamam polícia contra candidata do PCO em debate

Ação ocorreu depois que Izadora Dias defendeu a divisão por sexo no sistema carcerário

A candidata do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo de São Paulo, Izadora Dias, denunciou ter sido alvo de uma tentativa de interrupção de sua fala e de um chamado à polícia durante um debate sobre saúde realizado na noite de quarta-feira (30), na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

O encontro, marcado para as 19h30, foi promovido pela Associação Paulista de Saúde Pública (APSP) em conjunto com a Faculdade de Saúde Pública da USP, com apoio do Centro Acadêmico Emílio Ribas (CAER). A organização informou no início da atividade que todas as candidaturas ao governo paulista haviam sido convidadas. Compuseram a mesa Izadora Dias, do PCO; Vivian Mendes, da Unidade Popular (UP); Carlos Machado, do Partido Comunista Brasileiro (PCB); e Mariane Pinote, como representante da candidatura de Fernando Haddad, do PT. Nenhum dos convidados presentes, à exceção da própria Izadora, confrontou os histéricos que tentaram interditar o debate.

A confusão ocorreu quando o debate entrou na discussão sobre políticas destinadas às mulheres. Segundo Izadora relatou posteriormente em entrevista ao Diário Causa Operária, ela foi questionada sobre o que faria, caso eleita, em relação aos problemas enfrentados pela população carcerária no estado de São Paulo.

A questão apareceu durante a rodada de perguntas enviadas pelo público. Uma das perguntas tratava especificamente das mortes e dos maus-tratos sofridos por mulheres dentro do sistema prisional. Antes de Izadora, Carlos Machado e Vivian Mendes responderam à questão, abordando o encarceramento em massa, as condições das prisões e a política de drogas.

Entre suas respostas, Izadora defendeu que o sistema penitenciário mantivesse a divisão dos presídios segundo o sexo.

“Os presídios precisam ser definidos pelo sexo. Há muita denúncia de mulheres que estão sendo ameaçadas, que estão sofrendo com a presença de mulheres trans”, afirmou. A candidata mencionou denúncias de agressões e também “o desconforto de mulheres estarem dividindo celas com pessoas” do sexo masculino.

Em seguida, Izadora colocou a discussão nos seguintes termos: “Todo mundo fala em defender a mulher, mas o que é mulher? O que estamos definindo como mulher? Porque, para defender as mulheres, a gente precisa ter essa definição”. A candidata acrescentou: “Aqui estamos no setor de medicina, né? E o princípio no setor de saúde, o princípio básico é a ciência”.

Izadora, que coordena o Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo, já havia discutido anteriormente a questão dos presídios, banheiros, esportes e outros espaços destinados especificamente às mulheres. Em entrevista realizada pelo DCO com a Associação MATRIA, em abril, a questão das penitenciárias já aparecia entre os pontos de divergência em torno das políticas baseadas em sexo e identidade de gênero.

Uma participante presente na plateia contestou a posição apresentada pela candidata. A intervenção partiu de uma representante do CAER. Depois que as quatro pessoas da mesa haviam respondido à pergunta sobre o sistema prisional, ela pediu a palavra e declarou considerar “muito grave” o que havia sido dito sobre mulheres trans. “Nós estamos numa faculdade de saúde. Não existe diferença biológica comprovada entre mulheres e homens”, afirmou. Acrescentou que considerava a fala “muito problemática” e declarou, em nome do centro acadêmico, seu “repúdio” à posição apresentada por Izadora.

A representante do CAER afirmou ainda que “fobia é crime”. Izadora imediatamente pediu direito de resposta: “Se ela falou em relação à minha [fala], eu deveria ter um direito à réplica”. A mediação decidiu então incorporar a intervenção da estudante à última rodada de perguntas, dando a Izadora e aos demais integrantes da mesa a oportunidade de se pronunciarem.

Izadora respondeu que o PCO não modificaria suas posições para acompanhar aquilo que fosse considerado mais aceitável em determinado ambiente. A candidata declarou:

“O Partido da Causa Operária não muda sua opinião para ficar a reboque da opinião pública.”

Em resposta, participantes ligados à Unidade Popular (UP) gritaram, chamando a candidata de “transfóbica”. Izadora argumentou que não existe, no Código Penal, um crime autônomo de “transfobia” criado por uma lei específica aprovada pelo Congresso. A referência da candidata era à decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2019.

Naquele ano, ao julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão nº 26 e o Mandado de Injunção nº 4.733, o STF decidiu que, enquanto o Congresso não aprovar legislação específica, condutas homofóbicas e transfóbicas podem ser enquadradas nos tipos penais da Lei nº 7.716/1989, a chamada Lei do Racismo. A decisão foi tomada por maioria do Supremo e possui eficácia geral e efeito vinculante.

Durante sua intervenção, Izadora criticou essa decisão e relacionou a ampliação judicial da Lei do Racismo a outros casos de perseguição política e judicial. Conforme a candidata denunciou, instrumentos desse tipo também vêm sendo empregados contra manifestações em defesa da Palestina.

Foi durante essa passagem que parte dos presentes começou a vaiá-la. A menção à Palestina tornou o episódio particularmente significativo: enquanto Izadora procurava relacionar sua posição sobre liberdade de expressão a perseguições contra defensores da causa palestina, sua fala foi recebida com novas manifestações contrárias vindas da plateia.

Em entrevista concedida ao DCO após a atividade, a candidata relatou que estudantes passaram a dizer que ela não deixaria o local porque a polícia havia sido chamada.

“Ao encerrar o debate, estudantes deram o alarme de que eu não ia sair, porque chamaram a polícia para mim”, afirmou.

Depois do episódio, a candidata resumiu sua denúncia em uma frase:

“Defender as mulheres virou caso de polícia.”

* Nota da redação: originalmente, esta matéria se intitulava “Travecada da UP chama polícia contra candidata do PCO em debate”. O título foi alterado, pois os alvos da crítica estavam, de forma covarde, utilizando seu caráter chocante para fugir da discussão colocada.

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