Segundo reportagem do portal G1 publicada em 23 de abril, o governo Lula decidiu não apoiar a criação da Terrabrás, estatal proposta por setores governistas para atuar na exploração de minerais críticos. O recuo ocorre quando uma das principais minas de terras raras do País, em Goiás, está sendo entregue a uma empresa norte-americana.
A venda da Serra Verde, dona da mina Pela Ema, em Minaçu, para a USA Rare Earth, é avaliada em US$2,8 bilhões. O negócio prevê contrato de 15 anos para o fornecimento de 100% da produção inicial a uma estrutura capitalizada por agências do governo dos Estados Unidos e por fontes privadas. Enquanto o governo hesita em criar uma estatal, o imperialismo avança sobre uma riqueza brasileira essencial para a indústria moderna e militar.
A Terrabrás é uma necessidade. Terras raras são usadas em ímãs de alto desempenho, veículos elétricos, turbinas, robôs, eletrônicos, satélites e sistemas de defesa. Quem controla esses minerais controla parte da tecnologia do século XXI. Por isso, os Estados Unidos procuram reduzir sua dependência da China.
O Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras, uma das maiores do mundo, mas produz muito pouco. A contradição resume o lugar reservado ao País: ter a riqueza no solo, mas não controlar tecnologia, beneficiamento, contratos e destino da produção. Sem uma estatal forte, o Brasil vira um mero fornecedor de matéria-prima para potências estrangeiras.
A Serra Verde mostra o prejuízo que o País terá se não houver o monopólio estatal da extração desses minerais. A produção comercial começou em 2024, e a mina pode chegar a 6,4 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras até 2027. Em vez de servir à industrialização nacional, a produção inicial já nasce comprometida com uma cadeia organizada pelos Estados Unidos.
Os deputados Talíria Petrone (PSOL) e Orlando Silva (PCdoB) entraram com uma representação junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo investigação e suspensão da venda. Trata-se, no entanto, de uma medida insuficiente. O Estado precisa bloquear a venda imediatamente, impor controle público e organizar uma política nacional para mineração, pesquisa, beneficiamento e fabricação de componentes.
O papel de Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato à presidência da República, é escandaloso. Um mês antes da venda, o governador de Goiás comemorou um entendimento com os Estados Unidos sobre terras raras e declarou que “Goiás já fechou com os Estados Unidos”. A frase resume sua política. Em vez de defender que esses minerais sirvam ao desenvolvimento do Brasil, Caiado apresenta a subordinação a uma potência estrangeira como conquista. Se, como governador, celebra a entrega de um setor estratégico, como presidente teria instrumentos maiores para abrir a mineração, a energia e a infraestrutura ao capital estrangeiro.
A criação da Terrabrás seria a resposta concreta. Uma estatal poderia mapear reservas, controlar concessões, garantir abastecimento interno, coordenar pesquisa, financiar tecnologia nacional, exigir beneficiamento no Brasil e impedir que contratos amarrem a produção por décadas às necessidades de outro país. Sem ela, o setor fica dependente de agências reguladoras, governadores, fundos privados e empresas estrangeiras.
Defender a Terrabrás significa colocar tecnologia e investimento sob direção nacional. O Brasil não precisa repetir o modelo colonial de arrancar minério do chão e entregar valor agregado ao exterior. Precisa transformar suas terras raras em indústria, empregos qualificados, pesquisa científica, defesa nacional e autonomia tecnológica.



